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A bola entra quando quer *

Luiz Zanin Oricchio

20 de agosto de 2013 | 10h55

Amigos, quando ouço declarações como as de Thiago Ribeiro, sinto que nem tudo está perdido no futebol. Quando o nosso esporte do coração parece dominado pela fria racionalidade dos financistas, eis que vem um boleiro como o bravo atacante do Santos e diz que o time está fazendo tudo certo, "mas a bola não quer entrar". Não é uma beleza? Essa bola brasileira, a cuja feiura já vamos nos habituando, revela-se um ser animado, cheio de caprichos e dengos. Ela faz o que deseja. Não adianta insistir. Ela entra quando quer.

É sobre essa mesma dimensão metafísica do objeto esférico que anda refletindo o São Paulo. Acabrunhado com a insólita e já longa permanência na zona de rebaixamento, o Tricolor até desistiu do seu goleiro-artilheiro, Rogério Ceni, para a cobrança de pênaltis. Logo ele, um especialista no assunto, já havia perdido duas cobranças. No sufoco, Paulo Autuori designou como substituto o meia Jadson, que a colocou na cal com todo o carinho, partiu para a cobrança e… mandou-a mansamente para as mãos de Felipe, goleiro do Flamengo. Resultado: mais um jogo sem vencer. E sabem por quê? Porque a bola não quis entrar.

O poeta Carlos Drummond de Andrade (meu favorito, a meu ver o maioral de todos os tempos) escreveu assim: "Quem sabe da malícia das coisas/Quando a matéria se aborrece?". Pois é, as "coisas" têm sua personalidade, seus caprichos, seu mistério. Ainda mais quando essa coisa é um arredio ser esférico, o objeto perfeito, segundo alguns, com todos os pontos de sua circunferência equidistantes de um centro hipotético. Pois bem, esse objeto, exatamente por sua esfericidade perfeita, revela-se indócil, difícil de ser dominado, escapadiço, fugidio, como se dotado de vontade própria. Daí a dificuldade que os pernas de pau experimentam em seu contato. E a familiaridade que poucos ostentam nesse convívio, tratando-a de igual para igual, relacionando-se amorosamente com a esfera, chamando-a de você. Respeitando-a para ser por ela respeitado. Diz-se que, quando bem tratada, ela se torna dócil, obediente como um cachorrinho que segue seu mestre. Esse domínio é coisa para poucos, para pouquíssimos, na verdade.

Assim, não vi qualquer problema de relacionamento entre a bola e Seedorf na vitória do Botafogo sobre a Portuguesa. Pelo contrário, o holandês, que estava de cabeça quente no jogo, mas nem por isso errava seus passes, acabou dando uma assistência rara para um dos gols do seu time. Não existe discussão de relação (a popular DR) entre Seedorf e a bola. Eles se entendem às mil maravilhas.

Tive a oportunidade de presenciar vários desses encontros felizes entre o craque e a bola. Pela TV ou ao vivo. Vi na telinha uma partida do Real Madrid em que um chutão improvável colocou a bola na altura da Lua. Ela desceu em direção a Zidane com a força de um meteorito, mas Zizou a matou no peito como se fosse uma pluma. Ao vivo, vi Ronaldo, na Vila Belmiro, matar também uma bola alta, mas com o pé, e já a colocando fora do alcance do zagueiro, prontinha para o arremate. Um lance lindo. E a bola não se negou a entrar.

Lembro de uma velha foto em preto e branco aqui do arquivo do Estadão, que meu amigo Antero Greco um dia me mostrou. É uma fotografia magnífica, cujo autor homenageio sem lembrar seu nome. Registro de um Palmeiras e Santos da época de ouro dos dois times, mostra uma bola branca, na grama, disputada por dois jogadores que atendiam pelos nomes de Ademir da Guia e Pelé. A bola parecia perguntar, hesitante: "Com qual dos dois eu vou ficar?". Bem, esses sabiam impor seus desejos à bola, sem serem por ela dominados. Coisa para poucos.

De modo que é bom os jogadores do Santos e do São Paulo, e também de outras equipes, entrarem em entendimento com essa senhora caprichosa, porque, como diz o técnico Claudinei, a água está subindo. E, pelo jeito que eles andam tratando a bola, vai subir mais e mais rápido.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão

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