Resultado do teste emJerez sugere que teremos uma supertemporada

liviooricchio

06 de fevereiro de 2007 | 21h22

Uau, que resultado: Pedro de la Rosa com a McLaren MP4/22, o mais veloz do dia em Jerez de la Frontera, hoje, terça-feira: 1min20s001 (108 voltas). Sebastian Vettel, com BMW Sauber F1.07, o 11.º: 1min20s715 (51). Entre o 1º e o 11º há apenas 714 milésimos de segundo.

Não dá para dizer que os 11 mais rápidos nos treinos da Espanha simularam uma sessão de classificação, em que todos estão praticamente na mesma condição. Mas também não podemos fugir da realidade: esses testes começam a oferecer dados a respeito da velocidade dos novos carros, apesar de não conclusivos ainda.

Os 16 pilotos que treinaram em Jerez utilizaram modelos 2007. A Fórmula 1 já vive a temporada que irá iniciar-se dia 18 de março na Austrália. De novo a McLaren sugere que o MP4/22 nasceu sem maiores problemas e, melhor, veloz. Nas mãos de um piloto ultracompetente como Fernando Alonso pode levar a equipe crescer significativamente.

Se for mesmo o caso, será a primeira surpresa do campeonato. Como a McLaren perdeu Adrian Newey para a Red Bull e Nicolas Tombazis para a Ferrari, e quem coordenou o projeto do MP4/22 foi Mike Coughlan, junto de Pat Fry, técnicos que nunca realizaram nada de maior significado no mundo da engenharia de competição, a lógica sugeria que ao menos no início do ano Alonso enfrentasse algumas dificuldades com o equipamento, até mesmo em termos de velocidade.

Pode até ser que lá em Melbourne a verdade se apresente de vez e a McLaren não tenha a velocidade que apresentou em Valência e, agora, em Jerez. Estou apostando, porém, que Couglan e Fry podem ter produzido um eficiente carro de Fórmula 1. Não temos muita referência, ainda, a respeito da sua confiabilidade, sua resistência, o calcanhar-de-Aquiles da McLaren e da Mercedes nas duas últimas temporadas.

Lewis Hamilton, com o outro MP4/22, completou 111 voltas e fez 1min20s233, quarto tempo. Você deve estar pensando: será que 108 voltas com Rosa e 111 com Hamilton não são suficientes para provar que a McLaren resolveu suas dificuldades técnicas? Um GP nessa pista seria disputado em 69 voltas.

É apenas um bom indicativo. Não devemos nos esquecer que a temperatura, hoje, variou entre 9 e 18 graus, condição que dificilmente será experimentada ao longo do campeonato. Quase sempre é bem mais quente. De qualquer forma, o início da McLaren dá toda aparência de ser promissor.

No primeiro testes de verdade com o Williams FW29-Toyota, Alexander Wurz completou 72 voltas, nesse estágio da sua preparação a informação mais importante, e ainda marcou 1min20s036, segundo tempo. Boas chances de ter utilizado pneus novos no fim do treino e pouca gasolina no tanque. Mas é, como no caso do MP4/22 da McLaren, um dado que joga a favor da credibilidade do projeto.

Conversei com Patrick Head, aqui em Interlagos, nos dias do GP do Brasil, e ele me contava com entusiasmo as mudanças que promoveu no seu staff técnico. Torço pela volta da Williams a condições mais compatíveis com seu passado de conquistas. Não acredito que ficará entre os quatro últimos, como em 2006. Vamos prestar atenção nos resultados do FW29 nos próximos dias.

A nova BMW Sauber F1.07 já é uma realidade: o carro representa um avanço em comparação ao seu antecessor. Coloco algumas das minhas fichas que irá se aproximar dos mais velozes. Chamou a atenção a extraordinária evolução do monoposto ao longo da temporada passada, como terminaram bem o ano. Se for mesmo veloz como a cada teste dá mostras de ser, com a capacidade de desenvolver o projeto que o grupo dirigido por Willi Rampf tem, a BMW deve crescer mais. Hoje Robert Kubica ficou com o terceiro tempo, 1min20s159 (46 ).

Não sei você, mas esses tempos de hoje atiçaram ainda mais minha vontade de estar no circuito Albert Park, sábado, dia 17, para acompanhar as duas primeiras seções da sessão de classificação, onde em geral se acelera fundo e os carros estão bem leves.

Kimi Raikkonen obteve o quinto tempo com a Ferrari F2007, 1min20s245 (86). Felipe Massa não treinou. Febre elevada levou a Ferrari a substituí-lo por Luca Badoer. 244 milésimos entre o tempo de Raikkonen e o de Pedro de la Rosa. De repente, a McLaren, que usava pneus Michelin, fez um monoposto tão rápido que foi capaz de não só reduzir a diferença que a separava da Ferrari como até mesmo ultrapassá-la em velocidade? Detalhe: a Ferrari compete com pneus Bridgestone, monomarca hoje na Fórmula 1, desde 1999.

É possível, lógico, mas o histórico da competição propõe ser bastante difícil. É por isso que se criou essa expectativa toda com relação às primeitas etapas do Mundial, quando teremos a resposta a essas dúvidas.

Dá para ver que a Ferrari não deve repetir um campeonato como o de 2004, por exemplo, quando seu carro era muito superior ao da concorrência. Raikkonen e Massa devem lutar lá na frente, mas não enfrentarão adversários despreparados. Pelo contrário. Até aqui, tudo o que a pré-temporada mostrou foi que ao contrário do que muitos imaginavam, dentre eles eu, a Ferrari não deverá ter maiores vantagens por já conhecer as características dos pneus Bridgestone.

Esses 714 milésimos de segundo entre o 1º e o 11º no treino de hoje podem, de repente, serem reveladores do que nos aguarda este ano. Ainda que a Ferrari não deva estar muito preocupada em registrar tempos excepcionais, em nenhum instante Raikkonen, o único até agora a confrontar-se com os demais modelos 2007, deu mostras de poder se impor nos ensaios, como ocorria na maioria dos últimos anos.

Hoje Massa vai se juntar ao finlandês. Meu feeling é de que o início do Mundial não será o mar de rosas que a Ferrari talvez sonhou.

Não imaginemos, por favor, que a Renault é isso que demonstrou hoje: Nelsinho Piquet, 1min21s264, o 13º tempo, e Ricardo Zonta, 1min21s392, o 14º. Agora observe só: Nelsinho completou 117 voltas, ou quase dois GPs, e Zonta, 67. Claramente a Renault visava verificar como o R27 se comporta ao longo de uma corrida.

Se o carro tinha no tanque, em média, 60 quilos de combustível, como normalmente faz, até que a marca de Nelsinho é muito boa. Em Jerez, a cada 10 quilos a mais de gasolina perde-se 3 décimos de segundo no tempo de volta.

Numa situação hipotética, mas não fantasiosa: a Renault de Nelsinho possuía cerca de 40 quilos a mais da McLaren de Pedro de la Rosa. Tenho comigo que essa era mais ou menos a diferença. Como sem esses 40 quilos Nelsinho poderia ter sido cerca de 1 segundo e dois décimos mais rápido, veríamos que potencialmente, em termos de velocidade, o R27 está no mínimo no mesmo nível da nova McLaren.

Coloque nessa balança que Nelsinho não tem ainda experiência suficiente com a Fórmula 1 e Pedro de la Rosa cresceu em Jerez. Com tudo isso, a vantagem passa para a Renault, apesar de os tempos de hoje sugerirem o oposto. Para não falarmos da confiabilidade do conjunto. É nisso que aposto.
Amanhã tem mais!

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