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A alegria do povo

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h21

22/1/2008

A segunda rodada do Campeonato Paulista foi de reversão de expectativas. O
Palmeiras ia arrasar o Santos, e dentro da Vila: deu empate. O São Paulo ia
golear o Rio Preto: ganhou em suado 1 a 0, gol marcado aos 43 do segundo
tempo. O Corinthians, depois do bom início, ia se impor diante da sua asa
negra: perdeu para o São Caetano por 3 a 1. A Portuguesa, rediviva, mostrou
que não estava para brincadeira depois de estrear derrotando o atual campeão
e ia passar por cima do seu adversário seguinte: perdeu para o Ituano por 1
a 0.
O que aconteceu? O futebol é uma “caixinha de surpresas”, como diziam os
antigos? Menos, menos. Nós é que gostamos de tirar conclusões precipitadas e
definitivas. E, nesses casos, o futebol não perdoa e nos derruba. O fato é
que, tirando o São Paulo, e talvez a própria Portuguesa, todos os outros
estão em formação. Não se pode exigir muito deles neste começo de temporada.
Não se pode esperar, sobretudo, regularidade. Nesse sentido, o mais
oscilante talvez venha a ser o Corinthians, o que mais contratou e montou um
time todo novo. Mano Menezes terá muito trabalho pela frente.
Mas Emerson Leão e Vanderlei Luxemburgo, a julgar pelo que se viu no
clássico, também não terão vida fácil. Luxa está do lado que tem o dinheiro,
o que sempre ajuda. Jogou sem duas contratações que merecem o nome de
reforços, Diego Souza e Lenny. Quando eles entrarem no time, o Palmeiras
deverá apresentar um futebol mais leve, criativo e rápido – do que jeito que
o treinador gosta.
Já o Santos não foi o desastre que se esperava porque Leão reconheceu a
superioridade do adversário e optou por uma postura defensiva. No segundo
tempo foi até melhor do que o Palmeiras, mas não a ponto de marcar o gol da
vitória. Então, sua insuficiência ofensiva ficou mais do que clara. O que
adianta ter um bom centroavante como Kléber Pereira se a bola não chega até
ele?
Quanto aos outros: a Portuguesa se iludiu com a vitória sobre um Santos
desconjuntado e sem raça no primeiro jogo. Precisa cair na real. E o São
Paulo, que tinha a ilusão rápida de se tornar uma máquina mortífera com
Adriano, talvez tenha de se conformar com a filosofia modesta e vencedora de
Muricy Ramalho. Ganha, mas não encanta.
MANÉ E O RISO
Quem vencia e encantava era Mané Garrincha, que nos deixou há 25 anos, no
dia 20 de janeiro de 1983, vítima de cirrose hepática. Para quem se lembra
de Garrincha, que levou o Botafogo a incontáveis vitórias, venceu as Copas
de 1958 e 1962 e nunca perdeu um jogo da seleção atuando ao lado de Pelé,
não cabe nenhuma dúvida de que foi o segundo melhor jogador de todos os
tempos. Não era completo, como o Outro, mas era perfeito no que fazia. Era
um driblador infernal, lúdico, mas extremamente eficiente na sua jogada
principal, a finta inapelável, a chegada à linha de fundo, o cruzamento
fatal. Grande Garrincha. Parou mais cedo por causa dos joelhos, do álcool e
do abuso dos cartolas que o obrigavam a jogar sem condições físicas. Não
pegou por completo a era da mídia e por isso não consta do repertório de
quem acha que a bola começou a rolar nos anos 80. Mas nenhum jogador é
lembrado com tanto carinho pela torcida da geral quanto o nosso Carlitos da
bola. Garrincha, ao desmoralizar seus marcadores, fazia o homem do povo rir
nas arquibancadas. Era a sua alegria. Talvez a única.

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