Renato Russo afirma que há pilotos que se dopam

liviooricchio

20 de fevereiro de 2008 | 12h06

20/II/08

Amigos, Erica Akie Hideshima é repórter do Jornal da Tarde e fez bela entrevista com o Renato Russo, o piloto envolvido no acidente que matou Rafael Sperafico, dia 9 de dezembro na prova de Stock Car Light, em Interlagos. Vale a pena ler.

Só não se atenham, por favor, à questão da causa da morte descrita por Russo: foi a batida do Stock Car de Rafael nos pneus que o matou e não o choque completamente involuntário entre os dois carros.

Isso é uma agressão a quem tem a mais leve noção de automobilismo, como a maioria de nós que gosta desse esporte. Fora isso, o problema do antidoping é bastante atual.

Tanto que no post seguinte, escrito por mim, descrevo o desencontro entre o que diz o doutor Dino Altman e o presidente da CBA, Paulo Scaglione, para a implantação imediada do exame antidoping no automobilismo.

Como aqui é um espaço para expor opiniões, vamos lá: Dino Altman é um amigo, almoçamos juntos com alguma regularidade e, quando estou no País, vou aos autódromos acompanhar as corridas e nos cruzamos sempre.

Admiro sua paixão pelo automobilismo e principalmente sua profunda formação médica, voltada também para as coisas das corridas de carro, tanto que agora no GP de Bahrein fará palestra num evento da FIA, de quem faz parte do corpo médico junto do doutor Gerard Saillant, o mesmo que operou Michael Schumacher e Ronaldo, agora, recentemente.

Por mais que respeite o senhor Scaglione e até o seu desejo de implantar o exame antidoping no automobilismo brasileiro, acredito muito mais num problema relativo à CBA do que na falta de algum dado no projeto do doutor Altman para explicar a razão de não termos ainda no País essa importante prática. Muito mais para dar ainda maior legitimidade e segurança à competição do que para impedir pilotos de serem privilegiados. Em resumo: sugiro a leitura do próximo post também.

Agora o que a Erika redigiu:

A pouco mais de um mês do início da temporada de 2008 da Stock Car, nenhum assunto está tão em alta quanto a segurança da categoria. Na última corrida de 2007 da Stock Car Light, em dezembro, um acidente na Curva do Café, em Interlagos, matou Rafael Sperafico. O carro que o acertou em cheio após a batida nos pneus e a volta à pista foi o de número 62, de Renato Russo.

Russo perdeu 30 centímetros do intestino delgado no acidente. Recuperou-se. Ficou dois meses sem falar com a imprensa, mas recebeu com exclusividade na oficina de sua equipe, a ATW. Revelou que cogitou parar de correr quando pensou que a morte de Sperafico havia ocorrido após o choque com seu carro, mas se sentiu aliviado ao ter acesso ao laudo da necropsia, que, segundo ele, apontou a morte do garoto no primeiro impacto, e não no segundo, como havia sido informado.

Mais do que a segurança nos carros e autódromos, Russo disparou contra a irresponsabilidade de vários pilotos que, garante, usam drogas e ingerem álcool antes de entrarem na pista. Também criticou a falta de fiscalização da Confederação Brasileira de Automobilismo quanto ao uso de equipamentos de segurança.

Como soube da morte do Rafael?
Um amigo chegou e deu a notícia de supetão no hospital. Pedi para ele sair do quarto e fiquei pensando em parar de correr. Mas a família do Cristiano (Federico, seu companheiro e chefe de equipe) teve acesso ao laudo da necropsia, que aponta que a causa da morte foi depois do primeiro impacto, quando o carro ricocheteou no muro e voltou. O Rafael estava sem o Hans (obrigatório a partir deste ano) e teve uma luxação no pescoço. Quando eu bati, ele já estava morto. Se ainda estivesse vivo, certamente teria morrido com a minha batida.

Como vê a segurança na categoria?
No Brasil, começa tudo errado a partir da política. O exemplo é seguido no esporte. Na Europa, quando há qualquer batida, a primeira coisa que os comissários de prova fazem quando o piloto sai do carro é cortar a cinta do capacete para não usar mais. Aqui no Brasil tem cara que usa o capacete por 10 anos e ninguém faz nada. A luva não é antichama, a camiseta de baixo é normal e deveria ser antichama. O pessoal parece não ter muito interesse na segurança, que não é vigiada. Não há comissário para avaliar isso. A maioria pensa: “Nunca vai acontecer comigo.”

Os pilotos são irresponsáveis?
Vários. Acho que também tinha de ter antidoping. Desde o ano passado, o Dino Altman médico da Stock insiste, mas a Confederação nada faz. Não sei como é o desempenho para melhor porque não uso essas substâncias, mas para pior é que o cara perde totalmente os reflexos – e aí saem as porradas perigosas. Depois falam que perderam controle, que houve falha do carro. Tem piloto que bebe uísque antes da largada. Tem gente que fuma maconha, que cheira…E faz tempo.

O que mais está errado?
Além da fiscalização de segurança dos pilotos, que ninguém faz, acho errado colocar gente que nunca andou de turismo. Tem uns três ou quatro que não sabem o que é carro de corrida e estão lá porque os pais têm dinheiro. Quando eu entrei, tinha de ter um título nacional de kart, turismo ou de fórmula. Eu era vice-campeão brasileiro de F-Ford, 6 vezes campeão brasileiro de kart. Mas tem gente experiente que também não mede esforços: eles vêm e dão na lateral. Pensam que porque são carros de turismo nada vai acontecer. Sem preconceitos, mas tem também os caras que pesam mais de 120 quilos. Como um cara desse vai ter agilidade? Todo mundo sabe que uma pessoa obesa, dependendo do esforço que fizer, pode dar uma apagada. Ou então vai ficar cansada e fazer burrada.

Os pilotos são unidos?
Tinha de rolar uma punição para quem jogou o Rafael para fora da pista, mas não existe união dos pilotos para irem à Confederação cobrar. Só três pilotos foram me ver enquanto eu estava no hospital: o Gustavo Sondermann, que é meu amigão, o Rafael Daniel e o Murilo Macedo. Tem gente que nem “bom dia” dá. Se continuar assim, haverá mais acidentes ainda.

Está pronto para voltar a Interlagos?
Preparado. Sei que vai ter gente que vai me chamar de assassino. Tudo o que posso responder é: “Isso é opinião sua, fazer o quê?”

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