As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A alma varzeana e os profissionais

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h25

16/1/2007

Lendo o diário espanhol El Pais, deparei com uma manchete que não esperava
encontrar em jornal tão sóbrio: “Hartos de Riquelme”. Quem estava farto do
argentino Riquelme? Seu clube, o Villarreal, que deve ter motivos para isso.
Tanto assim que seu presidente Fernando Roig rosnava: “Obedecerá o clube e
cumprirá suas obrigações ou terá problemas comigo.”
Bem, eu sei que o Riquelme tem o ar meio indolente e fez uma Copa muito
ruim. Guardadas as proporções, foi uma decepção tão grande quanto a de
Ronaldinho Gaúcho. Não rendeu. Escondeu-se do jogo. E, parece, está fazendo
a mesma coisa em seu clube. Só que lá ninguém vai lhe dar moleza. O El Pais
desfia um rosário de queixas contra ele: falta de empenho nos treinamentos,
desleixo, temperamento forte e incompatível com o rendimento em campo. E,
sobretudo, tédio. O articulista até compreende: o atleta tem 28 anos, treina
de maneira profissional desde os 10, quando surgiu no infantil do Argentinos
Juniors. É tudo verdade. Mas o que tem a ver o Villarreal com isso?
Esse é o futebol profissional – e é onde eu queria chegar. Porque, para
falar bem a verdade, tenho tanto interesse pelo destino do Riquelme quanto
pelo do Villarreal; ou seja, nenhum. O que me importa é o que esse caso
significa: nesse futebol de alto profissionalismo o cara é contratado a peso
de ouro e quem paga exige. Se não funciona bem, dança, chame-se Riquelme,
Ronaldo, Beckham ou Robinho. Não vejo em nenhum clube europeu a
possibilidade de um relacionamento amadorístico como o que o Romário tem com
o Vasco, por exemplo. Lá, é relação patrão-empregado, sem nenhuma conversa.
E, quanto mais o profissional fatura, mais lhe é exigido. Uma contrapartida
lógica, no contexto do capitalismo da bola.
Por isso não tenho nenhuma dificuldade em entender porque alguns jovens,
brasileiros ou de outra nacionalidade qualquer, não dão certo quando vão
para a Europa de maneira prematura. Simplesmente ficam aquém da expectativa
do investidor. Ganham algum tempo de tolerância e depois acabou-se: devem
render, retornar o investimento. Essa sensação de que precisam mostrar
serviço, muito e rápido, deve ser de fato desgastante. Mas é o preço a
pagar. Ou melhor: a retribuir. Não tenho peninha nenhuma deles. Estão sendo
cobrados à altura do valor em que são cotados.
Esse é um modelo para nós? A julgar pelo que escrevem por aí, não existe
outro. Eu não gosto. Mas devo admitir, embora fira meu ego, que o mundo real
não me consulta antes de tomar o seu caminho. Em todo caso, a minha
preferência pessoal ainda pende para um certo amadorismo, embora saiba que
este, em estado puro, nem nas peladas ou no society de fim de semana existe
mais. Mas gosto de pensar que o futebol ainda comporta alguma coisa além da
contabilidade, da relação custo-benefício ou de outra estatística econômica
qualquer.
E assim me agrada pensar que ainda existe no nosso futebol alguma coisa
rústica, irredutível à racionalidade, uma “alma varzeana”, que tanto o
condena a absurdos capazes de levá-lo à decadência como o redime do tédio
infinito do futebol profissionalizado ao extremo, como o da Europa. O que
falta para o Riquelme é talvez uma boa temporada em um dos nossos bagunçados
clubes. Ou, por que não?, no seu Boca Juniors com seus hinchas furiosos, dos
quais ele ainda deve sentir saudades, se continua a ser gente.
Pressão européia às vezes pode ser forte demais para alguns jogadores

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.