“Sinto orgulho de participar deste processo”, diz Espiga
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“Sinto orgulho de participar deste processo”, diz Espiga

Técnico campeão da LDB (Liga de Desenvolvimento) pelo Basquete Cearense comemora consolidação do torneio; quinta edição começa nesta sexta-feira com 24 equipes

Marcius Azevedo

23 de julho de 2015 | 07h05

A quinta edição da LDB (Liga de Desenvolvimento) começa nesta sexta-feira. Serão 24 equipes, oriundas de dez estados diferentes, além do Distrito Federal, e com participação especial da seleção brasileira Sub-17. Atual campeão, o Basquete Cearense busca o bicampeonato novamente sob o comando do técnico Flávio Soares, o Espiga.

Em entrevista exclusiva ao blog, o treinador admite que será difícil repetir o feito da última temporada, quando conquistou o título invicto (28 vitórias), por estar renovando o time, mas, claro, confia na manutenção do sucesso do projeto que começou há três anos.

Espiga fala ainda da importância da LDB para o desenvolvimento do basquete, dos reflexos da conquista do Basquete Cearense, da carreira, os conceitos de trabalho. A estreia será contra o Basquete Curitiba.

A LDB, que entra na quinta edição, é um torneio consolidado? Qual o tamanho da importância de uma competição como esta para o basquete brasileiro?
A comunidade do basquete não só aqui no Brasil reconhece esse trabalho da Liga Nacional. É algo fundamental para o desenvolvimento do nosso basquete, dos atletas… São 24 equipes, com atletas de 17 até 22 anos. É muita gente jogando basquete, o nível do campeonato tem melhorado muito. As equipes estão jogando em um nível muito legal. Sinto muito orgulho de estar participando deste processo, de ter o Basquete Cearense realizando boas participações. É um campeonato fundamental.

Espiga orienta os jogadores durante tempo em jogo da LDB (João Pires)

Espiga orienta os jogadores durante tempo em jogo da LDB (João Pires)

Quatro meses depois, já deu para ter uma dimensão do que o título da LDB significou para o desenvolvimento do basquete no Ceará? Está satisfeito com o resultado de tudo isso?
Satisfeitíssimo. Não foi fácil, não é fácil fazer basquete no nordeste, mas é possível. Com trabalho, credibilidade, muito vontade… No começo, você até pensar que é só um campeonato, uma conquista, mas depois há muitos desdobramentos, reflete muito mais. Hoje você vê, não apenas pelo título da LDB mas pelo projeto do Basquete Cearense, mais gente praticando o esporte. Árbitros que antes não tinham oportunidade de sair daqui estão apitando NBB, LDB… São técnicos tendo mais oportunidades. Atletas cearenses sendo observados com outros olhos. Anteriormente os jogadores saiam daqui para o Sudeste de qualquer jeito, com qualquer preço. Hoje não. Eles sabem que têm um projeto bem feito, que dá valor aos atletas, que dá condições. Temos orgulho disso. Não é apenas um título, não é só um jogo, tem muita coisa envolvida. Claro que isso traz um pouco de inveja, ciúmes, coisas do ser humano. Mas o negócio é continuar caminho para frente e colher frutos. Eu costumo dizer que teremos ainda outras gerações tão boas como foi essa da última LDB.

Depois de três anos montando o time campeão, agora você terá de recomeçar o trabalho por causa da perda de jogadores importantes… Qual sua expectativa para esse trabalho de remontagem do grupo e também para o aproveitamento de parte do time no NBB?
É uma equipe totalmente nova na formatação. O time campeão, como você bem lembrou, não foi feita do dia para noite. A maioria do grupo ficou comigo durante três anos. Fico feliz de ter quatro, cinco atletas integrados na equipe adulta para o próximo ano e temos de dar espaço para que eles possam se desenvolver. O trabalho não se encerra aqui, com o título. Agora é um outro momento. Procurei formatar o time pensando mais na frente. São atletas que ainda terão dois, três anos na LDB, para praticarem, usarem isso como ferramenta para se desenvolverem e para nós também nos desenvolvermos como equipe. Estamos um mês e 15 dias treinando com este grupo. Meninos jovens, 18, 19 anos. Estamos trabalhando muito fisicamente, tecnicamente… Ainda precisamos de uma carga tática muito grande para nos sentirmos seguros. Mas é uma equipe de muita garra, competitiva, que vai tentar chegar no lugar mais alto possível.

Quais são os seus objetivos pessoais? O que projeta?
O mesmo que há três anos, quando começou o projeto do Basquete Cearense. Tenho um papel de desenvolver o basquete aqui. Lógico que não sei o que pode acontecer, mas hoje desenvolvo esse projeto integrado, com outras categorias de base, até o Sub-15. Acompanho o projeto, participo, oriento, para que os garotos possam chegar no Sub-22 com um pensamento homogêneo na forma de atuar. Prepará-los depois na LDB para chegarem mais acostumados com o adulto, com o nível de exigência de um NBB. Também tenho uma tarefa difícil de ajudar o (Alberto) Bial como auxiliar no time principal. Fora isso, foge do meu controle. Tento fazer isso da melhor maneira possível para que eu agregue muito ao projeto que estou participando. É desta maneira que eu vejo. Não fico fazendo projeção, como ser técnico da seleção brasileira, ser campeão do NBB.

Espiga observa o desempenho da equipe com atenção (Delima)

Espiga observa o desempenho da equipe com atenção (Delima)

Já que citou o Bial. Em visita ao Estadão, em abril de 2013, quase dois anos antes da conquista da LDB, ele afirmou que você será um dos melhores técnicos do Brasil… É fácil lidar com este elogio?
(Risos). É sempre bom ouvir isso, ainda mais vindo do Bial. É um cara que sou muito agradecido, convivo há muito tempo, temos uma amizade bastante próxima. Temos valores parecidos, independentemente de opiniões técnicas. Ele é assim, vai sempre falar assim, porque é um cara que te coloca para cima. Mas não tem peso não. Se ele identifica isso é muito legal. Mas claro que tenho de ter minha autocrítica. Tenho muita coisa pela frente, preciso trabalhar, estudar, acompanhar tudo que posso, viajar para adquirir conhecimento. Acabei de chegar, agora em junho, de uma clínica na Espanha, fui ver jogos da Euroliga, fui ver o Sub-18 (Mundial)… Tento tirar o máximo dos treinadores, tentar formar equipes homogêneas no seu pensamento, na sua ideologia. É um processo natural. A carreira de técnico é muito difícil, são poucas oportunidades. Deixa acontecer. Eu fico muito preocupado onde eu estou, fazer o melhor trabalho, o resto foge da minha mão. Esse elogio é mais uma relação de amizade, de cumplicidade com o Bial.

Como se preparou? Qual o seu conceito de basquete?
Desde cedo eu vislumbrava uma possibilidade de ser treinador, de ser professor. Fiz minha carreira, me formei (em Educação Física) e muitas pessoas sempre me falavam que eu tinha capacidade, dom de ser professor. E, quando tive chance de ser técnico, eu passei por um processo de formação da minha personalidade, da minha maneira de atuar. Trouxe alguma coisa minha de atleta, dos técnicos que mais me dei bem, que mais me marcaram, foram os que mostravam conhecimento para mim. Não só aqueles que gritavam, que davam bronca, que motivavam… Mas sim aqueles que me explicaram os porquês das coisas. Eu comecei a fazer isso. Para passar uma coisa para alguém eu preciso ter o conhecimento, estar embasado. Então tinha que aprende também como técnico, não ter apenas o conhecimento como atleta. A gente fala muito como treinador, tem de saber passar. A didática, pedagogia, psicologia… Fui me preparando para ser um professor, um técnico. Por outro lado, no conceito de basquete, procuro ser influenciado por tudo. Vejo muito basquete da NBA, vejo basquete na Europa, basquete de base, vejo muito… O que eu penso é um basquete equilibrado, um basquete corajoso, com tudo bem definido. Eu tento passar para o atleta qual característica precisa explorar, usar o que ele tem de melhor, mas sem limitar o atleta. Estou sempre treinando individualmente para desenvolver mais armas. Tenho de colocar que eles precisam usar a individualidade em prol da equipe. Todos têm de saber o que precisam fazer. Se eu tenho um atleta excelente, com muitas armas, claro que ele vai atuar mais, participar muitas vezes e os outros vão estar sabendo disso, trabalhando para ele. Se eu não tenho esse atleta, os jogadores sabem que a bola será mais dividida. Procuro trabalhar bastante coletivamente. Basicamente gosto de uma equipe equilibrada, que defenda bastante, que esteja sempre contestando o adversário nos arremessos, que não tome infiltrações, não deixem entrar no nosso garrafão. Os arremessos de fora tem uma performance menor, principalmente se contestados. A partir do momento que recuperarmos uma bola, seja por roubada ou rebote defensivo, procurar uma cesta fácil como primeira opção. Se não for possível, trabalhar uma opção rápida de definição. E só depois armar o ataque, no cinco contra cinco. Temos de aprender entender as possibilidades. Depôs disso, muito controle de bola para não dar cestas fáceis para o adversário, ter desperdícios. Atacar sempre com equilíbrio, com presença no rebote ofensivo, equilíbrio defensivo… O basquete é um jogo complexo. A parte tática, técnica, você pode variar muito, mas sempre como este objetivo que procurei explicar.

Espiga gesticula ao lado da quadra em partida do Basquete Cearense (Luiz Pires)

Espiga gesticula ao lado da quadra em partida do Basquete Cearense (Luiz Pires)

Você é um treinador que fica na prancheta, em casa, idealizando novas jogadas, procura variações, inovações?
Eu sempre estou olhando muitas coisas. As jogadas ofensivas dependem muito dos atletas que você têm à disposição. Eu gosto de explorar. Na minha equipe, todas as posições vão ter o seu momento. Faço movimentação para a posição 1, 2, 3, 4… Algumas com um enfoque maior para alguns, outros com enfoque menor. Gosto de ver coisas novas. Às vezes, quando você faz muita coisa, até acostuma os adversários a treinar contra isso. Então perde a efetividade. Mas existe aquela movimentação que pararam de usar há dez anos, você puxa agora e ela dá certo de novo. Não me preocupo muito com as jogadas, me preocupo em distribuir para os jogadores, de dar oportunidade. Se eu tiver um bom armador, lógico que as movimentações serão em torno dele. Se eu tenho um pivô dominante, vou fazer movimentações. Não fico pensando muito. Às vezes eu invento algumas para poder colocar para os atletas. Por isso é bom você estar fazendo curso, vendo visões diferentes, adaptando ao seu jeito. Recentemente fui em um curso, com um técnico grego, em que ele fazia uma saída de pressão com um (jogador da posição) 4 levando a bola, driblando. É legal, interessante, mas não tenho um jogador com capacidade para fazer isso. Se eu tivesse o (Nemanja) Bjelica no meu time, que agora foi para NBA e era do Fenerbahce, eu deixava a bola na mão dele que ele leva para o ataque. Não tem nenhum outro 4 pressione o cara. Você tem de adaptar. Não dá só para copiar, não gosto disso, mas, se deu certo no meu time, encaixou, não tem motivo para não fazer. É um processo longo. Agora mesmo, eu estava fazendo um treino, algumas movimentações defensivas, colocando algumas coisas, disputando amistosos, e me convenci que o meu time faria uma coisa melhor na defesa e mudei. Eu vou buscando coisas, ainda mais em uma equipe nova. Você vai ver a equipe de um jeito neste começo da LDB e muito diferente lá para frente.

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