Tudo muito, mas muito diferente…

liviooricchio

09 de novembro de 2006 | 22h12

Em São Paulo vândalos já atacaram, também, a escultura dedicada a Ayrton Senna, no Ibirapuera. E apenas um ano depois da sua morte as placas de bronze sobre seu túmulo, no Cemitério do Morumbi, foram roubadas. No feriado de Finados, agora há poucos dias, foi a vez de o monumento carioca em memória do piloto ser depredado. Choca, mas não surpreende.

No Parco delle Acque Minerali, em Imola, há também uma estátua esculpida em bronze para lembrar o ídolo universal. Foi inaugurada no dia 25 de abril de 1997. Celso Lemos, da Fundação Ayrton Senna, representando a família, Frank Williams, o prefeito da cidade, Rafael de Brasi, o embaixador do Brasil na Itália, Paulo Pires do Rio, além, claro, do escultor italiano Stefano Perotti e dezenas de fãs de Senna e jornalistas, dentre eles eu, estavam na cerimônica.

Havia um bom tempo desde a perda de Senna que a Fórmula 1 não fazia nada que o lembrasse. Foi uma cerimônica simples, mas comovente, como tudo que envolve Senna. Perotti concebeu uma estátua com aproximadamente 1,5 m de altura, sobre uma base de mármore marrom. O posicionou sentado, olhando para longe, o mesmo ponto onde colidiu com a Williams no dia 1.º de maio de 1994. O monumento está também na curva Tamburello, mas do lado oposto onde Senna bateu.

Pode-se até questionar a escolha de Perotti, ao optar por uma imagem triste do piloto, mas como obra artística, de acordo com as críticas expostas na mídia italiana, tem grande valor. Já antes de ser inaugurada, a tela de arame que separa o Parco delle Acque Minerali da pista, ao lado do monumento, já se transformara num espécie de santuário. As pessoas acendem velas, fixam fotos, deixam bilhetes, flores e até presentes.

Ainda hoje é exatamente assim. Mais: impressiona que vai visitar a escultura o respeito que quase todos prestam não só à obra física, mas ao local onde se encontra. Virou um ponto de peregrinação. Fãs ou não de Senna, e até mesmo quem não sabe quem ele foi, reduzem a marcha da caminhada, diminuem o tom da voz, evitam conversar. Vários buscam-se interiormente. Como numa casa religiosa. Contemplam a estátua e a Tamburello.

Não raro, vê-se indivíduos, e aqui o espectro é amplo, senhores, moças, meninos, mulheres já de alguma idade, das mais distintas nacionalidades, orarem. Comoverem-se. Acabam por contaminar quem se aproxima e, naturalmente, geram aquele comportamento de respeito e silêncio citado.

Acompanhei tudo o que aconteceu naquele fatídico 1.º de maio de 1994 a metros apenas da estátua de Senna na Tamburello e boa parte de tudo que se seguiu, como a missa rezada pelo mesmo padre que deu a extrema-unção a Senna, Amedeu Zuffa, se bem me lembro a grafia, no ponto da pista onde ele bateu, mas do lado de fora do muro, junto ao rio Santerno.

Ainda este ano, como sempre faço todas as vezes que vou a Ímola, fui à estátua de Senna no Parco delle Acque Minerali. Apesar de reativar ainda as tristezas daqueles dias – jornalista é um ser humano como outro qualquer -, é importante saber o que se faz no santuário criado pelos que admiram Senna. E o que invariavelmente vejo são demonstrações de grande carinho. Tudo muito, mas muito diferente do que alguns conterrâneos do piloto fazem. Que tristeza!

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