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Clássico dos Ingressos!

Impasse pelas entradas para o jogo entre Palmeiras e Corinthians revela como o futebol precisa de uma urgente reformulação, que o trate como entretenimento e não somente como esporte.

Maurício Capela

06 de fevereiro de 2015 | 20h15

Há jogos e há jogos no mundo da bola. Alguns precisam de um empurrão qualquer para despertar o interesse de quem gosta do esporte, outros já nascem prontos, já chamam a atenção simplesmente pelo fato de existirem. Quer um exemplo? Corinthians e Palmeiras, eis um exemplo perfeito.  

A rivalidade é tão forte, tanto dentro como fora de campo, que esse jogo não precisa de elemento adicional de pressão. Pelo contrário! Demanda mesmo  é cuidado, zelo para que a calmaria permaneça e não inflame nem dirigentes e tampouco torcedores, principalmente os organizados.

Mas o roteiro desse primeiro encontro de 2015 está adotando postura contrária. Tudo que esse clássico não precisa, é polêmica sobre carga de ingressos. E se olharmos bem os argumentos de cada um, é capaz de encontrarmos razão fragmentada em todos.

Por exemplo, é fato que as novas arenas foram construídas no melhor estilo “padrão-Fifa”, ou seja, dividir torcidas nunca foi e não é prioridade nesse estilo de estádio. Também é certo que decisão judicial se cumpre e não se discute. Como é legítimo garantir ao torcedor de qualquer agremiação o direito sacro de ir e vir a um estádio de futebol, mesmo que ele torça para o time visitante.

Vê? O primeiro argumento, que balizou a sustentação do Ministério Público Estadual, é tão válido quanto o segundo que é o da Federação Paulista de Futebol, assim como o terceiro que pertence ao Corinthians.

Então, todos têm razão? Filosoficamente, não.

Não, porque se a sociedade aceita que clássicos estaduais do futebol tenham apenas uma torcida, implicitamente acena com a incapacidade de funcionamento das instituições que regulam o nosso convívio social. É uma bola fora sob todos os aspectos.

Portanto, a recuperação desse esporte no Brasil passa necessariamente pela presença de público. E estádios cheios e pacíficos demandam a expulsão daqueles que não têm o menor interesse no jogo. Estão lá por motivos que a própria razão desconhece. 

O futebol pede sinal verde para que comece a se recuperar por aqui. Mas isso demandaria inverter a lógica que reina, ou seja, é preciso aceitar que não se trata de apenas uma modalidade esportiva. Não! O futebol faz parte de algo maior, de uma indústria que cresce ano após ano, que é a de entretenimento.

Ignorar que o futebol concorre com um filme cheio de estrelas, com uma boa peça de teatro ou ainda que dispute com o show do cantor preferido, é dar uma entrada forte na realidade. Pior! É impedir que o futebol assuma sua condição natural de preferido, uma vez que nenhuma das possibilidades acima desperta tanta paixão, amor e identificação como a bola no Brasil.

Mas é uma pena que essa discussão não venha à tona em momentos de calmaria e que somente ganhe voz quando o assunto já virou manchete e dominou a mesa do boteco. É uma pena!

O futebol por aqui pode mais. Pode tanto quanto nos principais centros europeus. Pode gerar milhares de empregos, movimentar turismo, trazer divisas para o Brasil e auxiliar na imagem do País no exterior. É um papel tão natural ao futebol, quanto o do cinema nos Estados Unidos. Falta apenas encontrar o protagonista da mudança.

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