Tomara que a França não saia do calendário da F-1

liviooricchio

29 de março de 2007 | 22h28

O comitê executivo da Federação Francesa de Automobilismo (FFSA) solicitou à FIA, hoje, para retirar o país do calendário da Fórmula 1 em 2008. A prova deste ano, 8ª da temporada, dia 1º de julho, está garantida. A razão é a mesma que por pouco não a exclui do campeonato já ano passado: é necessário investir mais dinheiro para promover e organizá-la do que o evento gera de receita.

Não há mágica. Como a corrida é explorada pela iniciativa privada, pode até nem dar lucro, em princípio, o que não se aceita é ter de investir a cada edição para cobrir os déficits gerados. No comunicado da FFSA, está claro que a medida é temporária. E os franceses até mesmo não descartam reverter a situação e o GP voltar a fazer parte do calendário.

Vou ao circuito de Magny-Cours desde a sua inauguração, em 1991. Na realidade o autódromo já existia. Foi a amizade de infância existente entre o então presidente da França, François Mitterrand, e Guy Ligier, proprietário da equipe de Fórmula 1 Ligier, que viabilizou a reforma estrutural do circuito e a transferência da competição de Le Castellet (Paul Ricard) para lá.

Guy Ligier é daquela região, Nevers-Magny-Cours, Borgonha, a cerca de 240 quilômetros ao sul de Paris. A sede do extinto time encontra-se ao lado da entrada do autódromo. Hoje há um museu nas dependências. O Museu da Ligier. Bem montado e organizado, ainda que modesto.

Pouca gente sabe, mas boa parte do patrocínio da escuderia de Guy Ligier provinha de empresas estatais francesas, como a fábrica de cigarros Gauloises – é isso mesmo, o governo possuía uma empresa tabagista – e a petroleira Elf.

O sonho do veterano Guy Ligier manter-se na Fórmula 1 começou a ruir quando Mitterrand deixou a presidência, em 1995. Como alguns contratos estavam ainda em vigência em 1996, Guy Ligier pôde alinhas seus carros com Pedro Paulo Diniz e Olivier Panis naquela temporada. Depois encerrou suas atividades.

O GP em Magny-Cours pode bem ser definido como o GP rural da Fórmula 1. A região é rica na criação do gado charolês e na plantação de trigo e girassol. O público da área não se interessa muito por corrida de carro. E para ir até lá de Paris, Lyon ou Clermont Ferrant deve-se sempre deslocar pelo menos 200 quilômetros. Há ainda o grave problema da falta de estrutura hoteleira dessa região da Borgonha.

Instalei-me por muitos anos, como a maioria dos jornalistas, numa residência alugada, junto de outros amigos, em Varene Vauselle, deve ser essa a grafia, creio. Nas últimas edições da corrida transferi meu acampanhento para outra residência, mais próxima da pista. O trânsito, por conta da existência de uma única via de acesso ao autódromo, é desgastante. Não há hótéis para todos. Profissionais e fãs da Fórmula 1. A saída é recorrer às famílias que alugam quartos ou mesmo as próprias casas.

Lise e Bernard , o casal onde me hospedo. Ambos professores do ensino médio. Têm uma bela propriedade, com pomar e uma área onde mantêm dois cavalos para disputas hípicas. Nada suntuoso, mas dispõem de boa qualidade de vida. Entenda-se bom nivel de moradia, alimentação, transporte e lazer, desfrutar do seu hobbie, montar a cavalo. Tudo sendo professor do ensino médio. O que dizer?

A França não tem mais nenhum astro na Fórmula 1. Não tem nem mesmo representante no campeonato. Como já li uma ocasião, não dá para imaginar o francês de bandeira da Renault na mão gritando “vai, Renault, vai Renault” e se emocionar com uma vitória da equipe. Tem seu valor, lógico, mas não o peso de um piloto francês, como na época do genial Alain Prost.

Bernie Ecclestone sabia já da decisão da FFSA e propôs a realização do GP da França num circuito de rua, a ser criado próximo a uma imensa área livre que existe ao lado da EuroDisney, a 30 quilômetros de Paris. Há até a possibilidade de a corrida regressar ao local preferido de muitos profissionais da Fórmula 1: Le Castellet.

O circuito de Paul Ricard pertence a Ecclestone. Seu maior uso, hoje, porém, está voltado para a realização de eventos automotivos, a maioria não relacionada com competição, mas com as montadoras. Lançamentos de carros, em especial. Na Europa são bem frequentes. Por ser no sul da França as temperaturas são bem mais amenas, mesmo em pleno inverno.

Desde a criação da Fórmula 1, em 1950, apenas em 1955 a prova não foi disputada, em razão do choque gerado pela morte de 86 pessoas (o número é controverso) das 24 horas de Le Mans daquele ano, quando um carro da Mercedes voou sobre as arquibancadas.

Na EuroDisney, em Paul Ricard, seja lá onde for, tomara que o GP da França permaneça no calendário da Fórmula 1.

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