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A audácia do tiki-taka de Osasco

Fernando Diniz, por meio do Audax, coloca no centro do debate o tipo de jogo praticado por boa parte dos grandes clubes do País e pela Seleção Brasileira, expondo visceralmente a falta de crença na triangulação convicção-paciência-resultado.

Maurício Capela

25 de abril de 2016 | 14h39

O Campeonato Paulista reservou para o fim um enredo dos mais curiosos. E a questão não se limita à “descoberta” Fernando Diniz ou mesmo ao desembarque do Audax à decisão, ainda que ambos sejam gratas surpresas. O ápice dessa história se desenrola justamente no estilo de jogo dos finalistas do certame.

Diniz, um meia de carreira mediana em potências do futebol nacional, com passagens por Palmeiras, Corinthians, Flamengo e Fluminense, por exemplo, se desenvolveu como treinador nos últimos três anos. Sim, três anos.

 

Convicto de um estilo de jogo, onde a posse de bola é chamada de “minha”, o comandante dessa surpreendente campanha terá tudo, em dois jogos, para criar uma reflexão no futebol brasileiro do tamanho da história desse esporte no País. Ainda mais porque o adversário, o Santos de Dorival, também lá é um time que pratica em boa medida o mesmo estilo de jogo.

Imersa em uma crise de identidade, a Seleção Brasileira não sabe para onde olhar e buscar inspiração. É ciente do poderio do futebol que se pratica nos grandes centros europeus, tem ideia de que está no início de uma nova colheita de jogadores, aparentemente boa, inclusive, mas tem dificuldades em colocar as convicções no gramado. Talvez porque não as tenha, talvez porque o peso das cinco estrelas, de fato, a atrapalhe.

É justamente aí que entra Diniz. Convicto, o técnico do Audax jamais abriu mão da bola, elemento vital no jogo, mesmo que alguns a considerem um detalhe. Em sendo, o fato desse estilo de jogo estar na final do principal campeonato do País funciona como uma injeção de adrenalina e que arrasta o jogo do Brasil e dos grandes clubes para o centro do debate.

Por quê? Simples! Porque é necessário responder a este pensamento… Por que um time pequeno, com orçamento pequeno, de uma cidade sem tradição no futebol brasileiro consegue praticar um jogo tão competitivo sem abrir mão da filosofia empregada por anos?

Em tese, a explicação seria justamente essa: a falta de tradição. Mas isso seria simplista demais, porque desconsideraria o básico, a montanha de dinheiro que abastece os grandes clubes do País.

Com mais orçamento, faz-se estrutura. Com mais dinheiro, contrata-se melhor. Com mais caixa, busca-se a competitividade.

O Audax, hoje, mantém filosofia de trabalho igual pelas categorias de base. O time profissional está conectado à base. E tudo isso financiado por investidores, que por mais recurso que tenham, não chegariam aos gigantescos orçamentos das grandes potências do País.

Além disso, tem outro aspecto, a paciência, que, de fato, mostra-se uma virtude. Em um grande clube, o “tiki-taka” de Osasco já teria naufragado. Diniz seria apelidado de professor Pardal, como tantas vezes já foi chamado desde que o clube ascendeu à primeira divisão do Paulista. E um trabalho que demanda muita transpiração seria interrompido, tendo como pano de fundo qualquer canto como “ooooooh, queremos jogador”.

Então, Fernando Diniz, por meio do Audax, acaba visceralmente expondo a fragilidade de nossas crenças em direção a treino, repetição, paciência, investimento e resultado.

Em outras palavras, na final, o Audax poderá até ser goleado pelo Santos. Perder vergonhosamente os dois jogos. E isso pouco importará, porque na verdade já não importa mais.

O que realmente interessa, é  entender como um clube pequeno tem sido capaz de aplicar uma filosofia contemporânea da bola, enquanto as potências verde-amarelas limitam-se a chutões do campo de defesa, ausência de jogo no meio e jogadas aéreas aos montes.

Só esse pensamento já nos faz desembarcar em direção ao Brasil de Dunga. E talvez, em boa medida, explique o acanhado atual estágio do expoente máximo do futebol no País, a Seleção.

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