Sorte. A Mercedes vai precisar muito.

liviooricchio

30 de setembro de 2011 | 07h12

30/IX/11

Livio Oricchio, de Nice

A Mercedes forte, capaz de lutar pelo título com Red Bull e, quem sabe, McLaren e Ferrari, dentro de dois anos, é bom para a Fórmula 1. Com a mudança radical no regulamento da competição, a partir de 2014  – volta do motor turbo e o uso de mais de um sistema de recuperação de energia -, e uma montadora como a alemã dentre as protagonistas, faz sentido acreditarmos no interesse de outros fabricantes de automóveis voltarem a investir na Fórmula 1.

Acabo de receber o comunicado da Mercedes anunciando que Geoff Willis e Aldo Costa são os novos contratados. Geoff cuidará mais dos estudos aerodinâmicos enquanto Aldo, projeto e desenvolvimento. Em Monza, ainda, soube que Geoff estava de saída da Hispania. “Não desejava trabalhar na sede da equipe, na Alemanha, administrada por Colin Kolles”, foi o que ouvi. Geoff vive na Inglaterra e parece muito feliz com importantes mudanças na sua vida pessoal. Seria substituído na Hispania pelo alemão Jorg Zender, principal responsável pelo carro da Brawn em 2009, hoje fora da Fórmula 1 por opção própria.

Agora ficamos sabendo a verdadeira razão de Geoff criar resistência para permanecer na Hispania: negociava com Ross Brawn sua transferência para a Mercedes. Já o rumo de Aldo estava bem definido. Há muito sua contratação pela Mercedes era tida como certa. Aldo e Ross Brawn trabalharam juntos, com enorme sucesso, na Ferrari, de 1997 a 2006. Aldo foi dispensado pela Ferrari, este ano, onde estava desde 1996.

O que me chama a atenção no anúncio de hoje é o fato de tanto Geoff quanto Aldo não serem considerados no meio técnicos do primeiro escalão de competência, apesar dos cargos que ocuparam. Antes da Hispania, Geoff foi nada menos de diretor técnico da Red Bull de 2007 a 2009 e Aldo, como disse, da Ferrari. Os dois não deixaram espontaneamente suas equipes. Perderam o emprego.

A especialidade de Geoff é a aerodinâmica e na Red Bull trabalhava com ninguém menos de Adrian Newey, o maior nome em aerodinâmica da história da Fórmula 1, ao lado de seu ídolo, Colin Chapman. Conheço Geoff desde os tempos em que trabalhava na Williams também com Newey, em 1997, 1998, 1999. Geoff fala fluentemente italiano e gosta de conversar com jornalistas. Sempre elogia Newey, mas reconhece ser difícil compartilhar o mesmo espaço.

Já Aldo foi considerado o principal responsável pelo conservadorismo dos projetos da Ferrari nos últimos anos. Havia dentro da escuderia de Maranello um conflito entre as ideias arrojadas, nem sempre eficientes, do desenhista-chefe, Nikolas Tombazis, e a defesa da tradição de Aldo.

  O ex-diretor-técnico funcionava como um freio de mão eternamente acionado para as soluções que poderiam tanto levar a Ferrari a criar escola na Fórmula 1como perder a temporada. Ideias radicais como as defendidas por Tombazis podem tanto se mostrar supereficientes como, na maior parte das vezes, não funcionar. Temos este ano o caso da Renault com o seu sistema de escapamento voltado para a frente. Será muito interessante acompanhar o lançamento do modelo de 2012 da Ferrari, pois será o primeiro de Tombazis sem a censura de Aldo.

Muito bem, esses são os dois reforços da Mercedes, Geoff e Aldo. Na Fórmula 1, às vezes, um técnico não produz o que pode numa equipe e quando se transfere, numa outra dinâmica, nível de responsabilidade e recursos a disposição, seu verdadeiro potencial eclode. Ainda que, em algumas ocasiões, ocorre o contrário. Coordenava trabalhos excepcionais num time enquanto no outro a coisa não fluía.

Newey foi brilhante nos dois primeiros anos de McLaren, 1998 e 1999, campeão com Mika Hakkinen, mas depois não concebeu nenhum outro modelo capaz de conquistar o Mundial. A McLaren introduziu uma espécie de capilarização na sua metodologia de trabalho, onde cada técnico passou a ter responsabilidades menores das anteriores. O método está em curso até hoje. Seu objetivo é evitar que nos casos de saída dos técnicos a estrutura como um todo sinta menos.

E Newey simplesmente não funciona nessa condição. Precisa de espaço, orientar os responsáveis pelos trabalhos em túnel de vento, os designados para desenhar as suspensões, a transmissão etc. A integração é a palavra-chave dos seus projetos. E uma das razões, ao lado da maior maturidade como engenheiro, do seu sucesso. Na Williams, Patrick Head tinha de conter seu espírito, “por demais criativo”, como diz até hoje. Na Red Bull, é Newey e  restante. No modelo da McLaren não existe a figura de um líder central. Agora, este ano, Pat Fry, a trocou pela Ferrari. E, segundo sei, não mudou nada na escuderia de Button e Hamilton.

Sorte a Geoff e Aldo. E a Mercedes. Todos vão precisar. Principalmente a Mercedes.

 

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