Um Kimi Raikkonen diferente, nessa conversa com o blog

liviooricchio

12 de abril de 2013 | 04h01

12/IV/13
Xangai

Olá amigos. Escrevo da sala de imprensa do circuito de Xangai. Quando vocês assistirem à sessão de classificação pela TV, às 3 horas da próxima madrugada, estejam atentos àquela elipse que sustenta o teclado da arquibancada em frente à reta dos boxes. São duas, uma no início e outra no fim da reta. É de dentro de uma dessas elípses, a da entrada da reta dos boxes, semelhantes aos olhos esticados dos asiáticos, que se encontra a sala de imprensa, portanto de onde, nesse instante, 14h50 para mim, 3h50 de Brasília, coloco este post no ar.

Há tempos pensava em fazer uma entrevista diferente com Kimi Raikkonen. Perguntas não comuns, destinadas a registrar sua reação, o que traria à tona traços da sua personalidade menos conhecidos. Posso dizer que ele se surpreendeu com a conversa. Em vários instantes o senti pensar quando a entrevista iria começar, sem saber que aquela era a entrevista. Andy Stobart, assessor da Lotus, representa uma nova geração de jornalistas, sem os vícios doentios das passadas, ávidos por desejar controlar tudo. E sentirem-se importantes!

Andy disse-me ter gostado da conversa. E sua expressão, enquanto falava com Kimi, num local aprazível, ao lado de um lago, com belíssimos jardins, me dava ainda mais força para prosseguir naquela linha não comum. Sem presunção, por favor, mas gostei do resultado. Ficou diferente. E no fim Kimi não esconde o desejo de ser companheiro de Vettel na Red Bull em 2014. Esse negócio pode sair, amigos, mais para a frente no campeonato.

Vejam e, se puderem, digam-me o que acham, combinado? Abraços!

O texto:
Jamais espere ouvir um “boa tarde”, por exemplo, de Kimi Raikkonen, ao se apresentar para a entrevista. Ou um aperto de mão e “até logo” depois de encerrada. O finlandês de 33 anos, campeã do mundo de 2007, pela Ferrari, chegou e saiu quieto de óculos escuros nesse encontro exclusivo com o repórter do Estado, ontem, na área reservada da Lotus no Autódromo Internacional de Xangai, em meio a belíssimos jardins, em completa oposição ao que Interlagos oferece.

O que o Iceman, ou homem de gelo, não sabia era que teria de falar pouco de Fórmula 1. Na próxima madrugada, a partir das 3 horas, horário de Brasília, o vencedor da etapa de abertura do Mundial, na Austrália, vai disputar a classificação do GP da China, terceira etapa do campeonato.

Há outdoors espalhados pelas cidades onde a competição passa com foto de Raikkonen, garoto-propaganda da marca Clear de xampú. Daí a questão: como é se ver com o cabelo esticado, superpenteado, dividido de lado, já que esse não é você? Segundos para reflexão, sugerindo pensar que a entrevista não começou. Com aquela conhecida voz pausada, para dentro, olhando sempre para um horizonte distante, disse, desinteressado: “Na Fórmula 1 você sempre tem compromissos com patrocinadores, te pedem para fazer essas coisas. É o meu trabalho. Eu o faço e não ligo para isso”.

O outsider James Hunt, campeão do mundo de 1976, pela McLaren, e falecido em 1993, é o seu ídolo. Nunca negou. O inglês apreciava uma bebidinha e fumava. Na sua biografia, lançada no fim de 2010, o autor, Tom Rubython, descreve algumas das muitas farras de Hunt. Em setembro será lançado o filme Rush, do diretor Ron Howard, contando a vida do inglês. “Com certeza irei assistir”, garantiu Raikkonen.

Segundo a mãe, Paula, o piloto da Lotus não tem nada de Iceman. “Ao contrário do que as pessoas pensam Kimi é um coração mole. A família está sempre em primeiro lugar. Acabou de me ligar, queria saber de todos e também do seu cachorro”, disse Paula, em 2008, quando o Estado foi a Finlândia entrevistá-la junto do marido, Matti, falecido no fim de 2011.

Raikkonen é então coração mole, jovem, elegante, rico e famoso. E, há seis meses, solteiro. Como lidar com o assédio feroz das mulheres? Nova expressão de não entender o que se passa. “Sou o que era há dez anos, não mudei. Minha vida fora da Fórmula 1 é exatamente a mesma também. E faço coisas que todos fazem.”

Há quem diga que o finlandês regressou à Fórmula 1, depois de dois anos ausente, 2010 e 2011, por dinheiro. O piloto nega. “Você acha que eu viria para cá por essa razão?”, pergunta ao repórter. “Teria coisa mais divertida para fazer do que ouvir besteiras aqui. Isso vem de gente que desconhece minha vida.” Pode ser apenas uma impressão. Mas uma impressão de mais ou menos 200 jornalistas que acompanham as corridas de Fórmula 1: Raikkonen odeia atender à imprensa.

A questão surge, portanto, como oportuna: se você fosse jornalista e seu entrevistado falasse pouco e demonstrasse estar lá apenas por obrigação, como reagiria, como lidaria com isso? “Acontece que não sou jornalista”. A réplica: “Ok, se o seu engenheiro limitasse a comunicação com você ao mínimo possível e você desejasse saber mais do carro, o que faria? “Cada um trabalha a sua maneira. Se ele me informar o que preciso, mesmo sendo pouco, vamos nos entender.”

A conversa prossegue com a pergunta sobre se tem consciência de que os jornalistas se sentem tão incomodados quanto ele numa entrevista. “Onde você quer chegar?” questiona o piloto da Lotus, com o assessor de imprensa da equipe, Andy Stobart, do lado, parecendo entender o questionamento do jornalista. Não interveio em um único instante. “Seu que é o seu trabalho fazer as perguntas e, para mim, eu as respondi.” Raikkonen, você lê as reportagens a seu respeito. “Sim, as publicadas em finlandês e inglês. Na maioria das vezes reproduzem o que falei. Outras sai tudo bem diferente.” E não é que Raikkonen dá uma risada?

O finlandês riu também, em fevereiro, quando em entrevista ao Estado, em Barcelona, durante os testes, comentou quando perguntado se estava acompanhando o que os concorrentes faziam enquanto os mecânicos substituíam o câmbio da Lotus: “Não tenho a menor ideia, assistia a um filme na TV no motorhome”.

O tema Fórmula 1 finalmente chega à tona. O estado de espírito do piloto, no entanto, não muda. Sugere ser indiferente a tudo. Dietrich Mateschitz, proprietário da Red Bull, afirmou que Raikkonen é um dos nomes para o caso de Mark Webber não continuar na equipe em 2014. “Bem, eu não tenho contrato com ninguém para o ano que vem e existem poucos times vencedores na Fórmula 1”, afirmou, num claro sinal de que o convite seria bem vindo.

Compartilhar a Red Bull com o amigo Sebastian Vettel seria um problema? “Amigos podem ser companheiros de equipe. Vão ser adversários na pista, tudo bem, mas a convivência é possível. Nunca tive problemas com os meus companheiros.” O finlandês diz, ainda: “Não tive contato com ninguém. Na Fórmula 1 até que você assina um contrato não pode dizer nada.” No melhor estilo Raikkonen, declarou sobre ordens de equipe, o tema da quinta-feira no circuito de Xangai: “Não tenho nada a dizer sobre isso”. Como o tempo se esgotou, Raikkonen, avisado pelo assessor, simplesmente se levanta e se retira para, no fim de semana, demonstrar sua imensa competência como piloto.