Vivi uma experiência triste no aeroporto de Barajas

liviooricchio

21 de agosto de 2008 | 13h41

21/VIII/08

Amigos, escrevi esse texto ontem, para a editoria Internacional do Estadão. Relata minha experiência como testemunha de um momento triste, o acidente com o avião da Spanair no aeroporto de Barajas, em Madri. Acho válido expô-lo aqui também. Estou na maravilhosa sala de imprensa do interessante e perigoso circuito de Valência e daqui a pouco colocarei no ar algumas reportagens sobre o GP da Europa. Até mais.

O texto:
14h30. Dia 20 de agosto de 2008. O comandante do vôo 338 da Ibéria, de Madri a Valência, informa aos passageiros que não poderá iniciar o táxi no aeroporto de Barajas para decolar por receber da torre de controle a informação para aguardar.

– Nos disseram que houve uma acidente…(pausa)..ali, ali. Olhem para o lado direito do nosso avião, disse, atônito o piloto, ainda com o microfone aberto.

As pessoas dentro do Airbus A320 da Ibéria correram para as janelas do lado direito, ainda no solo. O que viram não vão esquecer tão cedo: chamas muito altas e volume impressionantemente elevado de fumaça negra do ar, já alta. A confirmação de uma catástrofe aérea ficou clara de imediato.

Apesar da distância de cerca de 1,5 quilômetro entre o Airbus e o MD 82 da Spanair acidentado, a quantidade de fumaça era tão grande que tudo parecia bem mais próximo. Dentro do avião da Ibéria criou-se um clima de tensão. Afinal, aquele vôo decolaria duas ou três aeronaves depois do MD 82. Inevitavelmente as pessoas se imaginam naquela situação.

Uma das aeromoças da Iberia comenta ter experimentado momento semelhante não há muito. “Mas conseguimos deixar o avião a tempo”, disse. Mas o que se via sugeria, mesmo preliminarmente, ser algo bem mais sério. Não havia como sobreviver de dentro daquela imensa nuvem densa de materiais em combustão extremamente tóxica e calor que já àquela altura deveria tocar a casa dos mil graus.

Xavier, repórter da Tele 5, passageiro da Iberia, solicita para abrir a porta traseira esquerda do Airbus. Como tinha uma câmara, desejava registrar as imagens, provavelmente únicas para quem estava no aeroporto por não haver nenhum obstáculo, além da distância, para gravá-las.

Sem o plástico da janela as imagens ficam bem melhores. Nesse instante, o que se via era uma fila de caminhões de bombeiro, ambulâncias e carros de serviço deslocarem-se velozmente na direção do acidente.

A ordem do comandante na Ibéria era para manter seus passageiros a bordo, mesmo com o protesto da maioria. A temperatura dentro do avião, com os motores desligados, passava fácil dos 35 graus. Ele pediu desculpas, mas não podia fazer nada, tinha de mantê-los lá.

– Mesmo que a companhia permita, não recomendo, pois somos o terceiro na fila de decolagem depois de o aeroporto reabrir. E como até todos entrarem a bordo iria demorar, nós perderíamos nosso lugar na fila e só sairíamos aqui de Madri bem mais tarde, explicou.

Vários passageiros não se interessaram em acompanhar as imagens chocantes de um superincêndio a tão pouca distância, sabendo que dentro daquelas chamas havia quase 200 pessoas. Com o uso do celular liberado, vários buscavam informações na Internet. Em poucos minutos a parte traseira do Airbus se transformou num centro de troca de dados.

Alguns manifestavam preocupação por ter de voar depois do choque de assistir de relativamente perto os horrores de um acidente dessa natureza. Havia uma especie de contaminação emotiva. O comandante de novo se apresenta, após cerca de 30 minutos das primeiras chamas:

– Não podemos utilizar a outra pista (paralela à 36, do acidente). Para chegarmos lá teríamos de cruzar a 36 e é possível ver quantos veículos a estão utilizando, agora, para prestar socorro ao acidente.

Um dos passageiros informa ter lido que transformaram a parte final da pista em hospital de campanha. Outro comenta ter lido que um paramédico ouviu de um bombeiro não ter muito o que fazer, não poderia sequer se aproximar do núcleo maior das chamas, “tal o calor gerando pela queima de 12 toneladas de querosene existente nos tanques do MD 82”.

Isolados no avião da Iberia foi possível constatar uma realidade cheia de paradoxos: bem poucos estavam tão próximos do ocorrido, mas ao mesmo tempo tão distantes de informações precisas. A Internet falava em 7 mortos, de repente, 48, nada que pudesse se dar crédito. A aeromoça da “experiência semelhante” continuava otimista. Talvez até para não pensar muito na sua atividade profissional.

Já perto das 17 horas, os passageiros do Airbus da Ibéria receberam ordem para desembarcar. Até então todo o oferecido foi um copo d’água. O calor abrasivo continuava o mesmo. Mas nem todos haviam chegado ainda ao salão do terminal 4 do aeroporto de Barajas e a ordem foi cancelada. O grupo viu o comandante e co-piloto, ambos bem jovens, pedirem licença na passarela telescópica para atingirem a cabine de comando.

– Rápido, rápido, recebemos informações de que irão reabrir o aeroporto, afirmou, até para se explicarem aos passageiros que já não entendiam mais nada.

Na decologem, pela pista paralela à 36, foi possível observar de cima, fugazmente, o cenário do acidente. Lembrou filmes de guerra, regiões depois de um bombardeio. Não havia nada inteiro do MD 82. A área estava negra, só restos, consumida pelo fogo de mais de uma hora.

No avião da Iberia pessoas de mãos dadas com outras que nunca viram na vida não eram raras. Só reduziram mesmo a tensão quando, 40 minutos depois, o vôo 338 poucou em Valência. Mas na memória aquela experiência triste, doída, por que não assustadora, permanecerá preservada por bom tempo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.