Viabilizar a corrida noturna: desafio e tanto

liviooricchio

25 de setembro de 2008 | 16h50

25/IX/08
Livio Oricchio, de Cingapura

A maioria dos fãs de Fórmula 1 está gostando da experiência inédita de a corrida ser realizada à noite. Ainda que os carros até ontem não tenham entrado no Marina Bay Circuit, em Cingapura, já há quem diga que seria legal se outras etapas fossem, da mesma forma, realizada com iluminação artificial. Mas será que todos têm mesmo consciência do desafio técnico e até financeiro que representa a iniciativa?

A idéia não é nova. Quem primeiro a lançou foi Bernie Ecclestone, promotor da Fórmula 1. Seu objetivo principal nem era criar a glamour que já envolve o evento por tudo ser diferente, mas permitir que na Europa a corrida fosse transmitida num horário que não comprometesse a audiência na TV. A inclusão de Cingapura no calendário foi condicionada à aceitação de a corrida ser disputada à noite.

O passo seguinte foi viabilizá-la tecnicamente. A empresa contratada é a Valerio Maioli, da Itália. Há nos 5.067 metros da pista 1.500 refletores equipados com lâmpadas Philips de 2000 watts cada, dispostos num único lado da pista, a cada 4 metros um do outro e a 10 metros de altura. Valerio Maioli é o proprietário da empresa. Ele dá alguns dados: “Serão gerados 3000 lux.”

Lux é a unidade utilizada para se medir a iluminação de um ambiente. Esse valor corresponde, segundo Maioli, a quatro vezes mais o que se observa nos modernos estádios de futebol. E o motivo é fácil de ser compreendido: “Segurança, essa a nossa maior preocupação”, explica o engenheiro inglês Matthew Cobham, da Philips.

Os técnicos tiveram de levar em conta inúmeras considerações. “Em primeiro lugar deve iluminar a pista sem ofuscar o piloto. Depois, temos de ter em mente que os carros podem rodar, girar 360 graus e, mesmo assim, a luz não pode impedir a perfeita visibilidade do piloto”, diz Cobham.

É grande a preocupação de todos quanto à chuva. Os raios de luz poderiam refletir nos pingos e comprometer a corrida. “Tudo isso foi pesquisado e o sistema desenvolvido evita esse fenômeno”, garante o inglês. “Realizamos vários testes. Parte da pista de Paul Ricard foi iluminada como agora em Cingapura e tudo funcionou.” Nelsinho Piquet o experimentou na época, começo do ano. “Foi como se estivéssemos de dia”, falou o piloto, repetindo o que afirmou quinta-feira ao percorrer a pé o circuito de Cingapura.

Atendidos os requisitos de segurança, a próxima etapa visou a área comercial. “Um patrocinador não aceitaria ver suas cores modificadas na TV. Temos de assegurar que tudo será mantido conforme o original”, conta Cobham. Hoje, nesse sentido, o desafio é ainda maior com a geração de imagens em alta definição (HDTV). “Tivemos de atender a esse importante aspecto do negócio.”

Há mais implicações ainda. Apesar de procurar imitar as condições de dia, as luzes não podem incomodar a população em geral, à noite. Ninguém pediu para que a corrida fosse realizada, apesar da aceitação geral. “O traçado escolhido observa o máximo possível do business district”, explica o principal responsável pelo GP, Colin Syn.

A pergunta mais comum a Maioli, Cobham e Syn foi: não há risco de black out e a prova ser interrompida? “Trabalhamos com 12 geradores duplos. Há sempre uma unidade de espera no caso de falha num deles. Realizamos testes que mostraram a eficiência de a rede não cair com esse sistema”, explicou Maioli.

A partir de hoje, às 19 horas de Cingapura, 8 horas de Brasilia, tudo estará à prova. Os três só não dizem uma única palavra a respeito de uma coisa: o investimento realizado para viabilizar a primeira corrida noturna da história da Fórmula 1. “Confidencial”, quase em coro, afirmam.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.