As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A aura do craque

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 14h08

VENEZA – Como estou na Itália, a trabalho, acabo meio sem querer me interessando pelo futebol local. Afinal, onde a bola rola, é sempre um pouco a nossa pátria, não é? Além do mais, há por aqui a famosa legião brasileira, o nosso pé de obra exportado, com o qual perdemos contato e afetividade tão logo eles cruzam a fronteira. Mas, quando se está por aqui é diferente. E então segui com atenção a expectativa em torno da estréia de Ronaldinho Gaúcho no Milan.
Ele não foi mal, conforme vocês devem ter visto por aí, em algum canal por assinatura. Jogou uns 20 minutos de bom futebol, logo que acordou, já no segundo tempo. Enfiou uma ou duas bolas ótimas, desperdiçadas pelos companheiros. Mas foi o bastante para verem um “fuori classe” em campo. Claro, nem de longe correspondeu à expectativa alimentada por pelo menos uma semana de matérias consagradoras. O seu patrocinador inventou até mesmo uma chuteira especial para a estréia. Segundo se diz, ela é revestida da pele de um bicho, acho que ovelha, de um lado, e de outro bicho, na parte externa. Eles justificam: é que o toque com a parte de fora é diferente do toque com a parte interna, assim os materiais também devem ser distintos, etc. Cola ou é jogada de marketing? Não sei. Quando li, lembrei de que Pelé e Garrincha jogavam com aquelas antigas chancas de couro que, quando chovia, pesavam uns três quilos. Em cada pé. Mas deixa prá lá e voltemos a Ronaldinho.
Apesar de seu time ter perdido para o Bolonha por 2 a 1, a atuação do craque foi elogiada. Ganhou a maior nota, nos principais jornais. Nota sete, no Corriere della Sera, acompanhada do conceito: “Um mea culpa por haver duvidado dele. Faz a diferença, mesmo jogando parado, e a coisa é ainda mais surpreendente quando se lembra que, no futebol de hoje, quem fica parado está perdido”.
Pronto: eis aí a homenagem ao craque, que não jogou assim tão bem, mas consegue meter duas ou três bolas incompreensíveis para os europeus. E isso lhe dá o direito de desaparecer em campo no resto do jogo. O mais surpreendente é que isso acontece no país onde mais se dá importância à questão tática. Tanto assim que, mesmo o Milan tendo jogado apenas uma partida, já é criticado por sua opção ofensiva. “Quem, nesse time do Milan, recupera a bola quando ela está com o adversário?”, pergunta-se um comentarista. Assim, mesmo tendo apenas empatado com a Fiorentina na estréia, a Juventus continua favorita dos críticos. “Outros times podem ter a mesma qualidade de jogadores, como o Milan e a Internazionale, mas a Juventus não tem pontos fracos”, afirma um crítico, para justificar sua preferência pelo time de Turim. É aquele que joga o “vero calcio italiano”. O verdadeiro futebol italiano: sólido, pragmático, racional. Para eles, o Milan é fantasia.
Mesmo com essa mentalidade, tira-se o chapéu para o fora de série, o jogador aqui chamado de “fantasista”. O inventor, que cria alguns lances e se dá por satisfeito. Talvez por isso, por gozarem desse salvo-conduto ilimitado, tantos deles se acomodem e se percam.
Por aí
Não é por estar no exterior que vou ficar por fora do futebol brasileiro. No fundo, é ele que me interessa e ponto. Assim, entrei na internet, vi os resultados e consegui até assistir a alguns “melhores momentos”. Que foram, pelo jeito, poucos no empate sem gols entre São Paulo e Santos. Ou muito me engano ou o São Paulo se afasta um pouco da conquista do tri. E o Santos, mesmo sem subir na classificação, dá mostras de que pode reagir e salvar-se da degola. Mas vai ter de ralar muito para isso. E sim, aleluia, o Palmeiras venceu fora de casa! Entrou na parada para o título brasileiro.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: