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A beleza que se põe na mesa

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h03

Minhas velhas tias italianas diziam que beleza não se põe na mesa, “viu,
belo?” No futebol se põe. Por exemplo, o que seria do Fluminense não fosse a
maravilhosa jogada de Marcelo e Petkovic, que redundou no primeiro gol?
Talvez estivesse até agora jogando contra o Figueirense sem abrir o placar.
A beleza resolveu. Óbvio: o bom futebol, jogado por quem tem categoria e
sabe o que faz com a bola, resolveu. É assim, e tem sido assim desde que a
bola começou a rolar neste país abençoado por Deus e bonito por natureza,
como dizia Jorge Benjor no tempo em que era apenas Jorge Ben.
Há muitos e muitos anos criamos por aqui um jogo de sutileza e malícia,
rebelde à disciplina tática, aos esquemas rígidos, e vimos que esse estilo
era bom. Surgia a escola brasileira. Escola que vinha do povo, valorizava a
firula, o drible, a ginga, a jogada individual, ou senão a tabela, os
deslocamentos, o jeito surpreendente de bater na bola. Ou seja, tudo aquilo
que não está no script, no catecismo, que não pode ser codificado, que vai
além do feijão-com-arroz, além da prancheta do técnico.
Claro que tudo mudou. Os esquemas se tornaram mais rígidos, exatamente para
deter os mágicos da bola – que, aliás, não nascem apenas no Brasil. Afinal,
não estamos aqui louvando o golaço do gringo Petkovic? Mas, apesar de todas
as mudanças, apesar de o futebol ganhar cada vez mais ares de uma ciência
exata, de uma disciplina de doutores letrados, acaba sendo sempre o craque
quem faz a diferença, que acaba reduzindo a pó num lance, às vezes num único
lance de uma partida, tudo aquilo que fora planejado para anulá-lo, para
detê-lo, para nivelá-lo à insignificância dos medíocres.
O que chamamos de beleza, no futebol? A graça do movimento. Pelé saltando
para uma cabeçada. Ademir da Guia conduzindo a bola. Garrincha, driblando
sempre para o mesmo lado. Zidane matando uma bola. Gérson dando um
lançamento. Robinho pedalando. Em seguida, vem a convicção de que nenhum
desses movimentos de alta plástica é inútil. Uma cabeçada de Pelé era fatal;
Ademir conduzia a bola em direção ao gol como se fosse um mágico que a
escondesse do marcador; Garrincha aboliu vários esquemas de marcação,
inclusive aquele da União Soviética, no mítico jogo de 1958, “os mais
fantásticos cinco minutos de uma partida de futebol”, segundo um cronista da
época. Com suas pedaladas sobre Rogério, Robinho conseguiu o pênalti que
abriu o caminho para a conquista do Campeonato Brasileiro de 2002. No
futebol, a beleza é fundamental. O Barcelona, que joga bonito, é, por esse
motivo, o melhor time do mundo.
E nem precisamos ir até lá, onde a beleza floresce regada a milhões e
milhões de euros. Podemos encontrá-la ainda por aqui, a preço módico, em
reais, no nosso pobre e explorado futebol. Não a vimos no golaço de Pet? Ou
no também maravilhoso gol de Obina, pelo Flamengo, um toquinho com a parte
externa do pé, de costas para a meta, primor de malícia e arte? O Santos de
2002 exibia um futebol maravilhoso, assim com o Cruzeiro de 2003, ambos
campeões brasileiros. A beleza dá bons resultados, senhores técnicos. Vamos
deixá-la aparecer?
PS: Um exemplo contrário de tudo o que defendi acima foi o ignóbil Ponte
Preta x Santos, no domingo, um dos jogos mais feios jamais vistos. Parecia
que estavam jogando com bola oval, de futebol americano, tamanha a
dificuldade para dominá-la. Chutões para todos os lados, ligação direta
entre defesa e ataque, lances primários. Quem foi ao Moisés Lucarelli
deveria ter seu dinheiro devolvido. Acabei o jogo irritado. Para combater a
depressão, peguei o meu DVD de Pelé Eterno e assisti a uma boa meia hora.
Para limpar a vista e dormir em paz.

19/9/2006

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