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Tem chinês no samba!

A contratação de Renato Augusto, o melhor jogador de futebol no País em 2015, escancara a necessária reformulação estrutural no futebol brasileiro, que perde ano após ano a capacidade de competir com qualquer mercado, mesmo aqueles em que projeção, relevância, tradição e status simplesmente não existem.

Maurício Capela

06 de janeiro de 2016 | 14h12

A questão está longe de ser particular e não é um tema que remeta a um único clube. Pelo contrário! É endêmico e clama por um debate amplo, irrestrito e severo por parte de quem comanda as agremiações do País. Em outras palavras e de maneira direta, os clubes do Brasil não deveriam ficar prostrados diante da ofensiva chinesa.

O desmonte do campeão brasileiro, o Corinthians, é uma vergonhosa derrota para a estrutura do futebol no País. E aqui não cabe o jogo do empurra-empurra. Não!

Cada qual tem a sua parcela, um fato, mas o desmonte do campeão brasileiro exibe visceralmente o estágio administrativo em que se encontra o futebol no País: a infância.

Tudo bem, tudo bem que a China é dona de um poderio econômico poucas vezes visto em sua história. Tudo bem, tudo bem que o país asiático é enorme e tem envergadura que lhe permite estampar o selo de “potência econômica”. Tudo muito bom… Tudo bem!

Mas o futebol não é uma atividade econômica qualquer. O futebol envolve também dinheiro, claro, mas não é só. O futebol fundamentalmente envolve projeção, relevância, tradição e status.

A China, ainda que mereça deste blog reconhecimento e aplausos, porque está fazendo à perfeição a lição de casa que vai resultar no desenvolvimento desse esporte por lá e talvez até em títulos importantes em um futuro próximo, nada tem de relevância, de projeção, de tradição e tampouco de status no mundo da bola neste momento. E os chineses sabem disso, o que é uma virtude, porque traz consigo humildade, necessária para pavimentar caminhos vitoriosos.

Em outras palavras, o apetite chinês encontrou o alimento perfeito: a frágil estrutura futebolística do País. Frágil, porque a lógica da economia sequer passou ou passa próximo a qualquer endereço de sede de clube. Aqui, vive-se de espasmos de desenvolvimento no futebol. Quer um exemplo?

Há meia década, quando a economia nacional trafegava em águas calmas, o que também fez os clubes se banharem, o que foi feito? Contratações de estrangeiros próximo do fim de carreira.

Mas o que deveria ter sido feito? Uma profunda reformulação interna em todos os clubes, equalização dos nababescos endividamentos e transformação dos mesmos em sociedades anônimas. Só assim os times estariam preparados para enfrentar novas ondas de escassez de recursos financeiros, como a de hoje.

Agora, quando o País vive solavancos na economia, a estrutura frágil dos clubes emerge. E a contratação do melhor jogador do futebol brasileiro em 2015, o meia Renato Augusto do Corinthians, é somente a cereja do bolo de um futebol talentoso, vigoroso e ansioso por encontrar um novo caminho de protagonismo, mas que naufraga diante de qualquer punhado de dinheiro.

Hoje, é a China. Mas ontem foi a Ucrânia, o Japão, os Emirados Árabes Unidos, a Turquia, Portugal, a Espanha… Enfim, a lista é imensa. E sem a profissionalização definitiva, ela só vai aumentar com o passar dos anos. Até porque o futebol brasileiro parece estar acomodado com o seu papel de exportador de artistas, mas jamais de espetáculo. Uma lástima, porque não há futebol sem ídolos e os nossos jogam em todos os lugares, exceto na terra natal.

 

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