Vettel é cria de Schumacher

liviooricchio

15 de novembro de 2010 | 08h47

14/XI/10

Livio Oricchio, de Abu Dabi

  Na temporada de 2000 da Fórmula 1, em que Michael Schumacher conquistou o primeiro dos cinco títulos seguidos pela Ferrari, Sebastian Vettel tinha 12 anos e havia posters do ídolo no seu quarto, na modesta casa construída pelo pai, Norbert, carpinteiro até hoje, na pequena Heppenheim, no sul da Alemanha. Ontem Norbert comemorou a conquista com o filho no circuito Yas Marina.

  Ao entrar na adolescência, Vettel substituiu as fotos de Schumacher pelas de mulheres peladas, conforme disse em entrevista exclusiva ao Estado, este ano. Mas também nessa fase ocorreu algo que viria a ser decisivo para dar sequência à carreira de piloto, já iniciada no kart, bancadas com sacrifício pela família e ajuda de amigos. “Eu disputei uma corrida de kart no kartódromo de Michael (Schumacher), em Kerpen, e venci com pneus lisos quando chovia”, conta o mais jovem campeão do mundo.

  E quem lhe entregou o troféu foi Schumacher, em pessoa. O desempenho de Vettel impressionou tanto Schumacher que tomou a iniciativa de apresentar Vettel a Gerhard Noach, o mesmo empresário que o ajudou no começo de carreira. “Meu pai trabalhava e era Gerhard quem passou a me acompanhar às corridas de kart.” Noach também investiu dinheiro na formação de Vettel por ter ouvido de Schumacher: “Neste vale a pena.” Felizmente Vettel não herdou a filosofia de Schumacher, para quem vale tudo para vencer.

  Para a imprensa alemã, Vettel lembrou uma passagem pouco comum vivida por ele na prova de Kerpen. “Eu era fã de Michael e da Ferrari, usava regularmente o boné de Michael. Quando alinhei o kart e depois parei no grid, tirei o capacete e pedi o boné. Mas logo em seguida recebemos ordem para iniciarmos a volta de apresentação.” Vettel diz que tirou o boné e, sem saber o que fazer, colocou no banco, vestiu o capacete e correu assim. “Aquele volume incomodou bastante no começo.” 

  Curiosamente, as trajetórias de Vettel e Fernando Alonso, adversário mais difícil de ser batido ontem, por então liderar o campeonato, se assemelham. O alemão é o terceiro filho de Norbert e Heike, sua mãe. Há duas irmãs mais velhas e um irmão, Fabian, mais jovem, 11 anos, já competindo de kart também. Era a irmã mais velha quem praticava kartismo e despertou o interesse de Vettel. “Eu não queria sair do kart de jeito nenhum”, conta o piloto. O pai tinha de retirar o menino, convencê-lo a sair.

  Alonso também começou a pilotar kart porque seu pai construiu um para a irmã mais velha e, a exemplo de Vettel, se apaixonou tanto pelo que seria apenas uma diversão que definiu seu encaminhamento profissional. As duas irmãs não passam mais nem perto dos karts, mas acompanharam os irmãos mais jovens serem campeões do mundo.

  Deve haver ligação: Vettel vive numa fazenda na Suíça, despojada de grandes confortos, próxima da pequena Baar, quase na fronteira com a Alemanha, onde reside também Kimi Raikkonen, seu amigo. “Costumamos jogar peteca juntos”, diz Vettel. A escolha do alemão provavelmente tem a ver com a origem simples e a educação recebida de Norbert, metade do seu tamanho, e Heike. “Meus amigos de escola estão na universidade, seguem caminhos intelectuais, mas quando nos reunimos somos os mesmos, apesar de eles me lembrarem que nunca vão ganhar o que eu ganho de salário. Não é bem assim”, também afirmou Vettel, em conversa com o Estado, durante o GP em Valencia. Estima-se que vá faturar, contando os pontos por bônus, este ano, 6 milhões de euros. Na próxima temporada, agora campeão do mundo, a Red Bull deve lhe pagar mais.

  A empresa austríaca investe cerca de 30% do seu faturamento de 2,5 bilhões de euros anuais em marketing esportivo. Vettel representa, talvez, o melhor resultado dessa estratégia agressiva de investir no esporte, em especial os mais radicais. “Apoiamos Sebastian desde a Fórmula BMW, depois Fórmula 3 Europeia e a World Series, é um dos nossos maiores talentos”, afirmou ao Estado Helmuth Marko, responsável pelo programa de formação de jovens pilotos da empresa.

  Foi Marko quem ganhou o banho de champanhe no pódio, ontem, junto de Vettel, observados de baixo pelo proprietário da Red Bull, Dietrich Mateschitz, o fabricante de bebidas energéticas que, em cinco anos de Fórmula 1, venceu Ferrari, Mercedes, Renault, fabricante de carros, e organizações como McLaren e Williams, constumeiras campeãs da Fórmula 1. E pensar que quando a Red Bull chegou na Fórmula 1, em 2005, muitos pensaram que era apenas para aumentar sua vendas.

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