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O Enigma do Artilheiro

Fred, bastante questionado na Copa do Mundo, termina 2014 como artilheiro do Campeonato Brasileiro e reacende a discussão sobre o estilo de jogo no País.

Maurício Capela

08 de dezembro de 2014 | 15h24

O Campeonato Brasileiro de 2014 chegou ao fim. Com números extraordinários, como o do Cruzeiro que alcançou a marca inédita de 80 pontos desde que a competição passou a ter 20 clubes. E com desempenhos surpreendentes, como o do atacante Fred do Fluminense que terminou sendo o artilheiro da competição com 18 gols.

Aliás, a performance de Fred merece reflexão. Afinal, foi Fred que não esteve bem na Copa do Mundo deste ano ou o nível do futebol brasileiro está realmente em patamar inferior às principais ligas europeias?

Até porque o atacante, que de peça-chave da seleção campeã da Copa das Confederações em 2013, se viu em meio a uma saraivada de questionamentos na Copa do Mundo deste ano… Quando, de fato, exibiu um futebol aquém do que sempre esteve acostumado a demonstrar.

Que Fred é artilheiro, ninguém duvida… Fez gols atuando no Brasil e na França. E o fato de ter jogado até o momento somente em quatro clubes, principalmente para um atleta desse nível que já tem 31 anos, demonstra como as agremiações por onde passa valorizam seu futebol.

Portanto, em 2014, é claro que Fred acabou dando uma espécie de volta por cima. Mas seu retorno ao posto de artilheiro do Brasileiro, algo que já havia feito em 2012 quando marcou 20 gols pelo Fluminense, reacende o debate sobre o nível e estilo do futebol praticado no Brasil. 

Os principais clubes do mundo têm aberto mão de jogar com um artilheiro “estilo Fred”. O próprio Bayern de Munique negociou o croata Mário Mandzukic com o Atlético de Madrid, que por sua vez perdeu a sua referência Diego Costa, um jogador de mais movimentação que Mandzukic, para o Chelsea.

Mas há também sinais contrários. Sem comparar bola e sim apenas estilo, o Manchester United pagou um duro “pedágio” para tirar o colombiano Falcão Garcia do Mônaco, por exemplo.

Em princípio, a volta por cima de Fred insinua que os treinadores brasileiros ainda gostam de atletas que sirvam de referência e briguem na área adversária. Mesmo porque o vice-artilheiro do Brasileirão foi Henrique, do Palmeiras, um evidente jogador de área.

Mas colocar a volta por cima do artilheiro do Flu na conta dessa aparente lógica do futebol brasileiro não parece justo, uma vez que desconsidera o esforço pessoal do jogador. E Fred mostrou competência, fez gols e mesmo que não tenha se movimentado como nos tempos de garoto, soube se colocar na área adversária.

É justamente aí, nos tempos de garoto, que talvez resida o equívoco do questionamento. Fred perdeu a constante movimentação, porque simplesmente o tempo passou. O atacante não é mais uma jovem promessa e talvez… Sim, talvez… Talvez também já não esteja mais no auge.

Soa injusto estabelecer conexão direta entre seu desempenho neste campeonato e o nível do certame. Que o futebol brasileiro demanda modificação tática, não resta dúvidas, o desempenho da Seleção Brasileira está aí, além das revelações do próprio campeonato que escancaram a ausência de talentos na linha de ataque.

Faz crer, portanto, que é mais reveladora a investida do poderoso Real Madrid em direção a Lucas Silva do Cruzeiro do que a artilharia de Fred. Até porque está virando comum no Brasil, mas não era, negociar jogadores defensivos ao fim dos campeonatos nacionais. Essa honraria sempre havia pertencido aos atacantes, que não há a menor dúvida, estão em falta!

É bem possível que aí esteja a explicação do contínuo sucesso de Fred nos campeonatos brasileiros: a ausência de novos talentos no ataque!

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