Resultado da corrida já está sob júdice

liviooricchio

26 de março de 2009 | 21h23

27/III/09
GP da Austrália
Livio Oricchio, de Melbourne

Independente de quem estabelecer a pole position, hoje, no circuito Albert Park, em Melboune, ou conquistar a vitória no GP da Austrália, amanhã, o resultado da etapa de abertura do Mundial já está sob júdice, para a decepção de milhões de fãs da Fórmula 1. Ontem, as equipes Ferrari, Renault e Red Bull apelaram da decisão dos três comissários desportivos da prova que consideraram “legais” os carros da Brawn, Toyota e Williams.

É fácil compreender o que está acontecendo na Fórmula 1: o regulamento mudou radicalmente do ano passado para este e regras, por exemplo, como a da porção final do assoalho, chamado de perfil extrator, foram alteradas com o objetivo de o carro passar a gerar 50% a menos de pressão aerodinâmica. Quem observa por trás os carros das escuderias Ferrari, McLaren, BMW, Renault, Toro Rosso, Red Bull e Force India vê o perfil extrator, abaixo do aerofólio traseiro, como uma superfície linear continua, de lado a lado.

Já os modelos da Brawn, Toyota e Williams apresentam na área central da porção final do assoalho, bem abaixo do aerofólio traseiro e na altura do câmbio, significativa depressão, definindo um pequeno túnel. “Por causa dessa solução, contra o espírito do regulamento que visa a reduzir a pressão aerodinâmica, a Brawn ganha um segundo por volta”, sentenciou, ontem, como vem fazendo, Adrian Newey, projetista da Red Bull.

Charlie Whiting, delegado de segurança da FIA e diretor de prova, comentou: “A minha visão
é a mesma da dos comissários desportivos. A questão é de interpretação. Tanto o perfil extrator das sete escuderias quanto o da Brawn, Toyota e Williams são legais”. Sua posição é no mínimo estranha já que o perfil extrator de um e outro grupo é muito distinto.

Como muitas das decisões técnicas da Fórmula 1, sua orientação é política. Max Mosley, presidente da FIA, está sempre por detrás. Agora, Brawn e Williams são equipes independentes, menores em tudo em relação às das montadoras, e vão contar com o apoio de Mosley, que não esconde não gostar da presença maciça das indústrias automobilísticas como donas de times.

Mas e a Toyota? A montadora japonesa está decidindo se permanece ou deixa a Fórmula 1 e um bom desempenho, este ano, poderia encorajá-la a continuar. E as próprias posições da Toyota dentro da associação das equipes, Fota, encarada pela FIA, hoje, como sua inimiga, não é das mais contundentes, como Mercedes, BMW, Renault.

“Estamos aguardando o argumento da FIA para justificar que os carros da Brawn, Toyota e Williams são legais”, disse Flavio Briatore, Renault, revoltado como seu diretor de engenharia, Pat Symonds, com a decisão “embora já esperada”, como afirmou. “Os carros são concebidos para o assoalho e o perfil extrator e não ao contrário”, falou o italiano. “Por isso apenas substituir a parte final do nosso carro, fazendo-o semelhante ao da Brawn, Williams e Toyota, não significará, necessariamente, que teremos a mesma vantagem”, afirmou, indignado com os comissários, apesar de saber que decisões desse tipo “atendem a interesses superiores”.

Rubens Barrichello, da Brawn, comentou o apelo realizado por seus concorrentes: “Historicamente é assim, carro rápido, em especial de time pequeno, como o nosso, está sempre sob suspeita de irregularidades”. Lembrou, a seguir, que os três comissários o julgaram de acordo com o regulamento. São eles: Radovan Novak, da República
Tcheca, Olafur Gudmundsson, Islândia, e Steve Chopping, Austrália.

“O Tribunal de Apelos da FIA irá julgar o caso antes do GP da China”, informou, ontem, Whiting. Como antes da etapa de Xangai, dia 19, será disputado o GP da Malásia, dia 5, tudo o que acontecer na corrida de Sepang também vai depender da decisão do Tribunal de Apelos para se saber se valeu ou não.

“É incrível, como se já não bastasse o desgaste das decisões insensatas da FIA nas últimas semanas agora temos de esperar para conhecer o vencedor das provas”, falou Fernando Alonso, da Renault, campeão do mundo em 2005 e 2006. “Se tudo isso fosse decidido há três semanas, hoje estaríamos aqui apenas falando do que a torcida realmente gosta, que é corrida.”