As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A bravura do goleiro

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h18

Não sei se é um exemplo a ser seguido. Mas me deixou comovido a atitude de Marcos de sair do gol, no desespero, para tentar ajudar seu time no ataque. Bem, vocês vão me dizer, coisas assim acontecem desde que o mundo é mundo, ou seja, desde que uma bola começou a rolar e onze caras enfrentam outros onze para deleito ou desespero dos aficcionados de lado a lado. Certo. Na véspera mesmo de Palmeiras x Grêmio, Fábio Costa abandonara a meta para tentar uma cabeçada na área adversária e empatar o jogo contra o Vasco, o que acabou não acontecendo. Talvez todo goleiro tenha uma vocação inconfessada de artilheiro, sonho que poucos realizam, como Rogério Ceni.
Mas acredito que Marcos saiu do gol não para sentir a satisfação de balançar a rede adversária, mas por uma série de motivos, entre os quais não se exclui um possível sentimento de culpa pelo gol que tomou. Certo, não se pode dizer que tenha sido frango. Afinal, essas bolas levantadas na área, cruzando de lado a lado, com vários jogadores atrapalhando a visão, são um inferno para os goleiros. Mas também é claro que de um goleiro como ele se espera que não tome gols desse jeito. Acontece, mas não deveria acontecer.
Culpado de fato ou não, Marcos lançou-se ao ataque. Movido, talvez, por esse impulso tão humano que é o de se redimir de uma falta. “Errei, vou consertar meu erro”, pode ter pensado, lá no fundo da consciência, lá onde as pessoas não se confessam nem a si mesmas. Foi em busca da segunda chance, esse tema recorrente dos faroestes americanos e também da melhor literatura, como Lorde Jim, de Conrad. É um impulso vigoroso, além de humano e compreensível.
Mas, além disso, Marcos pode ter pressentido uma certa apatia no time do Palmeiras, um desespero de não conseguir realizar as jogadas de ataque em virtude da marcação muito eficiente do Grêmio. Acontece isso no futebol. Muitas vezes um time bem marcado parece apático, quando na verdade está sendo paralisado pelo adversário. É uma das artes desse jogo de bola – cortar a fluência de um oponente tecnicamente superior e levá-lo à instabilidade psicológica. Há precedentes famosos desse tipo de fenômeno – a Alemanha contra a Hungria em 1954; a Itália contra o Brasil em 1982; a França contra o Brasil em 1998 e 2006. E por aí vai. O Grêmio ganhou o meio de campo e o Palmeiras não tinha articulação para chegar ao ataque. Por isso – também – o goleiro saiu da meta e foi tentar resolver as coisas lá na frente. Para insuflar alguam alma num time que já estava sendo derrotado também no plano espiritual. Ou fato de não ter dado certo em nada deve influenciar a a nossa análise do fato. Nem sempre os resultados dizem tudo, o significado da atitude também deve ser levado em conta. Enfim, a beleza do gesto também tem seu valor. Líder dentro de campo, Marcos tem uma percepção do jogo que talvez escape à análise racional do treinador, que criticou a sua atitude. Se me permitem uma frase meio tortuosa, mas não por isso insignificante, eu diria que Luxemburgo tinha razão ao criticar, mas era Marcos quem no fundo estava certo. Naquele momento, em sua atitude camicase, ele encarnou o verdadeiro espírito do futebol, essa velha e apaixonante arte.
Sir Alan Parker
Estou em Manaus, cobrindo o Amazonas Film Festival, e tive o prazer de conhecer pessoalmente o diretor britânico Alan Parker, dono de sucessos como O Expresso da Meia-Noite e Evita. E por que falo dele numa coluna de futebol? Porque Parker é boleiro fanático e não perde um jogo do seu Arsenal. Quando o convidaram a Manaus, disse que viria, com a condição de poder assistir a Arsenal x Manchester. Contei essa história aos meus amigos da ESPN, quando participei de um programa da emissora. Qual não foi a surpresa de Parker, ao acompanhar a vitória do seu Arsenal sobre o Manchester e ouvir o locutor da emissora mencionar o seu nome durante a transmissão? Em conversa, sobre cinema e futebol, ele se disse emocionado com a lembrança do seu nome durante a transmissão esportiva. O futebol une as pessoas. É a única verdadeira linguagem universal.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.