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A aura do craque

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h59

2/9/2008
VENEZA
Como estou na Itália, a trabalho, acabo meio sem querer me interessando pelo
futebol local. Afinal, onde a bola rola é sempre um pouco a nossa pátria,
não é? Além do mais, há por aqui a famosa legião brasileira, o nosso pé de
obra exportado, com o qual perdemos contato e afetividade tão logo eles
cruzam a fronteira. Mas, quando se está por aqui é diferente. E então segui
com atenção a expectativa em torno da estréia de Ronaldinho Gaúcho no Milan.
Ele não foi mal, conforme vocês devem ter visto por aí, em algum canal por
assinatura. Jogou uns 20 minutos de bom futebol, logo que acordou, já no
segundo tempo. Enfiou uma ou duas bolas ótimas, desperdiçadas pelos
companheiros. Foi o bastante para verem um fuori classe em campo. Claro, nem
de longe correspondeu à expectativa alimentada por pelo menos uma semana de
matérias consagradoras. O seu patrocinador inventou até mesmo uma chuteira
especial para a estréia. Segundo se diz, ela é revestida da pele de um
bicho, acho que ovelha, de um lado, e de outro bicho, na parte externa. Eles
justificam: é que o toque com a parte de fora é diferente do toque com a
parte interna, assim os materiais também devem ser distintos, etc. Cola ou é
jogada de marketing? Não sei. Quando li, lembrei que Pelé e Garrincha
jogavam com aquelas antigas chancas de couro que, quando chovia, pesavam uns
três quilos. Em cada pé. Mas deixa pra lá e voltemos a Ronaldinho.
Apesar de seu time ter perdido para o Bologna por 2 a 1, a atuação do craque
foi elogiada. Ganhou a maior nota, nos principais jornais. Nota sete, no
Corriere della Sera, acompanhada do conceito: “Um mea culpa por haver
duvidado dele. Faz a diferença, mesmo jogando parado, e a coisa é ainda mais
surpreendente quando se lembra que, no futebol de hoje, quem fica parado
está perdido’’.
Pronto: eis aí a homenagem ao craque, que não jogou assim tão bem, mas
consegue meter duas ou três bolas incompreensíveis para os europeus. E isso
lhe dá o direito de desaparecer no resto do jogo. O mais surpreendente é que
isso acontece no país onde mais se dá importância à questão tática. Tanto
assim que, mesmo o Milan tendo jogado apenas uma partida, já é criticado por
sua opção ofensiva. “Quem, nesse time do Milan, recupera a bola quando ela
está com o adversário?’’, pergunta-se um comentarista. Assim, mesmo tendo
apenas empatado com a Fiorentina, a Juventus continua favorita dos críticos.
“Outros times podem ter a mesma qualidade de jogadores, como o Milan e a
Internazionale, mas a Juventus não tem pontos fracos’’, afirma um crítico. É
aquele time que joga o vero calcio. O verdadeiro futebol italiano: sólido,
pragmático, racional. Para eles, o Milan é fantasia.
Mesmo com essa mentalidade, tira-se o chapéu para o fora-de-série, o jogador
aqui chamado de “fantasista’’. O inventor, que cria alguns lances e se dá
por satisfeito. Talvez por isso, por gozarem desse salvo-conduto ilimitado,
tantos deles se acomodem e se percam.
POR AÍ
Não é por estar no exterior que vou ficar por fora do futebol brasileiro. No
fundo, é ele que me interessa e ponto. Entrei na internet, vi os resultados
e consegui até assistir a alguns “melhores momentos’’. Que foram, pelo
jeito, poucos no empate sem gols entre São Paulo e Santos. Ou muito me
engano ou o São Paulo se afasta um pouco do tri. E o Santos dá mostras de
que pode reagir e salvar-se da degola. Mas vai ter de ralar muito. E sim,
aleluia, o Palmeiras venceu fora de casa! Entrou na parada para o título
brasileiro.

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