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A beleza da tática

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h48

Estamos acostumados a pensar a beleza do futebol em termos de dribles,
jogadas e gols espetaculares. É justo. Mas há outra beleza, a da tática, que
também deve ser levada em conta pelos apreciadores. Foi esta o que de melhor
se viu na vitória do Palmeiras por 3 a 1 sobre o Santos. Depois do jogo, no
vestiário, Candinho, fazendo jus ao nome, foi límpido e sincero: “Se
fôssemos enfrentar de igual para igual um time como o Santos, estaríamos
perdidos.”
O que fez? Montou um esquema defensivo com três zagueiros e volantes de
contenção e limitou-se a atacar o oponente em contra-golpes. Do outro lado,
o Santos, quando conseguia criar, perdia gols nos pés do displicente Deivid.
Quem não faz, toma, diz o refrão manjado. E o Palmeiras abriu o marcador com
Daniel. Para o segundo tempo, Oswaldo tirou Tcheco, contundido, e colocou
Basílio, deixando o time mais ofensivo ainda. Podia ter dado certo. Mas toda
opção tem seu preço – e o desta foi abrir uma avenida por onde o Palmeiras
podia se infiltrar em meio à frágil defesa santista. Esperto, Candinho
colocou por ali Pedrinho, que acabou definindo o jogo.
Visto assim, o futebol parece xadrez, que é também um jogo lindo. Mas, no
gramado, as “peças” são humanas e elas é que dão vida e sangue àquilo que se
desenha na cabeça do técnico. E, então, entra em cena a técnica, ou às
vezes, a falta dela. Mesmo em tarde infeliz, e vigiado de perto, o bom
ataque do Santos criou várias chances de gol, mas encontrou a categoria de
Marcos pela frente. E Pedrinho mostrou que a qualidade faz a diferença. Com
ele, os antes inócuos contra-ataques alviverdes tornaram-se fatais.
Simplesmente porque agora encontravam quem sabia o que fazer com a bola. Não
adianta correr com o balde d’água se não se sabe onde está o incêndio, como
se diz nos botecos.
A vitória do Palmeiras, por esse placar, foi justa ou injusta? A pergunta
surge porque o Santos teve mais volume ofensivo, mais chances de gol, e
tendemos a dar preferência, por uma questão cultural, ao futebol que se joga
no ataque. Mas seria injusta por quê? Os três gols foram legítimos, sem
nenhuma discussão. Classificá-la de “injusta” seria a mesma coisa de dizer
que a vitória de Muhammad Ali sobre George Foreman na célebre luta pelo
título mundial em 1974 também foi injusta. Veterano e mais fraco fisicamente
do que Foreman, Ali permaneceu sete assaltos nas cordas, tomando uma surra
aparente, enquanto cansava o adversário e o golpeava esporadicamente,
minando suas forças. No oitavo round, num contra-ataque surpreendente,
aplicou golpes fatais no gigante Foreman e o levou à lona. É considerada uma
das maiores lutas da história do boxe e simboliza o triunfo da inteligência
sobre a força bruta.
No domingo, o Palmeiras deu um nó no favorito Santos, mais uma vez perdido
na soberba e na confiança em sua suposta técnica superior. O futebol é mais
do que técnica: é feito também de inteligência tática, dedicação e
disciplina. Esta é a lição de sempre, que os boleiros, quando dizem que vão
“levantar a cabeça e partir para a próxima”, garantem ter aprendido, mas que
nunca é assimilada por completo.
RINUS MICHELS
Quem gosta de ver o futebol também por seu lado tático ficou triste pela
morte de Rinus Michels, criador do Carrossel Holandês, que assombrou o mundo
na Copa de 1974. Aquele jogo, 2 a 0 para a Holanda, foi o maior vareio de
bola que já vi uma seleção brasileira levar. Houve um momento – vá lá – em
que o Brasil ensaiou qualquer coisa, se não me engano uma bola lançada na
ponta esquerda para Paulo César Caju, que não aproveitou a oportunidade.
Depois só deu Holanda.
Foi talvez o último grande momento de criatividade tática no futebol
contemporâneo. Mas não criou um novo paradigma. O esquema parecia tão
dependente do cérebro de Michels quanto dos pés de Krol, Neeskens, Cruyff,
Rep e Rensenbrink. Por isso, talvez, a Holanda de 1974 tenha sido uma
experiência irrepetível. Só funcionava com aqueles jogadores. Sem os
craques, a tática é letra morta na prancheta do treinador.

8/3/2005

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