Um pouco mais de Istambul

liviooricchio

26 de agosto de 2006 | 19h34

Istambul, 26/VIII/06

Sentiu eu respirar fundo? É…estou me preparando para enfrentar o tráfego amanhã, dia da corrida. Pelo que vi nos últimos dias, não sei se será diferente do ano passado. Em 2005, saí do hotel, domingo, às 8h15, de táxi, e quando era meio dia paguei a corrida, 70 euros, abri a porta do carro e fui caminhando até o autódromo, cerca de 1.500 metros, ainda, a minha frente. Estava tudo parado.
Trabalho também como repórter das rádios Globo e CBN e ao meio dia estava previsto iniciarmos a transmissão. E assim foi feito. O pessoal da rádio ligou para o meu telefone fixo na sala de imprensa e ninguém atendeu. Tentaram o celular e me encontraram. Fui para o ar assim, caminhando com meu laptop e outra bolsa na mão, pesada. Oscar Ulisses, o locutor, estranhou minha respiração ofegante e perguntou onde eu estava.
Expliquei que em razão do trànsito não havia chegado ao circuito. O calor de 33 graus do meio dia e as centenas de pessoas que faziam o mesmo ajudavam a dificultar o deslocamento. Conversei, depois, com o Galvão Bueno e ele me disse que, por pouco, não chegava atrasado para a transmissão da TV Globo.
Entrei na sala de imprensa completamente molhado de suor. Pedi, pelo retorno da rádio, para permanecer uns cinco minutos fora do ar, para jogar uma água no rosto, pelo menos. No banheiro da sala de imprensa enchi a mão de sabão líquido e tomei um banho na pia. Ao buscar papel para me enxugar compreendi que não havia mais. Tive de recorrer ao papel higiênico que, obviamente, se desfez todo.
Por mais que procurasse retirar aquele monte de papel que colou em mim, ao entrar de volta na sala de imprensa, correndo, reparei que meus amigos me olhavam de maneira estranha. Vi só no fim da transmissão que havia ainda pedaços de papel no rosto, pescoço, parte posterior do braço. Lindo, artístico! Na ânsia de regressar logo ao ar, ao vivo, você nem se preocupa tanto com essas coisas, ao menos no rádio, já que ninguém lhe vê. Ainda bem. Eu cairia vários pontos no seu conceito. Tenho certeza de que vocês diriam: “Fazia outra imagem desse cara. Tá louco!”
A polícia turca, preocupada com o risco de atentados, planejou um superesquema de segurança. Havia guardas com metralhadoras para todos os lados, já bem antes de chegarmos ao espetacular Istambul Park. Convergiram todos os carros para um único ponto de entrada no circuito, a fim de inspecionar a existência de bombas. Este ano adotaram o mesmo procedimento, por isso penso que experimentaremos o mesmo drama.
A pista encontra-se do lado de lá da ponte do Bósforo, ou seja, na Ásia. Do lado de cá, onde estou em Istambul, o bairro Taksim, o de maior concentração de hotéis, ainda é continente europeu. O estreito divide a Europa da Ásia. Há hotéis, lógico, em pequenas cidades mais próximas do autódromo, numa região à beira mar. Mas são poucos, disputadíssimos e cobram o que desejam nesse período. Quem conseguiu lugar, como meu amigo italiano Romano, não pagou menos de 250 euros por noite só para dormir. Para nós jornalistas é imprescindível dispor de uma estrutura mínima, como telefone e acesso à Internet, a qualquer momento, o que, pelo informado, nem todos dispõem.
Não estou conseguindo conciliar como deveria as várias atividades que assumi, como escrever para o Estadão, Jornal da Tarde e Agência Estado, o Blog e ainda ser repórter de rádio. Mas este é o primeiro GP com o Blog. Já compreendi o que terá de ser esquematizado para cumprir tudo com os rigoros que impiedosamente me cobro.
Qualquer dia vamos conversar como é esse processo de obter as informações para escrever ou falar na Fórmula 1. É um mundo com regras muito próprias. Adora deixar claro que não necessita de você. Se está lá é porque você deseja e não a Fórmula 1. Faz parte do seu marketing. Mas está começando a mudar. É crescente a preocupação das montadoras, hoje donas da maioria das equipes, em rever certas posturas anacrônicas da Fórmula 1, incompatíveis com a imagem que essas empresas desejam repassar da sua marca.
O que pretendo dizer é que escrever é a parte mais fácil do processo, corresponde à pontinha do iceberg. Descobrir, acessar, criar suas fontes para obter a informação é que é o verdadeiro desafio da nossa atividade na Fórmula 1. Colocá-la na tela do computador, mesmo um indivíduo sem experiência jornalística é capaz. Tudo bem, concordo, alguns com óleo sintético, de alta performance, outros com óleo de cozinha, mas o que mais importa é o que você veicula. Estou dizendo isso para contar que esse processo demanda tempo. E esse tempo acaba por comprometer o que você planeja fazer.
Que tal deixarmos de discutir esse tema de natureza mais acadêmica. Percorrer as ruas de Istambul, por exemplo, provavelmente o surpreenderia. Este é um país muçulmano. Esta cidade testemunhou guerras épicas por conta, essencialmente, do conflito entre cristãos, que a chamavam de Bizâncio, e os muçulmanos, autores do nome Istambul, para substituir Constantinopla. Não se sente, aqui, o radicalismo islâmico de outras nações.
Dificilmente se observa, por exemplo, mulheres com as cabeças cobertas. É comum, com o calor que faz nessa época, todos os dias mais de 30 graus, o uso de minissaias e roupas bastante decotadas. A programação dos vários canais da TV turca, da mesma forma, é progressista. Nesse sentido, tem-se a impressão de que não estarmos num país que começa a chamar os fiéis para orar às 6 horas da manhã. Quem tem sono leve, diante do elevado número de mesquitas em Istambul, certamente acordará com os cânticos evocatórios. Soam dos pontos mais altos dos minaretes, através de potentes alto-falantes, e se espalham pelas ruas e avenidas.
É permitida a pluralidade de credo. Há igrejas católicas. E o dia do descanso não é a sexta-feira, como no mundo islâmico, mas o domingo. O alfabeto é o mais usado também no mundo ocidental. Mas as combinações usadas são bem particulares. O nome verdadeiro do meu lugar, aqui, é Sisi. Só que o meu computador não aceita como eles escrevem. Há uma cedilha sob o S. Será que é para enfatizar o S e permanecermos repetindo-o, formando: SSSSSSSiSSSSSSSSSi. Brincadeiras à parte, disseram que a cedilha lhe atribui o som equivalente a um x, assim, foneticamente, seria XiXi.
O mais interessante aqui em Istambul é fazer um city tour histórico. Percorrer as profundas riquezas do local onde se misturam relíquias dos mundos bizantino e otomano. Uma das estrelas é a imponente Mesquita Sofia, outrora uma igreja católica, convertida quando os muçulmanos retomaram a cidade dos católicos. Se bem me lembro da escola, os turcos venceram essa guerra contra os adeptos de Cristo, mais uma delas, em 1457, e o evento estabelece, oficialmente, o fim da Idade Média.
Mas há muito por ver, como a Mesquita Azul, palácios, museus que remontam há séculos e séculos de história. Não é o caso, aqui, de falarmos de turismo, mas tenha em mente que porção significativa da história da humanidade se desenhou aqui.
É comum as pessoas desejarem saber coisas do tipo: como é a cidade, as ruas são bem construídas, limpas, há pobreza? Apesar de aqui ser Europa, ainda, não tem, claro, o padrão de outras nações do continente, como Alemanha, Inglaterra, França. É diferente. Há locais de casas elegantes, visivelmente habitados pelos ricos, como os bairros que acompanham o Bósforo, e outros de edificações simples, de aspecto pobre, não organizados, comuns em muitos adensamentos urbamos em quase todo lugar. Assim como deparamo-nos com regiões limpas, bem cuidadas, a exemplo de algunas áreas de Taksim.
Quem vive em São Paulo se deleita com a possibilidade de caminhar aqui à noite sem os riscos enormes de incidentes, ao menos além dos normais. Pode-se percorrer a avenida ao lado do Bósforo, onde há restaurantes e bares finos com seus terraços voltados para o estreito, sem a paranóia de que, de um instante para o outro, surgirá alguém para lhe roubar e, pior, agredir. Sente-se nas pessoas um certo ar de confiança num comando por detrás de tudo na cidade, apesar dos seus imensos problemas, até mesmo estuturais. Converso bastante com os cidadãos comuns, como o garçom que ainda há pouco me serviu.
Falava inglês com boa fluència e aproveitei para absorver um pouco da sua leitura da vida. Incrível como o brasileiro, em geral, perdeu a noção do que é responsabilidade do governo, seja ele em que esfera for, federal, esse nem se fala, estadual e municipal. Aceitamos, perigosamente, que essas instâncias, no fundo as responsáveis diretas pela qualidade de vida da sociedade, abandonaram seus propósitos de existência e seus representes estão lá apenas visando seus interesses pessoais. Parece algo definido e não possível de ser mudado.
Mesmo aqui, uma nação em que a qualidade de vida média não parece ser essas coisas, há um nível de consciência da função do Estado bastante superior à média dos brasileiros. O garçom, os senhores do bar no dia em que cheguei, os voluntários no autódromo, o recepcionista aqui do meu hotel e atendente da farmácia. Basta uma breve conversa para compreender o que desejo dizer. Noção do que é atribuição do governo e, essencialmente, dos seus próprios direitos. Podem não dispor da força que talvez desejassem para, de imediato, mudar alguma coisa, mas ter consciência de como a sociedade é gerida é fundamental para se propor e promover alterações.
Bom, amanhã eu conto como foi a aventura de chegar no autódromo, dentre outras experiências vividas nesse lugar que me atrai, Istambul, combinado?
Um forte abraço!

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