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Morte e Vida, Severa!

Portuguesa perdeu para o Oeste por 3 a 0 e caiu pela primeira vez na história à Série C do Campeonato Brasileiro.

Maurício Capela

29 de outubro de 2014 | 15h18

Talvez poucos se recordem… Talvez até ninguém se lembre! Mas até o começo dos anos 90, o mascote da Associação Portuguesa de Desportos não era o simpático Leão. Era uma portuguesinha linda! Vestida à caráter, com as tradicionais saias rodadas, o avental bordado em lã e, claro, o lenço à cabeça. Seu nome? Severa! Uma alcunha que era até forte demais para essa portuguesinha, que sempre estava a sorrir…

O sorriso de Severa era sincero. Um sorriso que tinha justificativa para existir. Severa representava os “leões do Canindé” e sua “fabulosa torcida”, como assim definiu um famoso cronista esportivo.

Era uma época daquelas… Era uma época em que Muca, Nena e Noronha; Djalma Santos, Brandãozinho e Ceci; Renato, Julinho, Nininho, Pinga e Simão faziam os adversários sentirem medo. Era um época em que o time de Severa cedia de uma vez só cinco, seis jogadores à Seleção Brasileira…

Hoje, Severa não sorri mais! Foi aposentada! Deu lugar ao Leão, que é simpático, é verdade, mas não é a Severa…

Na Portuguesa, naquele tempo, diziam que era hora de mudar, de pensar o clube sob um novo prisma. Muito porque a agremiação já havia sentido a primeira pontada da crise no início dos anos 90 e pretendia se reconstruir.

Naquele tempo, a Lusa olhou para as categorias de base e descobriu, talvez por acaso, talvez não, um Zé Maria na lateral-direita, um Zé Roberto no lado esquerdo e um Rodrigo mais à frente. E todos tinham que bater continência ao capitão do time, sim, o Capitão, que era “caveira muito tempo antes de surgir o tal Nascimento”!

Dinheiro naquele tempo também já era artigo raro no Canindé. Não sobrava! Mas sobrava inteligência na hora de enxergar e perceber que o XV de Jaú tinha um zagueiro bom chamado Émerson e que o jovem César da categoria de base poderia suceder Gilmar, que voltava ao São Paulo.

Era um clube que se identificava com os seus. Era um clube que tinha alma. Hoje, a Portuguesa vaga!

Vaga porque a história de 2013 é uma ferida aberta. Todos sabem que ela escalou um jogador irregular, que foi punida corretamente pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, que correu atrás de seus direitos na Justiça Comum, que recuou, mas ninguém sabe quem foi o autor da obra. Afinal, quem foi o responsável no caso Héverton?

A alma rubro-verde não se envergonhará de ir a campo na Série C no ano que vem. Mas sente todo dia um enorme embaraço quando toma-lhe a consciência de que em dez meses despencou da Série A para C, com escala na B!

Severa, que sempre descansa em alguma das famosas piscinas do Canindé, que tanta gente atraiu nos anos 70, já não sorri mais. Limita-se a levantar os olhos por cima do livro que lê e a franzir a testa…

No Canindé, ninguém sabe dizer ao certo se Severa franze a testa por conta da Portuguesa ou por conta da leitura que tem entre as mãos: “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto.

Talvez pelos dois, porque a saga rubro-verde na Série C se assemelhará à narrativa da dura trajetória do migrante nordestino em busca de melhor condição de vida no litoral. Severa, dizem, espera que na Série C a Portuguesa chegue ao litoral… E na praia não mais morra!

 

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