Se Alonso não se desculpasse não disputaria o GP da Grã-Bretanha

liviooricchio

30 de junho de 2010 | 19h30

30/VI/10

Livio Oricchio, de Nice

 Há precedentes até com Ayrton Senna. Em 1990, a FIA só lhe emitiu a superlicença para competir na Fórmula 1 depois de desculpar-se pelas ofensas à entidade. Ontem foi a vez de Fernando Alonso, da Ferrari. Domingo, depois do GP da Europa, em Valência, o espanhol afirmou nas entrevistas em espanhol, italiano e inglês que o resultado da corrida “foi manipulado”. Os comissários teriam trabalhado em favor de Lewis Hamilton, da McLaren.

A exemplo do que aconteceu com Senna, há 20 anos, se Alonso não dissesse, ontem, ‘não foi isso o que desejava dizer, nunca suspeitei da lisura dos comissários’, provavelmente não disputaria a próxima etapa do campeonato, dia 11 em Silverstone, na Inglaterra.

Os líderes da FIA não são santos. Jean Marie Balestre, na sua presidência esportiva de 1978 a 1991, assumiu antes de falecer, em 2008, ter interferido na decisão dos comissários do GP do Japão de 1989 para favorecer Alain Prost, francês como ele, ser campeão, em detrimento de Senna.

 Senna denunciou a manobra. Foi chamado diante do Conselho Mundial da FIA, no início de 1990, para se explicar, mas ratificou sua visão. Em resposta, Balestre avisou Ron Dennis, sócio e diretor da McLaren, equipe de Senna, que o piloto só disputaria a temporada de 1990 depois de negar as acusações e pedir desculpas públicas, o que acabou sendo feito.

 Max Mosley, substituto de Balestre em 1991, tem um rosário de fortes suspeitas de ações deliberadas para atender seus interesses. Em várias situações, visando a favorecer a Ferrari.

 Jean Todt assumiu a presidência da FIA em outubro do ano passado. É bem provável que Todt tenha conversado por telefone com Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari, nos últimos dias. E lhe dado um recado claro: “Se você deseja ver Alonso no GP da Grã-Bretanha, faça com que isente a FIA de qualquer intenção de favorecer seja quem for bem como se desculpe pelas acusações.” Manter a integridade de sua gestão é fundamental para a credibilidade do esporte.

 É possível apostar com elevada possibilidade de vencer que Montezemolo conversou com Alonso, explicou a seriedade do caso e junto com a assessoria de imprensa da Ferrari redigiram o texto de ontem, disponibilizado no site oficial da equipe. “Tive uma reação emocional. Pronunciei coisas fáceis de serem interpretadas equivocadamente, dando margem a suspeitas de manipulação, o que em nenhum momento tive a intenção de dizer.”

 O campeão do mundo de 2005 e 2006, pela Renault, teve de se explicar mais: “Os comissários precisaram tomar decisões difíceis. Não me referi a nenhum piloto em particular, mas de uma maneira geral. Penso que todos devem conversar com calma sobre o ocorrido para evitar que acontecer novamente.” Alonso, poderá, agora, entrar na pista, em Silverstone, dia 9, desde o primeiro treino livre da décima etapa do campeonato.

Que Hamilton já foi ajudado pelos comissários não há dúvida. Na classificação para o GP do Brasil de 2007, quando atrapalhou a volta lançada de Kimi Raikkonen, da Ferrari, com quem disputava o título,  e não foi punido, vergonhosamente, por exemplo. Este ano, no GP da Malásia, fez zigue-zague na frente de Vitaly Petrov, da Renault, e recebeu uma advertência, apenas. No Canadá, desligar o motor da McLaren, na pista ainda, depois da classificação rendeu somente uma multa para a equipe. 

Conversei com Johnny Herbert, ex-piloto de Fórmula 1, conselheiro dos comissários em Sepang, na Malásia. Disse-me que a decisão de não punir Hamilton pelo zigue-zague veio pronta, não lhe cabia fazer mais nada. Hamilton, como já foi a Ferrari por bom tempo,  é regularmente visto com maior carinho pelos comissários, embora eu não tenha visto intenção de não prejudicá-lo em Valência, assim como ele próprio não agiu de caso pensado ao ultrapassar o safety car. Chegou até a hesitar quando viu o safety car.

No caso do GP da Europa  o que faltou foi competência dos comissários. Decidiram tecnicamente de forma que favoreceu o infrator, sem o objetivo de defender esse ou aquele interesse, como por vezes ocorre na Fórmula 1

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