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S.O.S Futebol Brasileiro

Venda de Ricardo Goulart, um dos promissores atacantes brasileiros, reitera a necessidade de se mudar a lógica do futebol nacional, que insiste em vender o artista e não o espetáculo.

Maurício Capela

13 de janeiro de 2015 | 15h28

A decisão é sempre pessoal, é sempre intransferível, quando um jogador de futebol resolve arrumar as malas e se mandar do Brasil. E é óbvio que deve-se respeitar a maneira pela qual o atleta decide conduzir a sua carreira. Um direito, é bom que se frise, totalmente inalienável!

Mas o que incomoda é a passividade em que repousa o negócio futebol no Brasil. Escorado em argumentos de primeira hora, que são os mesmos de ontem e provavelmente também os de amanhã, como independência financeira e valorização profissional, jovens atletas rumam para o exterior como se o futebol brasileiro fosse apenas uma generosa barriga de aluguel à espera do parto natural.

Os clubes também não se fazem de rogado e lançam  mão de justificativas já surradas, como orçamento apertado, endividamento e proposta irrecusável para dar alguma satisfação à debandada verde-amarela. 

Ricardo Goulart, portanto, é só mais uma nessa engenhoca em que se encontra o esporte bretão made in Brazil. Nada tem com isso, uma vez que é produto e não produtor dessa lógica que se arvora desde a metade dos anos 80 por aqui.

O Brasil é um país que insiste em exportar o artista, enfraquecendo seu espetáculo e fragilizando a já abalada identificação do garoto para com as cores das agremiações nacionais. Um mosaico complexo que cada vez mais tinge de maneira devastadora e perene a juventude brasileira que gosta de futebol e que cada vez menos encontra motivos para torcer pelo clube de cá e não pelo clube de lá, do estrangeiro.

Por ora, pouco adiantaria estabelecer comparação numérica a respeito de orçamento, torcida, cota de televisão ou de qualquer outro indicador entre os clubes brasileiros, chineses, russos, ucranianos, turcos ou de qualquer outro país que tenha um nível econômico semelhante ao do Brasil.

Não adianta, porque por aqui falta gestão. Gestão que englobaria visão de negócio, participação de mercado, distribuição de produto além fronteira, importação de novas tecnologias e por aí vai… Todos termos que qualquer multinacional instalada no Brasil ou mesmo qualquer conglomerado verde-amarelo sabe de cor e salteado.

Mas o futebol nacional dá de ombros. Insiste em ser um mundo à parte. Prefere discutir a volta do mata-mata, um erro terrível, em vez de debater de maneria definitiva o calendário. Parece ignorar, com a tranquilidade de um monge, o fosso cada vez maior entre o futebol praticado nos grandes centros e o daqui. E esquece o quão valioso seria negociar mundo afora uma liga de futebol brasileira, principalmente quando o português é a quarta língua mais falada no mundo.

Ricardo Goulart, um dos atacantes mais promissores do futebol brasileiro, está indo para China por 15 milhões de euros. E não será o último, porque logo logo outra revelação arrumará suas malas, fechará sua casa e dará adeus ao futebol nacional.

O futebol brasileiro ainda pede socorro, ainda o faz em alto e bom som, mas o volume já foi maior. Ainda é possível ouvi-lo, só não se sabe até quando!

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