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A bola e o bruto

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2011 | 22h56

O Corinthians prossegue caminhada tranqüila rumo ao título, seguido meio de
longe pelo Inter. Em condições normais de temperatura e pressão, ambos
vencem os compromissos de amanhã (São Caetano x Corinthians, no Anacleto, e
Inter x Brasiliense, em Porto Alegre) e se encontram domingo, no Pacaembu.
Pode ser o final do campeonato. Ou o Inter pode botar peso nas costas do
líder para as duas rodadas seguintes, que fecham o Brasileirão. Veremos.
Enquanto isso, o Santos de Nelsinho Baptista continua fazendo história.
Depois dos vergonhosos 7 a 1 para o Corinthians, novo vexame na goleada
diante do Internacional. Perdeu a quarta partida consecutiva, feito inédito
do clube em campeonatos nacionais. Nelsinho não se fez de rogado.
Questionado sobre sua pífia atuação em 11 jogos à testa do clube, deu um
bico na ética e tirou o seu da reta: “Quem passou por aqui deixou um
trabalho horrível”, disse, despejando a responsabilidade nas costas largas
do Gallo. Bem, horrível e pavoroso é o trabalho dele, Nelsinho, “dirigindo”
um time que tomou 11 gols e fez um nos dois últimos jogos. Fica a pergunta:
até quando a diretoria vai permitir que esse técnico e esses jogadores
continuem a enlamear a camisa do Santos, de tanta tradição?
ENSAIOS DA COPA
A Inglaterra fez um jogaço contra a Argentina, briga de cachorro grande,
tenso do começo ao fim e sem vencedor fechado até o final. Jogo eletrizante,
dois estilos diferentes em campo (o que no futebol globalizado é raro), e
que deve ter ensinado muito às equipes e respectivos técnicos. Também legal
a vitória da Itália sobre a Holanda por 3 a 1, com a Azzurra de Marcello
Lippi deixando de lado o defensivismo e jogando com maior disposição
ofensiva. Enquanto isso, a seleção participava daquele baba (que é como os
baianos chamam as peladas) lá nos Emirados Árabes. Ah, essa devoção à grana
ainda vai acabar com o futebol brasileiro.
MEMÓRIA DE MANÉ
Simpática essa visita do Ulf, o filhote sueco que Garrincha fez numa das
excursões do Botafogo. E não deixa de ter razão a bronca do filho gringo ao
ver o estado de abandono em que se encontra o túmulo do pai, em Magé. Em
pior estado está a memória de Mané, sempre relegado a posição secundária
quando se fazem listas dos maiores jogadores de todos os tempos.
Cristalizou-se a idéia de que Pelé é o rei inconteste e, em segundo lugar,
viria Maradona, sem a menor sombra de dúvida. Acontece que a maioria dos
votantes não viu Mané jogar e não têm idéia do tamanho do seu futebol.
Tivessem visto, e não votariam em Maradona com tanta convicção. Garrincha
foi o máximo em campo, algo quase sobrenatural. Como não deu muito certo na
vida privada, costuma ser descartado numa época em que o sucesso (material)
é cultuado acima de tudo.
TAPAS E BEIJOS
Os amigos boleiros me perdoem, mas vou surrupiar algumas linhas do futebol e
dedicá-las ao boxe. Sei que Mike Tyson é desordeiro. Assim, quem se sentiu
prejudicado e agredido por ele que vá à justiça. Quanto a mim, sinto por ele
o respeito que merecem os que já foram grandes e caíram. Depois da sua
tumultuada passagem por São Paulo, resolvi dar uma relida num magnífico
texto de Norman Mailer, escrito quando Tyson estava no auge, nos anos 80.
Não havia então quem sonhasse derrotá-lo num ringue. Seus nocautes eram
quase todos no primeiro round e Tyson tinha o mundo a seus pés. Depois foi
decaindo, parou na cadeia, tentou voltar e viu-se nocauteado, uma e mais
vezes. Terminou, como sabemos, em São Paulo, freqüentador da boate Love
Story e do Café Photo, assediado por mulheres e fotógrafos.
No texto, Mailer fala dessa força bruta e incontrolada, que encontrava rumo
apenas nos conselhos do seu mentor, o ítalo-americano Cus D’Amato, que tirou
Tyson do gueto e o levou à fama. D’Amato morreu e hoje Tyson é um homem que
não confia em ninguém. Não o deixam em paz e onde está vira notícia. Em
especial se cometer ato de truculência, o que todos parecem esperar e não é
difícil de acontecer. Nessas condições, tornou-se presa fácil em São Paulo,
cidade selvagem (como dizia Lévi-Strauss), de que gostou e para onde promete
voltar.
Ah, sim, entre sopapos e idas à delegacia, ocupado com garotas de programa e
paparazzi, o brutamontes Mike Tyson ainda teve tempo para notar uma coisa
interessante. Estranhou que em país tão belo crianças andassem descalças
pela noite, pedindo esmolas. Nós, os civilizados, já não estranhamos mais.

15/11/2005

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