“Temos um favorito ao título no Nordeste”, avisa Alberto Bial
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“Temos um favorito ao título no Nordeste”, avisa Alberto Bial

Treinador está empolgado com o novo momento do projeto do agora Solar Cearense

Marcius Azevedo

13 Agosto 2015 | 09h23

A vida de Alberto Bial foi uma verdadeira roda-gigante nos três últimos anos. A esperança ao iniciar o projeto do Basquete Cearense se transformou em frustração pela falta de resultados e a ameaça de fechar as portas ao final da última temporada. Agora o sentimento de esperança está de volta.

A equipe conseguiu um patrocinador forte, a Solar, segundo maior fabricante do Sistema Coca-Cola no Brasil, mudou de nome, agora é Solar Basquete, trocou o símbolo (um poderoso Carcará) e montou uma equipe, na avaliação de Bial, em condições de enfrentar qualquer adversário de igual para igual.

Em São Paulo por ocasião de um evento da Liga Nacional de Basquete e da NBA, o treinador, assim como fez lá atrás, em abril de 2013, visitou o Estadão e concedeu entrevista exclusiva ao blog. Confira o bate-papo com Alberto Bial e o vídeo, em que o técnico do Solar Basquete se arrisca até como cantor.

Bial concede entrevista na redação do Estadão (Clayton de Souza)

Bial concede entrevista na redação do Estadão (Clayton de Souza)

Qual o sentimento com o novo projeto?
É o renascimento, uma ressurreição… Com uma empresa como a Solar, com mais de 16 mil funcionários, que atinge todos os estados do Nordeste e alguns dos Centro-oeste, que tem valores muito próximos do que acreditamos, tem uma gestão de integridade, tenho certeza que vai dar certo. Estamos contagiados. Quando somos contaminados de uma maneira positiva, você consegue jogar isso para dentro da equipe. Temos um desafio muito grande neste um ano de contrato com a Solar. É uma empresa de extrema importância na história do basquete cearense por serem cearenses. É um patrocinador legitimamente do Ceará. Depois de três anos de muita dificuldade, o último ano com muitos erros cometidos pela nossa gestão, temos uma excelente oportunidade. O esporte precisa ser o veículo para mostrar que só vai dar certo e viver muito tempo, se trabalhar com esta gama de valores, que são imprescindíveis. É fundamental ter uma empresa mais profissional. Não quero pensar no que passou e sim no desafio que eu tenho pela frente. A Solar está nos proporcionando isso e eu estou extremamente feliz, exultante, porque o meu preparador físico está assim, o meu nutricionista está assim, meus auxiliares, meus 15 jogadores, o presidente. Todos vivem um momento de êxtase. O Brasil em um momento difícil, uma sociedade esculhambada… Então quero inspirar de alguma forma o pessoal do Ceará, as futuras gerações, contribuir para que o basquete se firme. O Brasil tem uma liga bacana e que tenha no Nordeste uma equipe favorita ao título, que possa jogar de igual para igual com qualquer equipe no Brasil, independentemente de valores de patrocínio ou história, tradição. Isso é muito importante para uma continuidade, porque temos metas e resultados claros colocados pela Solar.

Você previa tanta dificuldade para montar uma equipe no Ceará e temeu pelo fim da equipe ao final da última temporada?
Seria um vácuo na minha vida se, no ano passado, quando passou pela minha cabeça em fechar as portas, acabar com o Basquete Cearense, hoje o Solar Cearense. Quando cheguei, eu sonhava muito alto, algo muito profissional e isso não aconteceu. Tive muitos problemas em questões administrativas, de relacionamento, tanto fora quanto dentro da equipe. Foram dificuldades que me fizeram até ficar doente, pensei em largar tudo e ir embora. Mas os meus amigos, o Espiga (assistente técnico), o Dannyel Russo (assistente técnico), o Thális Braga (supervisor) me ajudaram. Somos o quarteto fantástico. Fui até ver o filme, que é horroroso, só para saber do que se tratava, porque nós nos denominamos assim. Durante este processo torcemos tanto para conseguir uma empresa que pudesse apostar na gente e conseguimos. Melhor, uma empresa local, que fala como o povo daqui. Isso me fez muito bem, me deixou feliz. Na terça-feira, quando foi citado na palestra do Arnon (de Mello, diretor executivo da NBA no Brasil) que poderíamos ter um jogo da NBA no Ceará, eu fiquei imaginando em ter isso no ano que vem porque temos um ginásio maravilhoso no Centro Olímpico, que vai ser inaugurado agora em setembro. Temos de dar vitalidade aquele ginásio, nada melhor do que um jogo da NBA. Agora podemos trabalhar com os valores que foram violentados, situações que não eram tão saudáveis, agora estamos profissionalizados. Todos nós temos uma chance de mostrar algo mais. Estou em um momento bom da carreira. Se vierem os resultados será bom para todos, inclusive para mim, que almejo ter um projeto longínquo aqui, com os garotos, uma categoria de base forte… Agora estamos no ponto certo. Tudo em dia, transparente, e isso é muito bom porque reflete diretamente no trabalho. Eu pude escolher, quero o (Marcus) Toledo, quero o Audrei, quero o Duda (Machado), quero recuperar esse jogador excepcional, que sofreu nos últimos dois anos… Temos uma oportunidade de mostrar o nosso valor.

Você está satisfeito com o time que montou?
Eu acredito que quando você escolhe, quando monta uma equipe de trabalho, ali começa a chance de alcançar o sucesso, o resultado, o lucro. Escolhi Davi e Duda para jogar na posição 1. Rashaun e Audrei na 2. Na 3, Sualisson e Toledo, que é um jogador chave na nossa equipe. Tem um perfil que não vemos na maioria das equipes. Ele é tão despojado que se preocupa mais com o time do que com ele mesmo. Isso é muito raro. A gente passa 90% do dia pensando na gente mesmo.É sempre o interesse individual, nunca no todo, em compartilhar e ajudar alguém. O Toledo tem esta virtude. Na 4, Tiagão e Felipe e na 5, Rômulo e o Léo (Waszkiewicz). Com esses 10 componentes e os meninos, o Vitinho, o Joel, que vamos agregar com o profissional, podemos jogar de igual para igual com Bauru, que tem uma equipe fantástica, com o Flamengo, que tem tradição e um time fortíssimo. Mogi das Cruzes, que vem há bastante tempo com o mesmo treinador. Incluo Brasília, Limeira neste grupo… Temos um desafio enorme. Fazer esta equipe, em dois meses, chegar no dia 3 de novembro, na estreia do NBB, e dizer que está preparado, que se preparou tecnicamente, taticamente, fisicamente, psicologicamente, espiritualmente… De todas as gamas que uma equipe precisa, estar preparado, pronto para uma jornada que pode ser surpreendente, por quê não? Pode acontecer pela primeira vez na história do NBB. É importante que tenhamos o sentimento de que podemos alcançar. Atirar lá em cima, como diz o Michael Jordan, atirar lá nas estrelas para acertar a lua aqui embaixo. Temos que falar isso para que os outros entendam e nos vejam desta forma. A gente mudou o logo. Antes era um mar, ali no Mucuripe, no cantinho de Fortaleza, com o pôr do sol… Trocamos por um carcará, que é uma ave de rapina. Essa agressividade do carcará, esse jeito de tentar conseguir resultado. O objetivo está lá no alto e ele vai e alcança. Tem um cara em Fortaleza que pendura uma carniça no oitavo andar. Eu nunca vi mas me contaram que tem um carcará que vai lá e come. Já vi um carcará mas nunca em ação. O carcará ele pega, mate e come. Tem aquela música do João do Vale, que foi cantada pela (Maria) Bethânia. “Carcará, Pega, mata e come… Carcará, Num vai morrer de fome… Carcará, Mais coragem do que homem”… Essa é a cara do Solar Cearense hoje.

Como está preparando o time para o NBB? É muito difícil não ter o Estadual como laboratório?
O Paulista é o único campeonato que dá para você preparar uma equipe. Temos que nos adaptarmos à situação. Estipulamos três meses de preparação, começando em 9 de julho. Temos um preparador físico novo, que vem da luta, vem do jiu-jítsu, com conceitos orientais, é um cearense puro. Hoje tenho apenas dois que são estrangeiros, de fora, como gosto de brincar, na equipe. Eu e o Espiga. Todos os outros eu procurei e encontrei pessoas de muita qualidade no Ceará. Esse preparador tem uma chance rara, que são três meses de preparação. Nenhuma equipe tem isso. Primeiro mês será intenso. Depois teríamos amistosos na Argentina e em Brasília, mas já cancelamos a viagem à Argentina, vamos vir para São Paulo no dia 5 de setembro para fazer quatro jogos, contra Rio Claro, Liga Sorocabana, Pinheiros e Paulistano, todas equipes em ritmo de competição. Depois vamos para Belo Horizonte para fazer mais três partidas, contra Ginástico, Minas Tênis e Macaé. Seriam sete jogos. Se considerar os oito jogos lá na Coreia do Sul, pelos Jogos Militares, quando vou levar Davi, Felipe, Audrei, Tiagão e Léo, como preparação para o NBB, são 15. Na volta, entre os dias 20 e 30 de setembro, vamos disputar mais dois jogos contra o Flamengo, uma equipe fortíssima, com Rafael Luz, Olivinha, Marquinhos, JP (Batista)… Serão jogos para lapidar e descobrir em qual estágio estamos para iniciar o campeonato. Queria enfrentar também o Sport Recife, estamos negociando, para fazer um confronto nordestino, criar uma rivalidade. Esse jogo seria lá no Ceará, assim como os dos Flamengo. Precisamos fidelizar o torcedor. Temos muitos seguidores, muitos apaixonados pelo Solar Cearense, mas jogamos muito pouco lá. Lançamos o time e não jogamos lá. Fica uma fissura. Ao todo serão uns 20 jogos na preparação.

Qual o peso da conquista da Liga de Desenvolvimento (LDB) para o time conseguir um patrocínio forte?
O resultado não teve muita relação com o patrocinador, não fez parte da negociação, porém o resultado esportivo, campeão com 28 jogos e 28 vitórias, da forma com que jogava o nosso time, faz até hoje você não conseguir mensurar o valor da conquista. Eu não era o treinador principal, era o técnico chefe, mas posso dizer que foi o maior título da minha vida. Para os meninos, nem se fala. Para o Espiga, marcou para sempre a vida dele. Se alguém ainda tinha dúvida do potencial do Espiga, de que ele pode ser um dos maiores técnicos do Brasil, se já não for, não tem mais. De alguma forma o pessoal do basquete, com certeza, olha para nós e fala: lá se trabalha firme, foi formada uma equipe forte, que marcava muito. E foi esse time que jogou o NBB, que apanhou igual boi ladrão, e, na outra competição, foi campeão invicto. A relação com a Solar foi uma visão muito mais do lado deles de trazer para o cearense uma equipe em esporte coletivo que fosse capaz de dar orgulho. Eles têm uma visão muito ampla desta situação. Mas eles sabem também que só vamos mexer com o povo cearense com resultado. A Solar só sobrevive porque vende muita Coca-Cola, porque a água Cristal está sendo mais vendida do que a da concorrência, que o Powerade está vendendo mais do que aquele isotônico da NBA.Espero que esses 11 meses de contrato que vamos ter pela frente possam ser prolongados e, daqui dois, três anos, tenhamos o valor exato daquela conquista do Sub-22.

Bial com Davi Rossetto após o título da LNB (Luiz Pires/LNB)

Bial com Davi Rossetto após o título da LNB (Luiz Pires/LNB)

A defesa foi o segredo da equipe na conquista da LDB, o Toledo, o principal reforço, ficou entre os melhores defensores do último NBB… O time vai se focar na defesa para conquistar vitórias…
Tudo começa na defesa. Se você não for agressivo não consegue jogar basquete, não consegue viver. Não é ter raiva. Raiva emburrece. Não é ter ódio. Ódio envenena. É ter agressividade nos posicionamentos que você toma. O Toledo é assim. Eu estava vendo o treino dele na seleção brasileira nesta semana. Na marcação, contra o Marquinhos, o melhor jogador da posição 3 que temos hoje, ele não dava moleza. O Marquinhos reclamava, mas o Toledo não mudava de postura. O time Sub-22 teve na defesa o principal ponto, sua característica de jogo e, com isso, conseguia fazer transição, muitos contra-ataques… Tínhamos uma distribuição um por todos, todos por um, sempre um ajudando o outro, algo tão raro na vida. Tudo que aconteceu com o Sub-22 tomara que inspire o trabalho e que o resultado seja o mesmo. Claro que não vou exagerar e querer ficar invicto. Mas espero que possamos começar o campeonato muito bem, nos mantermos de uma forma legal e terminar a fase de classificação entre os quatro. Aí um playoff vai te separar da semifinal. Estamos trabalhando neste sentindo, com muita humildade, que será testada todos os dias por mim. Temos de trabalhar duro. O desafio é muito grande. É do assessor de imprensa até o reserva do último jogador. Todos nós precisamos estar vigilantes, cautelosos e agressivos no que temos de fazer.

Como você vê o momento da Liga Nacional de Basquete (LNB) e o que o acordo com a NBA já trouxe e ainda pode trazer?
O que vi foi o aumento de pessoas interessadas no basquete. Eu não tenho como mensurar, não tenho avaliações de pesquisas, mas eu tenho o feeling do meu dia a dia. A Liga, com certeza, foi responsável por esta mudança. Tudo que aconteceu de positivo foi por consequência da Liga. Foi construída uma grande equipe. Sérgio Domenici, que é o gerente executivo, é um apaixonado pelo que faz. Ele dá uma aula de gestão. Tanto que no evento da NBA, a Pam El, que é uma das maiores executivas do mundo, disse que ficou surpreendida com o evento organizado pela Liga, disse que não ficava atrás do que tem na NBA. Aí você tem o Paulo Bassul como diretor técnico, um profissional da mais alta competência. Você vê o Guilherme Buso, talvez o maior assessor de imprensa que eu já conheci. Conhece o basquete em sua totalidade. Outros profissionais, como a Lillian (Gonçalves) no LDB, a Flávia (Renata de Almeida) na arbitragem, o eterno presidente, o Kouros (Monadjemi), e o atual o (Roque) Cássio. Todos fazem o trabalho com muito fervor. Por isso, a Liga transformou e mudou a cara do basquete brasileiro. A Liga é muito saudável. A NBA vê como muito carinho o escritório aqui no Brasil e isso pode ser muito importante para dar continuidade no sucesso que tivemos nos últimos sete anos.

Falta um pouco deste profissionalismo da LNB na gestão da Confederação Brasileira de Basquete?
Fico desconfortável de falar da CBB porque é ela que rege, seria um tiro no pé. Mas o modelo de gestão da Liga, da NBA, serve para todas as entidades, para todos os clubes… Poderia contagiar todo mundo. Os clubes também não têm uma gestão muito legal. As gestões, assim como no futebol, são oportunistas. Tem muito lobo em pele de cordeirinho. Interesse individuais sempre maiores do que o coletivo. Sem uma gestão íntegra, uma gestão honesta, um líder honesto, não tem como dar certo.

Bial ao lado de Toledo e Davi na apresentação da equipe (Cristiano Braga)

Bial com Toledo e Davi na apresentação do time (Cristiano Braga)

Como vê o momento da seleção brasileira e o que esperar dos Jogos Olímpicos de 2016?
Eu penso que vai dar Brasil e Estados Unidos na final em 2016. E, quem sabe, jogando em casa, fazendo um jogo de outro mundo, marcando zona, apertando o Barba (James Harden), mas claro que isso é mais uma viagem. Mas penso realmente que podemos conquistar um pódio. A seleção hoje é potência no mundo, estamos entre os melhores. Lógico que a Espanha continua fortíssima, os Estados Unidos são hour concours, é favoritíssimo, mas o Brasil é uma seleção que jogando em casa, bem preparada, agora conseguindo resultados com o ouro no Pan-Americano com um basquete forte na marcação e muito coletivo, algo que o (Rubén) Magnano ainda não havia conquistado aqui, está pronto para fazer um grande papel e conquistar até mais do que uma medalha de bronze.