ENTREVISTA: Fischer foca o presente para pavimentar o futuro
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ENTREVISTA: Fischer foca o presente para pavimentar o futuro

Armador de 24 anos quer aproveitar período da seleção para continuar evoluindo como jogador e ajudar o Bauru em temporada especial quando retornar

Marcius Azevedo

10 de agosto de 2015 | 06h50

Copa América, Mundial de Clubes, pré-temporada da NBA, Liga das Américas, NBB… O ano promete muita emoção para Ricardo Fischer. Convocado pelo técnico Rubén Magnano para defender o adulto do Brasil pela primeira vez, o armador de Bauru, que já conquistou o ouro nos Jogos Pan-Americanos de Toronto, procura se focar no presente.

Primeiramente, o jogador de 24 anos quer realizar boa campanha no torneio que será disputado no México, entre 31 de agosto e 12 de setembro. Depois serão os confrontos contra o Real Madrid (25 e 27 de setembro), no Ibirapuera,  em São Paulo, e, em seguida, os jogos contra New York Knicks (7 de outubro) e Washington Wizards (11 de outubro), nos Estados Unidos.

Em entrevista exclusiva ao blog, Ricardo Fischer comentou sobre o processo de aprendizado com sua primeira passagem pela seleção principal, dos desafios que o Bauru terá pela frente e lembrou ainda dos tempos de colégio, quando brincava com os colegas, dizendo que era filho da atriz Vera Fischer.

Como avalia o seu atual momento, com uma chance na seleção?
O que te leva à seleção é o desempenho no clube. Isso comprova que fiz uma excelente temporada por Bauru. Estar aqui é uma constante evolução. Você treina todo dia com os melhores, treina forte, então precisa estar sempre no seu 100%. A primeira experiência foi muito boa, conseguimos conquistar o ouro (no Pan-Americano de Toronto). No começou fiquei um pouco nervoso por ser um torneio internacional, mas me ambientei, fiz o meu jogo e o saldo foi positivo.

Fischer em ação pela seleção no Pan-Americano (William Lucas/Inovafoto)

Fischer em ação pela seleção no Pan (William Lucas/Inovafoto)

Já conseguiu assimilar o jeito de trabalhar do Magnano?
Agora estou bem acostumado. Ele conversa bastante com os jogadores, mostra o jeito que gosta de jogar, assimilamos bem no Pan e agora fica mais fácil na Copa América porque é praticamente o mesmo grupo.

A Copa América vai servir para você se consolidar na seleção?
É um torneio com um nível mais elevado do que o Pan. Será uma experiência ótima. A nossa equipe é muito forte e vamos brigar por medalhas. Individualmente vou procurar melhorar o meu jogo internacionalmente. É um desafio pessoal. Quero ver se consigo jogar neste nível, ver o que preciso melhorar. Estou bastante confiante e tenho certeza que o meu jogo vai melhorar. Com um grande treinador e bons companheiros ao lado tenho certeza que vou melhorar e ganhar experiência para o ano que vem.

O que acredita que precisa melhorar, desenvolver?
O basquete, neste nível, é muito físico, preciso melhorar isso. Tenho de melhorar na defesa também, porque existem armadores muito explosivos. No ataque, como os jogadores são maiores no basquete internacional, tenho de encontrar os espaços, que são melhores, passar de uma outra maneira para não ser interceptado.

Você faz uma projeção para os Jogos Olímpicos do Rio-2016?
Falta um ano, parece perto, mas está longe ainda. Muito coisa vai acontecer. Não adianta ficar pensando como será lá na frente. Tenho que focar no agora, estou aqui na Copa América, procurar evoluir, depois vou voltar para o meu clube e lá preciso continuar fazendo um bom trabalho. O Magnano é muito justo. Ele não vai levar alguém que esteja mal. Vai levar quem estiver bem no momento. Tenho de trabalhar para, quando chegar o momento, eu pensar nas Olimpíadas.

Fischer conquistou três títulos com o Bauru na última temporada (João Pires/LNB)

Fischer ganhou três taças com Bauru na temporada  (João Pires/LNB)

É possível esquecer o Mundial de Clubes enquanto está na seleção?
É um pouco difícil. É uma competição que todo atleta quer estar, enfrentando uma equipe como o Real Madrid. Será um pouco complicado chegar em cima da hora (Copa América termina no dia 12 de setembro e o Mundial será no dia 25 e 27 de setembro). Seria importante que eu e o Léo (Meindl) treinássemos com o time para entrosar, mas não tem jeito. O bom é que vamos chegar muito bem fisicamente, com uma bagagem internacional e isso vai ajudar o Bauru. Claro que fico ansioso, mas tenho de deixar um pouco de lado. O pessoal está treinando forte lá em Bauru e vamos chegar bem para o Mundial.

O Bauru leva vantagem pelo fato de o Real Madrid iniciar sua pré-temporada mais próxima do Mundial?
Normalmente os clubes europeus começam um pouco mais tarde. Podemos ter uma vantagem sobre isso, mas sabemos do poder do time do Real Madrid. Eles vão pegar rápido fisicamente e tecnicamente nem tem o que falar. Não vejo vantagem. É uma equipe que vamos ter de estudar muito. Não podemos errar porque, se errar, eles castigam mesmo. Temos de fazer um jogo quase perfeito.

Vê algo especial em jogar no Ibirapuera, palco em que o Sírio foi campeão mundial? É ruim não jogar em Bauru?
Nunca joguei lá, mas é um ginásio que tem muita história. Eu sou paulistano, então será muito legal jogar lá, assim como tive oportunidade de jogar no Maracanãzinho na Liga das Américas. Bauru, com certeza, vai organizar uma caravana de ônibus para os torcedores e o ginásio vai estar lotado. Será um evento que São Paulo merece, já que é carente deste tipo de evento. Será muito legal para o público acompanhar.

Após o Flamengo, agora é o Bauru que vai participar da pré-temporada da NBA. O que acha de enfrentar New York Knicks e Washington Wizards?
É uma notícia maravilhosa, excelente para Bauru e, principalmente, para o basquete brasileiro. Estou muito feliz e honrado em ter a chance de participar de uma partida contra times da NBA, dentro de ginásios da NBA. É realmente um sonho que se torna realidade. Toda criança já sonhou em jogar numa daquelas arenas maravilhosas, imagine jogar no Madison Square Garden? É uma recompensa a todos nós que trabalhamos duro para ajudar no desenvolvimento do basquete e a toda a população de Bauru, que acredita e nos apoia sempre.

É inegável que vocês tiveram uma temporada excelente, com os títulos paulista, da Liga Sul-Americana, da Liga das Américas, mas bateram na trave no NBB, perdendo na final para o Flamengo. Já deu para entender o que aconteceu?
São muitos fatores. A equipe foi formada no começo da temporada, com cinco novos jogadores. A gente deu liga muito rápido. O objetivo da diretoria era chegar em todas às finais. Conseguimos realizar. Ganhamos três. Faltou apenas uma. Claro que ficou um gostinho meio amargo porque poderia ser uma temporada perfeita, mas acho que foi o momento das duas equipes. A gente estava muito desgastado. O pico foi na Liga das Américas e, nos playoffs do NBB, o ritmo começou a cair. O Flamengo começou numa crescente, estavam mais pressionados porque não tinham conquistado nenhum título na temporada… Então são vários fatores. Eles estavam com a corda no pescoço, a gente estava mentalmente mais relaxado. A gente caiu na hora errada. Aprendemos com isso, estamos fazendo um planejamento diferente nesta temporada para chegar bem nas finais, chegar 100% fisicamente, taticamente e mentalmente. Esta temporada será ainda melhor.

Fischer recebe de Cadum o prêmio de melhor armador do NBB (João Pires/LNB)

Cadum entrega prêmio de melhor armador do NBB (João Pires/LNB)

A última temporada foi realmente sua melhor? Foi uma temporada em que você se consolidou como um armador de ponta, de seleção?
Com certeza. Depois de vir para a seleção e ser cortado por lesão antes do início da temporada, eu pensei muito, refleti e me preparei muito na pré-temporada. Até tenho de agradecer o pessoal da comissão técnica, que me deu todo o respaldo, toda uma estrutura para trabalhar. O Bruninho (Bruno Camargo) que é o preparador físico, a Márcia (Bernardes), a nutricionista do time. Eles trabalharam comigo para eu melhorar fisicamente, melhorar o meu jogo, para eu fazer uma grande temporada. Trabalhei também muito mentalmente. Tive de mudar um pouco o meu jogo. Na temporada anterior, o time dependia mais de eu ter uma maior pontuação. Este ano eu precisava fazer o time jogar, eles trabalharem… Foi uma junção de muita coisa, mas, com certeza, foi a minha melhor temporada.

Como foi ter o Larry Taylor como sombra (o norte-americano foi para o Mogi das Cruzes) e agora o Paulinho Boracini?
Desde que eu cheguei no Bauru, o Larry me ajudou bastante, é meu grande amigo. Foi sempre uma disputa saudável. Acabou que ele caiu para jogar de lateral (ala) e pudemos ficar juntos na quadra. Mas é importante porque isso me faz sempre treinar mais forte, me preparar melhor para não dar espaço. O Paulinho vem para somar. O Larry me completava e eu o completava. E imagino que será assim com o Paulinho também.

O elenco está mais forte?
Acho que um pouco mais forte. O Paulinho tem mais característica de armador, será importante trabalhar com dois armadores. O Léo (Meindl) é um grande lateral, definidor, um (jogador da posição) 3 grande, que é o que estávamos precisando. Além dessas peças é mais um ano com uma base mantida. Temos de dar muito valor a isso, porque o trabalho no basquete precisa ser a longo prazo, não pode ficar mudando muito o time.

Você faz uma projeção na carreira? Quer voltar a jogar na Europa? Pensa em NBA?
Estou muito bem no Bauru, é uma cidade em que eu me identifico, mas, como eu tenho passaporte (europeu), tenho o desejo de voltar a jogar na Europa, disputar uma Euroliga, uma ACB (Liga Espanhola)… É um objetivo que eu tenho. Quase fui neste ano, mas, no ano que vem, sei que se eu estiver bem, se trabalhar, posso chegar lá e, quem sabe um dia, jogar na NBA.

Como foi jogar com o seu irmão, o Fernando Fischer?
Foi um sonho realizado. Sempre quis jogar com ele desde quando eu comecei. Na primeira temporada por Bauru ele se machucou, não conseguimos jogar, mas, na segunda, foi muito bacana. Ganhamos o título paulista. A gente brigava bastante, discutia bastante um com o outro no meio do jogo. Mas era muito boa a sensação de dar uma assistência para ele. Isso não tem preço, vai ficar para sempre na memória. Quem sabe ainda possamos jogar juntos novamente.

Fischer faz selfie após receber o prêmio de MVP do

Fischer faz selfie após ser MVP do Jogos das Estrelas (Jump/LNB)

Na sua página no facebook, além do nome, tem um coroa desenhada no número 5 (camisa do armador no Bauru – ele usa o 4 na seleção)… O que isso significa? Ricardo, coração de Leão (Rei da Inglaterra)? The King?
Foi uma ideia dos meus assessores. Meu irmão que eu falo, que é o filho do meu padrasto, trabalha nesta área de designer e fez o desenho, mas não tem significado nenhum. Não tem essa de King. Foi sem querer mesmo.

Para encerrar, que história é essa de filho da Vera Fischer?
Essa rendeu bastante. O meu pai é que tem o sobrenome Fischer e minha mãe se chama Vera e tinha no meu RG o nome Vera Fischer. Então, na época do colégio, sempre que chamavam Ricardo Fischer, me perguntavam se eu era filho da Vera Fischer. Eu respondia que minha mãe era a Vera Fischer e todos queriam saber como era ser filho de uma atriz. No começo, eu brincava, falava que era muito legal, que tinha muito assédio da mídia e mostrava o RG para provar que era verdade. Aí depois o pessoal acabava descobrindo que a minha mãe não tinha nada a ver com a Vera Fischer famosa. Agora não tem mais problema. Meus pais se separaram há bastante tempo e não tem mais o sobrenome Fischer. Na época do colégio foi muita zoação.

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