Salvar vidas, o legado do doutor Sid

liviooricchio

13 de setembro de 2012 | 17h29

13/IX/12

Livio Oricchio, de Nice

Olá amigos!

Não acessei a internet desde ontem à noite e, portanto, soube apenas há pouco da morte do doutor Sid Watkins. É uma perda grande. Triste. O vi bastante debilitado da última vez. A Fórmula 1 deve muito da sua segurança a esse neurologista inglês, sempre solícito e com quem conversei muitas vezes nesses anos todos. Doutor Sid sabia do meu interesse também pela área médica da Fórmula 1 desde 1990, quando pela primeira vez mantive longo diálogo com ele, no circuito de Jerez de la Frontera, na Espanha.

Foi no dia seguinte ao terrível acidente de Martin Donnelly. Encontrava-me atrás do guardrail assistindo à classificação com Roberto Pupo Moreno, que não havia pré-qualificado com a Eurobrun, e um amigo alemão, Horst Hüger. Não sei se já contei essa história aqui. Acho que em detalhes ainda não, e são impressionantes. Agora não é o caso. Assistimos a tudo de muito perto. Havia duas curvas rápidas, em sequência, próximas. Estávamos atrás do guardrail da segunda perna e precisamos nos proteger diante de vermos peças da Lotus voando para todo lado.

Onde desejo chegar é que fiquei desesperado ao ver o corpo de Donnelly no meio da pista, com o banco ainda nas costas, e o carro completamente destruído do tanque para a frente. Do outro lado da pista, atrás do guardrail enfrente onde me encontrava, havia uma ambulância com um médico. Como eu achava que Donnelly não respirava, se aquele médico tentasse a reanimação haveria uma chance ainda. Mas teria de ser imediatamente. Cada segundo contava muito.

O médico estava mais desorientado que eu, que literalmente gritava para ele assistir Donnelly. Estava com um rádio e se mexendo para todo lado sem saber o que fazer, aguardava intruções. Doutor Sid estava dentro do medical car, na saída dos boxes, como desde 2005 faz Gary Hartstein, seu substituto. O que quer dizer que para chegar à curva Ferrari, antepenúltima do traçado, precisava percorrer os quase 4.218 metros de Jerez. E por mais rápido que fosse o seu carro e por mais hábil o piloto, demoraria mais de um minuto, um espaço de tempo impensavelmente grande para uma situação como a daquele acidente.

O que discuti com o doutor Sid foi isso: os médicos que permanecem espalhados pela pista têm de avaliar a gravidade do ocorrido e terem liberdade para agir se for uma condição desesperadora, a exemplo do impacto destruidor da Lotus no guardrail. O médico espanhol não fez nada em Donnelly por obedecer ordens. Foram essas ordens que questionei. Como o doutor Sid compreendeu que eu possuo formação biológica também, ouviu com extremo interesse o que tinha para dizer. Obviamente, teve muito mais importância o que os próprios médicos lhe disseram a esse respeito.

A saber: o acidente de Donnely foi na sexta-feira. A FIA mandou vir da Inglaterra, no dia seguinte, um carro de alta potência para servir ao doutor Sid nos demais dias. O que dispunha era lento e ficou evidente a necessidade de chegar rápido no acidentado. Mas no deslocamento para a Espanha, no sábado, o piloto se acidentou. Tiveram de encontrar lá em Jerez mesmo algo melhor. A partir da etapa seguinte, Japão, o doutor Sid passou a contar com um modelo bem veloz. E o motorista é sempre um ex-piloto experiente.

Quem me contou tudo isso foi o próprio Martin Donnelly, no GP da Coreia do Sul do ano passado. Fiz um post a respeito. Donnelly era o comissário desportivo convidado da FIA.

Hoje, todo o procedimento médico é padrão e deve aguardar, ainda, a chegada de Hartstein. Mas como me disse o doutor Sid, se um dos médicos do posto ao longo do circuito se aproximar do acidentado e compreender a gravidade do caso, como o piloto não respirar, até instintivamente vai agir. Em 1990, por incrível que pareça, não foi o que aconteceu. Quem reverteu uma depressão respiratória em Donnelly, ali no asfalto, foi o doutor Sid. Essa é parte da história que um dia contarei aqui.

Desde aquele GP da Espanha, disputado dia 30 de setembro de 1990, sempre mantive diálogo com o médico da Fórmula 1. Explicou-me muitas das soluções incorporadas à segurança e os estudos que desenvolviam para desenvolver tecnologia a fim de ser aplicada nos carros e nos circuitos.

Ouvi do doutor Sid frases que guardei e vez por outra as uso: “A partir de 1994 deixamos de fazer experiências com os pilotos. Todo recurso que introduzimos nos carros representam o resultado de profundos estudos em laboratório. A segurança da Fórmula 1 deixou de ser empírica para ser científica”. Era o doutor Sid que orientava essas pesquisas. E, convenhamos, que trabalho excepcional foi realizado com os técnicos das equipes e da FIA.

Esse é o maior legado do doutor Sid à Fórmula 1. E há outro mais importante que salvar vidas? Por conta de seu conhecimento como neurocirurgião, criou as bases do padrão de extração do piloto do cockpit, onde a imobilização da coluna cervical é o ponto mais relevante. Banco do piloto e todo o material utilizado nessa delicada operação, em todas os autódromos, segue o modelo criado pelo grupo do doutor Sid.

Poderia me estender muito mais na descrição do trabalho do doutor Sid na Fórmula 1. Gostaria apenas de destacar um aspecto fundamental de sua trajetória na competição: seu lado humanitário. Poucos sabem, mas o doutor Sid orientou Ayrton Senna não disputar a corrida, domingo, em Ímola, em 1994. Ele mesmo me disse. “Nunca vi um piloto tão perturbado como Ayrton, no sábado. Havia enorme pressão sobre ele, por não ter feito pontos nas duas primeiras etapas, e a perda de Roland (Ratzemberger), naquele dia, o desestruturou ainda mais. Falei para ele não correr. Mas Ayrton me respondeu não ser possível”. O doutor Sid me contou com os olhos marejados. Os dois eram muito próximos.

O homem Sid nos deixos aos 84 anos, mas sua obra é eterna. As mudanças nos carros para torná-los mais seguros tendem a, com o passar das décadas, serem substituídas por outras. Mas o conceito criado por ele, de não introduzir nada que não seja o resultado de comprovados experimentos, esse é para sempre.

Abraços!

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