Viviane Senna, emocionada, fala de Bruno, agora que a F-1 parece inevitável para o filho

liviooricchio

09 de maio de 2008 | 05h54

09/V/08
GP da Turquia
Livio Oricchio, de Istambul

Bruno Senna inicia hoje, em Istambul, a disputa da terceira etapa da GP2, categoria que é a ante-sala da Fórmula 1. Começou muito bem o campeonato. Depois de um segundo e um quarto lugares em Barcelona, apresenta-se para a primeira corrida do GP da Turquia, amanhã, como líder da competição, com 11 pontos, ao lado do português Álvaro Parente. As portas da Fórmula 1 começam a se abrir de forma concreta para Bruno, de 24 anos. Viviane Senna, sua mãe e irmã de Ayrton Senna, acompanha com enorme interesse e, claro, preocupação, sua trajetória nas pistas.

“É o que ele quer fazer. Há vários aspectos nessa história. Fico mais que feliz porque o vejo trabalhando duro para chegar à Fórmula 1”, diz Viviane. “Depois, como ser humano, o Bruno está se realizando, essa é a sua natureza, como era a do Ayrton. Não precisa ser piloto para se sustentar.” Mas depois de perder o irmão na Fórmula 1, em 1994, e o marido, apenas dois anos mais tarde, também num acidente, de motocicleta, Viviane não esconde sua apreensão e se emociona “Tenho muito medo, nunca me passou pela cabeça que poderia acontecer com o Ayrton o que se passou, essa é uma questão muito complicada.”

Mas logo diz que no automobilismo o risco é calculado. “Num circuito tudo é concebido para reduzir ao mínimo as consequências dos acidentes, os carros são muito seguros, há uma estrutura pronta para evitá-las. Procuro levantar essas informações para mim até para não ficar nervosa”, comenta Viviane. Não seria justo, como afirma, impedir Bruno de seguir seu sonho por causa de seus receios. “Meus pais estão lidando muito mal com a carreira do Bruno, é compreensível. Não acompanham, é penoso para eles.” Milton e Neide são os pais de Ayrton, Viviane e outro irmão, Leonardo.

Como psicóloga, Viviane busca formas de entender e apoiar Bruno. “Talvez se meu pai não deixasse o Ayrton correr ele estaria, hoje, vivo, mas não sei de que forma estaria vivo.” É o que não deseja ao filho, vê-lo frustrado no que demonstra maior interesse em realizar na vida: ser piloto de sucesso na Fórmula 1. Viviane se emociona novamente.
Sua postura inicial foi de resistência. “Com 18 anos, o Bruno me disse que desejava correr, sem antes manifestar qualquer intenção. Devia ser coisa da idade, ouve as histórias do tio, pensei. A idéia me assustava.”

Viviane conseguiu “enrolá-lo” por dois anos. Mas um episódio em especial modificou sua maneira de encarar o desafio de Bruno. E faz uma revelação: “Fui dar uma palestra, em Miami”, lembra Viviane. Ela dirige o Instituto que Ayrton sonhou possuir para assistir crianças carentes.

“Ouvi, dentro de mim, claramente, essas palavras: Viviane, você está atrapalhando a vida do seu filho”. A irmã de Ayrton embarga a voz. Respira fundo antes de retomar a conversa. Tão logo regressou ao País, recorda, em 2004, deixou fluir o que sentira de forma tão especial, elevada, e chamou Bruno para uma conversa: “Há várias opções para você nesse mundo do automobilismo, como ser engenheiro, chefe de equipe”, disse-lhe. “O Bruno de novo me garantiu que o que mais desejava era sentar no banco do carro. Então eu lhe falei que a partir daquele momento o ajudaria. O Bruno ficou muito, muito feliz.”

A seguir, uma série de coincidências fez com que Bruno Senna pudesse finalmente, aos 20 anos, iniciar sua carreira. Com essa idade já tem piloto correndo na Fórmula 1, como Sebastian Vettel. “Fui passar o Carnaval no Egito, as coisas não estavam dando certo na viagem. O ex-piloto do avião do Ayrton, um inglês, comentou com o Gerhard Berger que eu estava lá e ele nos convidou, a mim e o Arthur, para visitá-lo na sua casa numa estação de esqui, na Áustria.” Berger, austríaco, era o melhor amigo de Senna na Formula 1. Foram companheiros na McLaren, em 1990, 1991 e 1992.

Arthur Carlos Briquet Júnior é namorado de Viviane há oito anos. “O Arthur curiosamente tinha uma foto do Bruno num carro, durante um treino particular em Interlagos, tirada três dias antes. Não esqueço a reação do Berger ao vê-la. Ficou impressionado. Sua expressão mudou.” As semelhanças físicas com Ayrton são grandes. “Falou assim mesmo: quero o menino aqui. Pediu-me que o Bruno telefonasse para ele.” O impacto da foto levou Berger a agir rápido.

Enquanto aguardava o chamado, Berger, diretor-esportivo da BMW na época, providenciou um teste para Bruno com um carro da Fórmula BMW, em Valência. Foi até lá também. “Quando o Arthur contou ao Bruno, ouviu se tudo era mesmo verdade, se estava falando sério. Não acreditava. Só que um dia antes do teste, o Bruno pegou uma gripe e chegou aos 40 graus de febre. O Arthur teve de chamar um médico. O indicado havia tratado de Juan Pablo Montoya, dias antes, com os mesmos sintomas. Na hora do treino ele se sentia melhor.”

Berger acompanhou o teste de Bruno escondido, no meio da pista, com cronômetro na mão. “E depois me deu a notícia: o moleque leva jeito. A cada frase dele eu quase caía da cadeira”, diz Viviane. “Nos aconselhou a ir para a Inglaterra, disputar a Fórmula 3. Argumentou que o nível de competição é elevado, o Bruno aprenderia muito.” Antes do teste, Bruno apenas treinava de kart. “Quebrou costelas seis vezes. Treinava, uma costela se rompia e tinha de esperar dois meses para consolidar. O Berger explicou que não tinha mais idade para o kart; por nunca ter corrido, não possuía musculatura desenvolvida para suportar as solicitações do kart.”

Nesse instante Viviane comenta conscientizar-se, de vez, que o filho também seria piloto. Dentre as tensões que aquilo iria gerar estavam os riscos da profissão e o possível desgaste de Bruno por ser sobrinho de um dos maiores pilotos de todos os tempos. Viviane se incomoda com as eventuais comparações. “É, Deus não repete o molde, um grande artista não repete a obra. Na época pensei como seria, já que o Bruno estava começando e os meninos tinham anos de experiência. O Brasil é um país exigente nesses casos, cobra resultados. ”

Mas se Viviane tinha receio de ver o filho comparado com Ayrton, o próprio Bruno linda muito bem com a situação. “É impressionante como ele se coloca nesse contexto. Sua preocupação não é em agradar alguém senão a própria equipe. Quando faz algo que reconhece que poderia ser melhor, logo pensa no seu time”, explica Viviane. A irmã, Bianca, tem-se mostrado excelente administradora da carreira de Bruno. “Ela é muito determinada, guerreira, tem imensa capacidade de realizar as coisas. Nas ocasiões em que não posso estar nas corridas, a Bianca é também a minha locutora. Vai narrando a prova por telefone para mim. Passou, passou, não, não, na próxima curva. De repente ela faz ih…e eu fico, aqui, perguntando o que foi, o que foi?” Risos.

Com orgulho e impressionante força interior, a mãe que acompanha Bruno na corrida de Istambul no fim de semana lembrou a trajetória meteórica do filho no automobilismo: pole position e pódio na Fórmula 3 britânica na temporada de estréia, terceiro lugar no campeonato do ano seguinte e agora o desafio da GP2. “Se tiver um bom carro, acredito que poderá fazer sucesso na Fórmula 1. Os tempos são outros, diferentes da época do Ayrton, em que um bom piloto fazia bem mais diferença que hoje. Eu acredito nele, parece uma esponja, pela forma como absorve conhecimento. Em tão pouco tempo demonstrou grande evolução.”

A atividade de Bruno costuma cobrar preço elevado, como diz sua mãe. “As pessoas não têm idéia muito real da Fórmula 1. Vêem fama, dinheiro, glamour, poucos percebem como é perigoso esse mundo, não só do ponto de vista físico, mas humano. Nem sempre os tipos que se aproximam são da maior fidelidade. Vivi tantas histórias tristes com o Ayrton. Ele sempre foi de peito aberto e acabou se fechando, se fechando, decepcionado. Não será fácil também para o Bruno, mas como disse é o que ele quer, nasceu para isso, como o Ayrton.”

Hoje Bruno disputa a sessão de classificação para o grid do GP da Turquia a partir das 10 horas. A largada, amanhã, será às 10 horas também, horários de Brasília. Domingo, às 5h30, acontece a segunda corrida.

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