Robertville, Bélgica, 25/VIII/11. Diário de Bordo. Dia 1.

liviooricchio

26 de agosto de 2011 | 09h55

25/VIII/11

Livio Oricchio, de Robertville, Bélgica

 300 quilômetros (km). Mais precisamente, 300 km e quinhentos metros, medidos no odômetro do meu Skoda Fabia. Essa é distância do estacionamento da Europcar no aeroporto de Frankfurt até a casa em que estou hospedado, em Robertville, na Bélgica, a 12 quilômetros de onde paramos o carro dentro do circuito de Spa-Francorchamps, ao lado da famosa e desafiadora curva Eau Rouge.

  Se você procurar a cidade num mapa, saiba que terá de ser rico em detalhes para localizá-la. Pequena, muito pequena, mas simpática, aconchegante, rural, situada numa região linda, a cadeia de montanha das Ardenas, na fronteira da Bélgica com a Alemanha. A região chama-se Wallon. Há uma represa aqui do lado, onde me hospedei em várias ocasiões, no hotel Residence du Lac, do senhor Felix, falecido no ano passado. Bela propriedade, com área para esportes, piscina aquecida coberta. A esposa, abatida, vendeu tudo.

  Fiz amizade com o senhor Felix. Era de uma dedicação única comigo. Conversávamos as noites, até bem tarde. Gostava de me contar suas experiências na Segunda Guerra Mundial, aqui mesmo, durante a ocupação alemã. Mais para a frente vou abordar a questão da Segunda Guerra aqui na região do circuito Spa-Francorchamps, que é fascinante.

  Desenhei a minha cozinha, na casa que possuo na serra da Cantareira, próxima a São Paulo, a partir da disposição da existente na sua graciosa residência. Tirei fotos depois de pronta e levei ao Felix e à esposa para ver o meu quase plágio. Eles adoraram as soluções que criei partindo da base de ocupação de espaço da sua cozinha.

  Prefiro vir para cá direto de carro de Frankfurt a voar para Bruxelas e então dirigir até aqui. Na Bélgica há controle bem mais rigoroso de velocidade, enquanto na Alemanha, a não ser nas proximidades das entradas e saídas das cidades, não há limite nas autoestradas. Acredite, você gasta quase o mesmo tempo de Frankfurt a Spa que de Bruxelas ao circuito.

  Sem falar que cruzamos áreas que me agradam muito, como a da cidade de Koblenz, cortada pelo rio Reno, e a região da fronteira alemã, belga, holandesa e francesa, onde são produzidos renomados vinhos, segundo os enólogos. Apesar de todas as oportunidades de que disponho para entender de vinhos, como ser ítalo-brasileiro e morar na França, limito-me a dizer, no máximo, paladar mais ou menos agradável, acompanha bem este ou aquele prato.

  Roteiro para vir de Frankfurt a Robertville: bem próxima ao aeroporto acha-se a entrada para a autoestrada 3, sentido Norte, Köln, ou Colônia. Na altura do km 110 controlado pelo odômetro, sair para a 48, direção Koblenz, e seguir para Trier. Estar atento depois de 60 km na 48 para a saída que nos leva ao circuito de Nurburgring, na altura de Ulmen. Marcar, agora, exatos 40 km. É a distância para o entroncamento da 48 com a autoestrada 60 ou 42.

  Seguir para Wittlich e Bitburg, Alemanha e, na sequência, St Vith, Malmedy e Liege, já na Bélgica, sempre pela 60. Até aqui, com exceção de um pequeno trecho de cerca de 12 quilômetros, todo o restante se faz em pistas de duas ou três faixas de rolamento. Sair em Malmedy na 60, cruzar a cidade e seguir pela vicinal para Robertville. A casa alugada em que me encontro acha-se no km 3,6 dessa poética estradinha, permeada de residências características das Ardenas, parte com seu rebanho de gado bovino leiteiro e ovino. Estão sempre floridas no verão, como agora. Bem, verão no conceito deles, que fique claro, por favor. Da 48 até a saída para Malmedy, na 60, são 90 km. Os 10 km finais referem-se à distância de Malmedy à casa em Robertville.

  Tempo total de viagem, incluindo uma parada de 15 minutos por interrupção do tráfego na 48, decorrente de obras: 3 horas. Pessoas fora do carro a conversar, aguardando a liberação da estrada. Acontece. Dá para ver que apesar de não existir limite de velocidade na Alemanha, não abuso: costumo me deslocar a 140, 160 km/h, dependendo do modelo, 180 km/h, velocidades seguras para o carro, condições de excelência da estrada e, principalmente, o nível de educação dos motoristas.

  Falam a mesma língua e, em geral, ninguém se sente com mais direitos que os demais, como acontece com frequência em sociedades onde parte importante dos cidadãos do judiciário, por exemplo, se consideram “diferenciados” e fazem greve por aposentadoria especial. Pasmem, amigos, existe país assim! Esses indivíduos que, antes de ninguém, deveriam defender os mesmos direitos a todos, consideram-se merecedores de direitos especiais. Se pertencerem às instâncias mais elevadas do poder, então, deuses onipotentes. Sem que uns diabozinhos lhe enfiem o tridente através do pescoço.

  É comum você estar na Alemanha a 160 km/h e passar do seu lado um Audi R8, hoje o meu esportivo favorito, modelos Porsche, Mercedes, BMW, Ferrari, Bugatti, Lamborghini, dentre outros, em velocidade bem superior. No mínimo a 220 km/h: cena regular.

  A casa onde estou é enorme. Há três planos que acompanham a topografia em declive do sítio. Nem sei direito o número de suítes. No andar superior estão a Tatiana, da Folha de São Paulo, a Linda, jornalista holandesa, há muito nossa amiga, o Ico, da rádio Bandeirantes, jornal Lance e site TotalRace, o Felipe Motta, da rádio Jovem Pan e do TotalRace. Há ainda mais hóspedes, como o Lucas Santochi, do site Tazio, e três argentinos, amigos antigos também, da TV de seu país.

  Todas as dependências são espaçosas e os quartos têm seus próprios banheiros, o que garante a privacidade de cada um, fundamental para mim. Os proprietários da casa residem numa casa igual, ao lado da nossa. As fotos mostram bem. Todos os dias organizam nas mesas da espaçosa cozinha, com vista para um lindo vale, o nosso café da manhã.

  Há vários anos os brasileiros se instalam aqui. Até mesmo o pessoal da Globo ficava na casa. Vou contar uma passagem: não posso precisar o ano, creio que no final dos anos 90, coisa aí de 1996, o Galvão organizou ele próprio o jantar, no sábado. Saiu mais cedo do autódromo, foi a um bom supermercado que há em Malmedy, comprou tudo o que necessitava para o menú que ele mesmo elaborou e preparou a comida. Salada, pasta e uma carne, associada. Tudo muito bem feito. E como ele é mão aberta, não cobrou nada de ninguém. Até mesmo os vinhos.

  Se eu contar o que aconteceu na sequência vocês vão rir. Começamos com um jogo que não me lembro o nome, mas é sobre cultura geral, questões bem elaboradas. Sai-me bem, recordo. Uma das perguntas, sempre com múltipla escolha nas respostas, questionava a força que atua quando um corpo muda de movimento, questão de ciência física.

  Isso foi de sábado para domingo. E todo mundo tinha de acordar cedo, pois havia ainda o warm up e tínhamos de estar lá. Dá de acontecer alguma coisa… jornalista tem de estar no local do evento. Mas alguém começou a fazer mímica, o que acabou imitado pelo outro e, no embalo de garrafas de vinho, de excelente qualidade, a maior parte do grupo se viu, de repente, brincando de mímica, como bons e felizes adolescentes.

  Nessa época, 15 anos atrás, a maior parte estava chegando aos 40 anos de idade ou tocado nela já. A geração que está aqui hoje precisará de alguns anos ainda para atingir os 40.

  O Galvão adora tanto bons vinhos que desde o ano passado produz o seu, no extremo sul do Brasil, no paralelo 31, na fronteira com o Uruguai. Na época dele na casa, contudo, gostávamos de lhe aplicar peças, oferecendo vinhos de qualidade regular pintados como requintados, a fim de vê-lo elogiar, induzido pela nossa apresentação calorosa e falsa. Hoje seríamos desmascarados facilmente.

  Não preciso dizer que a coisa da mímica foi longe. Primeiro nomes de filmes, depois grandes episódios históricos, descobertas científicas, nomes de livros etc. 4 horas da manhã e nada de o pessoal ir para a cama. 5 horas e alguém pôs um limite. Não me lembro quem. O fato é que dormimos se tanto 4 horas. Mas, tenha a certeza, está dentre as noites mais prazerosas que tivemos nesses anos todos. Voltamos salutarmente no tempo. E descobrimos não ser pecado. O duro foi enfrentar a dura jornada do domingo, sempre um dia trabalhoso, tendo dormido tão pouco.

  Esqueci de dizer que no sábado, antes do jantar, ainda houve tempo para um jogo de basquete, pois há na casa uma área com tabela e vários equipamentos para a prática de esportes. O Galvão mostrou o que sabe, pois jogou basquete por muitos anos. E pesava bem menos de hoje também. Além de cerca de 15 anos mais jovem. Faz diferença.

  A turma agora é infinitamente mais comportada. Com exceção do sábado, onde reunimos os que estão hospedados e outros amigos, como o pessoal da Globo, os ingleses David Tremayne e Jo Saward, dentre outros, todo mundo vai cedo para os seus quartos. E mesmo sábado o encontro não tem a movimentação de antes e muito menos sua extensão. Mas é igualmente agradável.

  Pagamos um dos valores mais baixos na temporada, apesar de ser dos locais onde mais bem nos instalamos: este ano custará cerca de 400 euros por pessoa. Claro, as despesas para nossa reunião de sábado são à parte, mas da mesma forma não representam muito. Junte isso ao aluguel do carro, no meu caso 229 euros (serão outros 160 euros de gasolina), mais algo como 300 euros com alimentação nesses dias na Bélgica e Alemanha, outros 100 euros extras, sempre presentes, e verá que a corrida em Spa está dentre as que menos gastamos.

  Está ficando tarde, amigos. A história da Segunda Guerra Mundial fica para amanhã, combinado? Agora quero terminar meu livro de contos do mestre dos mestres da literatura brasileira, Joaquim Maria Machado de Assis. A maioria deles estou relendo. Ou melhor, todos.

  Pensa que o homem redigiu os textos há uns 150 anos. Estava muito, muito além do seu tempo. Suas análises da complexa alma humana são tão vastas, profundas e eternas que me surpreendo, regularmente, refletindo sobre seus riquíssimos e dúbios personagens e as ricas tramas criadas. Temos a sensação de que Dom Casmurro e Quincas Borba realmente existiram.

 Imagino, por vezes, se Machado tivesse a oportunidade de se deslocar por todos os cantos do mundo e travar contato com culturas e valores humanos tão distintos, complementares, antagônicos, surpreendentes, exóticos, conservadores, inconsequentes, egoístas, igualitários etc, como é possível hoje. Se sem sair do Rio de Janeiro, praticamente, entre os distantes 1839 a 1908, já pintou um painel tão abrangente do que é a vida, sua graça, dúvidas, alegrias, temores, fidelidade e adultério, se elevaria a esferas ainda mais elevadas da espiritualidade. Mas para gênios como ele a percepção estática dos fatos e a absorção de conhecimento através da literatura universal já foram suficientes para ampliar e aprofundar dramaticamente sua visão do homem.

  Estou ficando com sono, amigos. Atenuem minha culpa por eventuais equívocos no texto. Como já disse aqui, as minhas letras no Diário de Bordo emergem do calor da emoção. Não reviso a escrita e tampouco realizo pesquisa. Se está no arquivo vivo então pode ser utilizado. E nem sempre é preciso. Por isso não leio o Diário nos dias que se seguem, para não ficar, eventualmente, chateado comigo mesmo.

  Amigos, boa noite. Quase uma hora da manhã. As histórias da Segunda Guerra Mundial ficam para amanhã, combinado?

  Abraços!

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.