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Apontar o dedo apenas para os atletas denota falta de autocrítica de Magnano

Treinador argentino campeão olímpico alegou falta de comprometimento dos brasileiros para não obter bons resultados na seleção

Marcius Azevedo

15 de junho de 2020 | 15h56

Rubén Magnano foi campeão olímpico pela Argentina em Atenas-2004 e colocou o seu nome entre os maiores da história do basquete. Ponto. O treinador não obteve o mesmo sucesso no trabalho no comando da seleção brasileira masculina. Ponto.

Para o treinador argentino, os culpados foram os jogadores. A polêmica voltou à tona em uma entrevista de Magnano ao jornalista Carlos Altamirano em uma live. O técnico, mais uma vez, bateu na tecla da falta de comprometimento dos atletas.

Rubén Magnano com o grupo do Brasil em Londres (Reuters)

“Ter comprometimento com uma seleção nacional é um elemento determinante para conseguir um bom resultado. Uma coisa muito curiosa que sempre digo é que o compromisso é o que te permite chegar ao objetivo que você quer. Precisa ter gente realmente comprometida. Se não tiver, será extremamente difícil, por mais talento que você tenha”, disse Magnano.

A trajetória de Magnano na seleção brasileira começou em 16 de janeiro de 2010 e terminou em 23 de agosto de 2016.

Se o treinador, neste período de seis anos, sete meses e oito dias para ser exato, não conseguiu extrair o tal comprometimento do grupo, ele também tem culpa no processo. Ninguém aceita trabalhar com os mesmos jogadores por tanto tempo sabendo que nunca vai alcançar o objetivo para o qual foi contratado.

Magnano deveria ter pedido demissão muito antes disso se o problema fosse somente o comportamento inadequado dos jogadores.

Claro que o salário de R$ 107 mil mensais, além das mordomias que recebia da Confederação Brasileira de Basquete do presidente Carlos Nunes, era um bom motivo para continuar. Mas e o nome? Sua condição de campeão olímpico?

Aliás, eu tive oportunidade de entrevistar o Magnano várias vezes, em diversas oportunidades de sua passagem como treinador na seleção. Em todas, ele fez uso da palavra comprometimento. Era quase um mantra.

Neste período com o treinador, o Brasil se classificou aos Jogos Olímpicos de Londres-2012, algo que não acontecia havia 16 anos, e foi eliminado pela Argentina nas quartas de final. Caiu novamente nas quartas do Mundial de 2014 – após pagar por um convite porque não garantiu vaga em quadra – e foi eliminado na primeira fase da Olimpíada do Rio-2016.

Será que o comprometimento do treinador também foi o mesmo nos quase sete anos à frente da seleção brasileira? Eu tenho minhas dúvidas. Ele tentou, de fato, deixar um legado para o basquete brasileiro? Eu tenho minhas dúvidas.

Aqui abre um parêntese sobre o tema legado antes de continuar: Thelma Tavernari, uma da maiores treinadores de base do Brasil, disse que Magnano nunca foi ao Pinheiros para acompanhar um treino. O clube da capital é uma referência na formação de atletas.

Tal declaração de Magnano só me faz pensar que o treinador se sente acima do bem e do mal pela medalha de ouro olímpica pela Argentina e que nunca fez qualquer autocrítica sobre o trabalho (não muito bom) que realizou no Brasil.

Antes de ir, coloco aqui o posicionamento da CBB, agora sob o comando do presidente Guy Peixoto, que se irritou bastante com o comportamento de Magnano: “Nunca faltou comprometimento aos nossos atletas. Vestir a camisa do Brasil é motivo de orgulho para todos eles. Em vez de se eximir da culpa, Rubén Magnano precisa aceitar que os sete anos de trabalho à frente da seleção brasileira masculina adulta não deixaram qualquer legado para o basquete brasileiro, mesmo com o salário astronômico que recebia. Mais do que isso, precisa explicar o motivo disso. Culpar seus comandados durante todo esse período é saída fácil, baixa e covarde.”

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