Webber,Vettel,Horner, estão todos pisando em ovos.

liviooricchio

26 de março de 2013 | 10h54

26/III/13
Nice

Olá amigos. Acabo que chegar em casa, em Nice, na França. Depois duas horas e 15 minutos de voo, cheguei em Bangcok, Tailândia, procedente de Kuala Lumpur, Malásia. Na Tailândia embarquei no voo 181 da Swiss, com quem sempre viajo, e depois de 12 horas e 10 minutos pousei em Zurique. Estamos na primavera, aqui na Europa, mas o frio e a nevasca em Zurique eram impressionantes.

Hoje, terça-feira, a quantidade de neve que cai e a acumulada é brutal. Precisamos esperar cerca de 10 minutos até que veículos especiais lançassem jatos de água para retirar o gelo do A319 da Swiss antes de decolar. O gelo deforma o perfil da asa e redireciona os fluxos de ar. Alguns acidentes graves ocorreram por esse motivo.

Não sei como não fecharam o aeroporto, não se via nada hoje de manhã, das 6 às 9 horas, período em que lá estive.

Redigi um texto ontem à noite no aeroporto de Bangcok e o coloco no ar agora. Antes, porém, uma observação. Li alguns comentários afirmando que não escrevi sobre a corrida da Malásia porque Fernando Alonso envolveu-se num acidente, ainda na segunda curva. E como seria para destacar sua avaliação equivocada, o erro, me omiti. Afinal sou seu fã número 1, ou melhor, número 0, segundo alguns comentários.

Bem, cada um tem o direito de pensar o que bem entender. A essas pessoas recomendo ler as entrevistas da FIA. Estão disponíveis no site da entidade, www.fia.com

Atente às perguntas que faço publicamente ao espanhol. E é uma pena que as entrevistas no motorhome da Ferrari não são disponibilizadas, seria outra oportunidade para compreender se ajo como assessor de imprensa de Alonso, como vários colegas espanhóis, ou um jornalista que o põe contra a parede em determinadas situações, tal qual fariam milhões de fã da competição. Mas não nego que o admiro muito como piloto.

Sobre o ocorrido no circuito de Sepang, Alonso não levou em conta que quem lidera uma competição numa pista onde há pontos de maior e menor aderência é preciso sempre ser mais prudente, por não saber se conseguirá contornar a curva naquela velocidade. Foi o que Vettel fez e Alonso faria se estivesse na frente. Eles haviam completado a volta de alinhamento meia hora antes, as condições eram outras.

Erro de Alonso? Claro que sim. E considerei loucura permanecer na pista com aquele aerofólio prestes a se soltar. Perguntei a ele, depois, a razão, já que o aerofólio dianteiro estava bem danificado e a prova era num traçado onde se ultrapassa os 300 km/h em pelo menos dois pontos, nos fins das duas grandes retas.

Ele me disse desconhecer a extensão dos danos ao aerofólio, “não via do cockpit”, e que os engenheiros da Ferrari lhe disseram ser possível tentar não entrar nos boxes. A ideia era trocar os pneus intermediários pelos de asfalto seco, algumas voltas depois, e aproveitar o pit stop para substituir o aerofólio também. “Se tivesse dado certo nós seríamos gênios, como deu errado somos incapazes. Não é assim, tínhamos de tentar e o fizemos.”

Na Austrália ouvi a resposta de Alonso à imprensa espanhola quando lhe lembraram que Massa largaria na frente. “No fim do ano costuma ser 17 a 2 para mim, vamos ver como será agora”, respondeu. Enalteço neste blog a eficiência do piloto Alonso. Já o homem Alonso não é o melhor exemplo para não ser seguido.

Embora pense não ser justo desenharmos totalmente a personalidade de um homem nesse meio chamado Fórmula 1. Conheci um pouquinho de Ayrton Senna. E vi um ser humano elevado, grandioso. Essa, no entanto, não era a imagem que sempre transparecia de Ayrton nesse complexo universo da Fórmula 1, capaz de transformar as pessoas, mesmo as mais fortes, como ele.

Portanto, é um equívoco tirar conclusões definitivas a respeito de quem quer que seja na Fórmula 1. Nelsinho Piquet é outro exemplo. Se vocês o conhecessem de verdade, e posso dizer que o conheci, fomos amigos na época de Fórmula 1, compreenderiam ser muito distinto do que parece. Se puder, vou contar a vocês algum dia algumas experiências vividas por ele no autódromo.

Não escrevi sobre a corrida não porque Alonso não foi bem, mas em razão de, como já expliquei várias vezes, o blog não poder ser a minha prioridade profissional. Hoje há o Portal do Estadão, depois a edição impressa, na sequência as colaborações que faço para fora do país, e só então o blog.

Há ocasiões, como domingo, depois da corrida de Sepang, em que não sobra mais energia. Desliguei o computador na sala de imprensa pouco antes das duas horas da manhã. E já na hora do almoço, dez horas mais tarde, tinha de estar no aeroporto para um dia de viagem até a França, considerando-se os tempos de conexão em Bangcok e Zurique.

Abraços, amigos. Fiquem com o texto. Não li nada a respeito do episódio Webber-Vettel-Red Bull na Malásia sob esse enfoque.

O texto:
Como o intervalo até a próxima etapa do campeonato, o GP da China, dia 14, é de três semanas, o melhor que os integrantes da Red Bull têm a fazer é discutir com maior profundidade o ocorrido domingo, na prova da Malásia, daqui a alguns dias. “Já conversamos, sob o calor da disputa, e teremos outra reunião antes da etapa de Xangai”, disse Christian Horner, diretor da Red Bull.

O jovem e capaz dirigente inglês referia-se a seu piloto Sebastian Vettel que, contra o que se imaginava dele, desobedeceu a ordem dada pelo próprio Horner, na 46.ª volta da corrida no circuito de Sepang, para não ultrapassar seu companheiro, Mark Webber, o líder, e vencer a competição.

O australiano tinha ritmo contido para reduzir os esforços do motor e manter os pneus Pirelli, concebidos para apresentarem rápida degradação, em condições até a bandeirada, dez voltas mais tarde. Atendia também o pedido de Horner.

Nesse conflito que envolve Vettel, Horner e até Webber, pela forma como o australiano reagiu no pódio, expondo o clima perigosamente tenso que existe dentro da organização, todos, na realidade, pisam em ovos.

Há vários interesses em jogo, por essa razão o mais provável é que antes da etapa da China a escuderia divulgue uma foto com os dois pilotos apertando as mãos, sob a chancela de Horner, para anunciar a paz. Mas que não será verdadeira.

Punir Vettel é algo que assusta Horner e seus dois superiores, Helmut Marko, eminência parda do grupo, e o dono da empresa, Dietrich Mateschitz. O motivo é um só: não há outro piloto do seu nível no mercado. Existe um consenso, hoje, que Vettel, Lewis Hamilton e Fernando Alonso são os supertalentos da Fórmula 1. Hamilton acabou de assinar com a Mercedes até o fim de 2015 e Alonso tem contrato com a Ferrari até o fim de 2016.

A Red Bull, tricampeã do mundo, dona do melhor carro, equipe do genial engenheiro Adrian Newey, teria de apostar em outro piloto, decisão de alto risco para quem investe 240 milhões de euros (quase R$ 700 milhões) por ano no seu projeto de Fórmula 1. A Red Bull, provavelmente, perderia parte importante de sua força.

A perda da Red Bull por “atingir” o ego de Vettel é imensa. Ficou claro domingo que o jovem alemão de 25 anos é susceptível, mais vaidoso do que parecia. As circunstâncias impõem prudência antes de definir uma eventual punição a Vettel.

O outro lado dessa moeda é o que Vettel pode fazer caso pense em deixar a Red Bull. E sua situação não é muito confortável, com se pode pensar de um piloto que vem de três títulos seguidos. O piloto da Red Bull já ouviu do presidente da Ferrari que ele e Alonso juntos está fora de questão, por mais que Bernie Ecclestone, promotor do Mundial, tente influenciar o negócio.

Vettel também conhece a política da Mercedes. Agora que parece ter entrado no rumo certo para crescer, colocar Vettel ao lado de Hamilton seria um convite à desestabilização. Não haveria opção para o alemão senão iniciar um relacionamento com a McLaren, caso lhe passe pela cabeça mudar de ares.

Tem mais: seria trocar o certo, a quase garantia de lutar por vitórias na Red Bull, pelo incerto, com as subidas e descidas da McLaren. Por saber que o mercado está assim, o próprio Vettel tem consciência de que teria muito a perder caso tomasse a decisão de deixar a Red Bull.

Na hipótese bem pouco provável de Vettel se apresentar no mercado no fim de 2014, quando acaba seu contrato com a Red Bull, a McLaren faria de tudo para contratá-lo. Pagaria até mais do que negou a Hamilton para renovar. “Com todo avanço tecnológico, ainda a figura do piloto representa cerca de 50% da possibilidade de vitória de uma organização”, costuma afirmar Michael Schumacher. E muita gente na Fórmula 1 pensa dessa forma. Eu também.

Do lado de Webber o que está em jogo é o seu futuro no time e talvez até na Fórmula 1. Perto de completar 37 anos, tem de demonstrar este ano ser piloto com cacife para permanecer na Red Bull ou em outra equipe potencialmente vencedora, as que pagam seus pilotos para correr, como exigiria o australiano.

Seu desempenho na Malásia é um reflexo dessa necessidade. Desejar tornar as coisas mais duras, não atender a orientação de Horner, seria o caminho mais curto para não ter o contrato renovado e provavelmente ter de abandonar a Fórmula 1.

Esse quadro quer dizer, essencialmente, uma coisa: nessa história, ninguém pode radicalizar nas suas ambições. Tudo passa por uma solução de compromisso, que atenda, dentro do possível, o interesse de cada um.

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