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Zumbi Futebol Clube

Encerramento das atividades de XV de Jaú e de União São João são a ponta de uma montanha, cuja base é repleta de clubes endividados, dependentes de investidores ou largados à própria sorte, sem que ninguém aponte uma saída para o problema.

Maurício Capela

10 de fevereiro de 2015 | 15h46

A temporada de 2015 mal começou e o futebol brasileiro já deu as boas vindas ao seu mais novo integrante, a “Falência”. É bem verdade que ela sempre andou rondando ali e acolá, à espera de uma oportunidade para demonstrar todo o seu potencial. E não é que a chance veio? E veio em dose dupla!

O União São João de Araras e o XV de Jaú deram adeus ao futebol neste ano. Ambos resolveram deixar de lado o Campeonato Paulista da Segunda Divisão e não disputá-lo. E não há o menor sinal de que essas agremiações voltarão à ativa.

Mas a “Falência” promete novas vitórias e em âmbito nacional. O Paraná, vencedor de duas séries B e uma das três principais equipes do Estado, já não esconde de ninguém que colocar o cadeado no portão é uma possibilidade real.

Só isso já seria suficiente para que clubes e dirigentes levantassem da cadeira e começassem a se mexer, porque não há time grande sem time pequeno. Aliás, um clube só é grande, porque na comparação é maior que o rival.

No entanto, tudo é encarado com naturalidade. Até mesmo a existência de clubes que só não faliram ainda por obra e graça de um investidor, que sabe-se lá o interesse que tem no futebol, ou por sorte, já que sobrevivem no melhor estilo “vende-se o almoço para comprar o jantar”.

A sensação é que o futebol brasileiro hoje está repleto de “clubes faz-de-conta”. São verdadeiros zumbis do futebol brasileiro, que se fossem à bancarrota de uma única vez, o futebol no País iria colapsar, porque para ter campeonato regional é preciso ter time pequeno. Sem eles, não há competição e talvez não houvesse nem torneios nacionais como as séries C e D. Talvez…

Mas não há movimento. Ninguém parece querer entender porque clubes como o União São João de Araras, que revelou, por exemplo, o ex-lateral-esquerdo Roberto Carlos e já disputou quatro campeonatos brasileiros da primeira divisão, sucumbiu.

Parece também que ninguém anda pelo menos interessado em saber como o XV de Jaú, que não teve papel de destaque no cenário nacional, é verdade, decidiu fechar a porta e jogar a chave fora.

O XV que  revelou um meia habilidoso como Toninho, vice-campeão paulista pela Portuguesa em 1985, e seu irmão Sonny Anderson, de Barcelona e tantos outros. O mesmo XV que deu ao Brasil Edmilson, campeão do mundo em 2002, além do lateral Alfinete e do volante Wilson Mano, um jogador fundamental na conquista do primeiro campeonato brasileiro pelo Corinthians, e tantos outros.

Mas XV de Jaú e União São João de Araras são apenas o primeiro sintoma de um sistema que já não funciona mais. Não funciona porque a violência tira o torcedor do estádio, porque os campeonatos têm nível técnico ruim, porque os grandes clubes estão endividados e sem capacidade de realizar investimentos, porque os clubes já não controlam mais as categorias de base e porque o futebol praticado no Brasil já não atrai como antes.

A julgar pelo transcorrer da caravana, é possível imaginar que, em breve, clubes-zumbis também desembarquem na primeira divisão do futebol nacional, se é que já não estiveram… Ou ainda estão por lá.

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