ENTREVISTA: “É possível alcançar o pódio”, diz Iziane
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ENTREVISTA: “É possível alcançar o pódio”, diz Iziane

Ala voltou à seleção após três anos e, com o grupo completo, acredita que o Brasil pode ter um bom desempenho na Rio-2016

Marcius Azevedo

24 de agosto de 2015 | 10h31

A campanha na Copa América foi uma decepção. Com vaga garantida nos Jogos Olímpicos do Rio-2016, o Brasil perdeu duas vezes da Argentina (na fase de grupos e na disputa pelo bronze), foi superado por Cuba nas semifinais e ficou apenas na quarta colocação. Apesar de o resultado ter sido ruim, o torneio em Edmonton, no Canadá, serviu para resgatar Iziane.

Afastada da seleção desde o dia 20 de julho de 2012, quando foi cortada do grupo que iria disputar a Olimpíada de Londres por causa de um ato de indisciplina – levou o namorado para dormir na concentração em Lille, na França, durante a preparação da equipe -, a ala de 33 anos teve atuação destacada e comprovou que ainda pode contribuir, e muito, em quadra.

Com o fim da longa espera de 1064 dias (quase três anos), Iziane demonstra otimista em continuar no grupo do técnico Luiz Augusto Zanon até os Jogos Olímpicos e sonha até com o pódio em 2016. Em entrevista exclusiva ao blog, a ala reafirma que errou no episódio de 2012, mas, até hoje, vê o corte como uma atitude exagerada.

Iziane em ação pela seleção na Copa América (José Jiménez Tirado)

Iziane em ação pela seleção na Copa América (José Jiménez Tirado)

Qual avaliação faz do seu retorno à seleção após quase três anos?
Fiquei muito feliz. A minha participação foi positiva, principalmente pelo carinho. A minha preocupação sempre foi essa, porque eu sabia que tinha condições de estar na seleção e continuar ajudando o basquete feminino. Foi bem satisfatório.

Como vê o atual estágio da seleção?
Com essa transição de gerações, infelizmente houve um declínio internacional. O Brasil deixou de estar no Top 4 do mundo. A seleção está em grupo intermediário, com tudo muito igual, em que você tem condições de ganhar, dependendo das circunstâncias do jogo. O Brasil está lutando para figurar novamente em um quadro de medalha. Precisa de uma evolução, que vai ser natural com treinamentos, empenho e um trabalho voltado para isso. As jogadores precisam se dedicar para evoluir todos os anos e estar bem quando chegar à seleção.

É nítido que falta fundamento para algumas jogadoras da seleção. É necessário investir na base, algo que não acontece no feminino, diferentemente do masculino, que tem uma Liga de Desenvolvimento?
Realmente é difícil você falar hoje em trabalho de base para encontrar meninas em condições ideais para alto rendimento. Não temos esse trabalho com continuidade. Precisamos colocar isso como foco. A forma de melhorar é essa. O trabalho precisa ser contínuo, estar todo mundo na mesma página para não existir uma disparidade entres os clubes e, quando chegar na seleção, estar tudo mundo diferente, pensando diferente. O trabalho na base é fundamental. Isso tem de partir do setor público, do setor privado para retomar a qualidade da seleção lá na frente. Hoje você não tem tantas meninas para se trabalhar. Com um bom trabalho de base você aumenta o número de opções e tem um plantel maior para tirar as melhores. É um problema que precisa ser abordado porque o que temos hoje não tem como melhor. Claro que cada atleta pode melhorar individualmente com treinamentos, mas o foco, o que precisa melhorar mesmo, o que precisa ser visto de uma forma diferente, é isso. Você vê que o masculino conseguiu abordar, conseguiu trabalhar e está se desenvolvendo e melhorando.

Esse desenvolvimento passa pela CBB (Confederação Brasileira de Basquete), LBF (Liga de Basquete Feminino), pela movimentação dos clubes, dos atletas?
Todo mundo precisa dar uma contribuição porque o bem do esporte é o foco maior. A LBF não tem um trabalho na base porque é uma liga apenas de clubes, mas é do interesse deles que exista um trabalho neste sentido para fortalecer os clubes para que possam jogar na LBF. A CBB idêntico. É importante ter um trabalho de base nas federações, nos estados… No Governo, enquanto fomentador de uma atividade esportiva para o cidadão. Existe um foco maior na CBB, que é quem rege o basquete nacional, mas acredito que todos precisam dar sua contribuição no sentindo de fortalecer, criar outros polos, divulgar e aumentar o número de praticantes, dando suporte para essas crianças se tornarem futuros atletas.

Analisando todo esse cenário, como prevê o desempenho do Brasil nos Jogos Olímpicos de 2016?
Estou até otimista. A incorporação de algumas atletas que não puderam estar agora vão dar uma cara nova para a seleção. É uma outra equipe. São jogadoras que são titulares, muda todo um contexto. O brasileiro também tem aquilo de jogar com mais paixão e amor quando tem ao lado sua torcida, dando força. É uma torcida que intimida o adversário. Essas condições favoráveis ajudam muito na outra parte de não estar em um nível para conseguir uma medalha. O fato de jogar em casa pode nos ajudar muito. Vejo tudo isso de maneira muito positiva e estou até otimista em termos uma boa participação nas Olimpíadas. Agora óbvio que existem coisas que precisam ser melhoradas, e muito, até lá. Recebemos informações individuais, até porque não dá para estar em grupo toda hora, e temos de trabalhar para voltar um passo adiante.

Iziane em ação pela seleção na Copa América (A. J. Lawrence)

Iziane em ação pela seleção na Copa América (A. J. Lawrence)

É possível sonhar com uma medalha?
Eu sonho sim. Acho que tirando os Estados Unidos o restante se encontra em um nível igual. A gente viu o próprio europeu. Ninguém imaginava que a Sérvia iria tirar grandes potências com uma equipe que não tem uma grande jogadora, com um trabalho de formiguinha, todo mundo dando sua contribuição. Derrotou grandes equipes, inclusive a Rússia, que está fora da Olimpíada. Pelo equilíbrio, eu acho que é possível. Óbvio que hoje não estamos no patamar ideal. As outras equipes estão mais estruturadas em termos de treinamentos e jogos, até pelo intercâmbio maior. Mas, diante de todos os fatores que falei, eu acredito que é possível alcançar o pódio.

Você se vê com o lugar garantido no grupo que vai disputar os Jogos Olímpicos?
Acho que sim. O trabalho foi visando isso. Entrei no grupo com o foco nas Olimpíadas, até porque o Pré-Olímpico (Copa América) era nada mais do que um treinamento. Vi tudo como uma oportunidade de estar me firmando e mostrar o meu trabalho e provar que posso estar lá, que posso contribuir, ajudar. Agora é continuar trabalhando para que o meu nome apareça na próxima convocação.

O episódio do corte está totalmente superado? Apenas você errou?
Está tudo superado. No outro dia, tudo já estava superado. Eu segui o meu caminho e a seleção, o dela. A própria conjuntura da CBB hoje não tem nada a ver de quando o fato aconteceu. Eu não ter voltado à seleção por outras circunstâncias que não a minha capacidade técnica não tem nada a ver. Nunca tive nenhum problema com o pessoal que está lá, técnico, auxiliares… Então não tinha que ter qualquer dúvida sobre isso. Eu respeito a maneira com que eles administraram as coisas, mas sou uma atleta à disposição da seleção. Enquanto a forma que foi feito (em 2012), erros e acertos, eu errei por descumprir uma norma da CBB, da seleção brasileira… A consequência do meu ato, eu particularmente acho que foi um pouco extrema, mas foi a forma como foi feita. Não tenho mais nada a acrescentar.

Mas você sentiu muita falta da seleção neste período?
Sinto falta porque eu vejo que posso ajudar. Existe algo faltando na seleção que talvez, e não é querendo me achar, que sou boa para estar lá, eu possa contribuir. Por mais que eu tenha ficado três anos fora da seleção, eu peguei seleção desde os 19 anos. São mais de dez anos na seleção, participando de Olimpíadas, Mundiais, Sul-Americanos, Pan-Americanos… Eu consigo ainda, não só com a minha performance, mas com a minha experiência, ajudar muito esta nova geração, que ainda precisa de um caminho. É muito difícil você chegar e assumir uma seleção sem ter ninguém por perto. Comigo foi assim. As jogadoras mais experientes foram saindo até que teve um momento que assumimos. Essa progressão é muito mais fácil do que cair de paraquedas.

Essa pode até ser, inclusive, a última Olimpíada desta geração que você faz parte…
Com certeza. A Adrianinha que se colocou à disposição para jogar. A Érika (Souza), eu… É algo que tem uma importância dobrada porque é um prazer enorme jogar uma competição tão importante em seu país e também pode ser uma despedida. Queremos nos despedir com o pé direito, com uma medalha e saindo com o sentimento de dever cumprido.

Agora falando um pouco do seu clube. Como está encarando o desafio de jogar pelo Sampaio Corrêa?
Está aí uma coisa que entra naquilo que falamos do investimento que precisa ser feito. O futebol é o caminho para o basquete. Os times de futebol precisam deixar de ser apenas times de futebol e assumirem o papel de clube. Hoje eles são os mais estruturas para fazer isso, trabalharem não apenas no desenvolvimento do futebol e sim de outras modalidades. Abracei o projeto com muita satisfação por se tratar de uma equipe de futebol, com a maior torcida do Maranhão. A gente já entra com muitas coisas a nosso favor. É uma coisa que acrescenta muito para o basquete nacional. Não é só o Sampaio. O Corinthians se uniu ao Americana. Será um campeonato de grande divulgação pela entrada dessas equipes.

Iziane durante apresentação do Sampaio Corrêa (Paulo de Tarso)

Iziane durante apresentação do Sampaio Corrêa (Paulo de Tarso)

O Sampaio contratou algumas outras atletas da seleção (Nádia Colhado, Karina Jacob e Ramona), jogadores experientes (Carina Felippus, Fernanda Bibiano e Palmira Marçal), além das norte-americanas Erica Wheeler e Crystal Bradford, que atua na WNBA… Você está satisfeita com o elenco que está sendo montado?
Juntamente com a técnica (a cubana Lisdeivi Pompa) e a presidência do clube, eu trabalhei para construir uma equipe capaz de ser bastante competitiva e brigar pelo título deste ano. Estou satisfeita porque participei do processo, vendo quais jogadoras poderíamos contratar para formar um elenco com essas características. Agora espero que os treinamentos possam unir isso para chegar nas finais e trazer o título para o Maranhão.

Você prevê uma clima de rivalidade com o Maranhão, sua ex-equipe?
Só se eles assumirem o papel do Moto Club, que é o comentário que temos aqui no momento. Aí sim teremos muita rivalidade por serem as duas maiores torcidas do futebol daqui. São equipes muito rivais. Se jogar apenas como Maranhão Basquete não vai ter rivalidade nenhuma porque eu saí de bom grado, apenas por questões de fim de contrato. A gente torce para que tenhamos mais equipes. Não queremos ninguém fechando as portas. Queremos mais equipes pelo Brasil. Ter duas equipes no Maranhão vai apenas acrescentar ao nosso esporte.

Mas se o Moto Club entrar como fica o coração. Na coletiva de apresentação do Sampaio Corrêa te questionaram sobre ser torcedora do Moto…
O meu pai sempre foi Moto. A minha mãe, Sampaio. Entre um e outro, eu ficava com o rubro-negro (Moto Club). Mas acompanho o Sampaio na Série B nos quatro anos em que eu estou aqui (jogando no Maranhão). Infelizmente o atleta não pode ter amor por uma equipe, fanatismo. A gente é atleta e tem de estar onde precisa estar. Os próprios jogadores de futebol mudam de time o tempo todo. Faz parte do esporte, não somos pessoas comuns neste sentido.

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