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A conta chegou

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 22h30

É uma experiência de qualquer um de nós. Podemos esbanjar, gastar mais do que ganhamos, sacar do cheque especial e jogar a despesa nos cartões de crédito. Um dia a conta chega. Chegou para o Palmeiras. Cansados dos tropeços, os adversários finalmente venceram e encostaram no líder. A rodada foi desastrosa para o Palestra.

Mas, sabe como é, o futebol é algo tão improvável, tão rebelde a previsões, que pode-se dar um fenômeno estranho. Pressionado para valer, com gordura zero, pode ser que o Palmeiras volte a jogar bola, o que não faz já há algum tempo. Quinta-feira, contra o Goiás, acho que é o dia D. Ou se recupera, ou afunda de vez e deixa os concorrentes passarem à frente. Todos ? neste momento ? estão melhores que o Palmeiras. O São Paulo, que reviveu na vitória de 4 a 3 sobre o Santos. O Flamengo, que atravessa um momento ótimo, e passou pelo Botafogo no clássico carioca. O Inter, a promessa mais desmentida deste ano, mas que ganhou o Gre-Nal e portanto se habilita a decolar de uma vez por todas. E até mesmo o Cruzeiro, que passou pelo desinteressado Corinthians em pleno Pacaembu.

Esses resultados põem fogo num campeonato que terá chegada sensacional. Qualquer previsão será irresponsável pois não há nenhum timaço entre os concorrentes ao título. Não existe nenhum milagreiro entre os treinadores. Não há nenhum boleiro de gênio capaz de decidir tudo sozinho. Tudo irá depender de muito esforço coletivo, o que supõe aplicação tática, motivação…e boa dose de sorte, que nunca se pode dispensar. Como dizia Nelson Rodrigues, sem um pouco de sorte não conseguimos nem atravessar a rua para chupar um Chicabon.

Reta final fantástica de campeonato, portanto. O que torna ainda mais inconveniente o desejo manifesto da TV de mudar a fórmula de disputa por pontos corridos. Não é segredo que a senhora dos nossos destinos deseja a volta aos mata-matas que, em tese, dariam mais audiência. Alega que o atual sistema é “monótono” e tira o interesse do espectador. Ora, podemos nos queixar de muita coisa desse campeonato, menos de monotonia ou falta de emoção.

Aliás, entendo que o campeonato por pontos corridos não deveria ser contestado nem mesmo se algum clube disparasse, “tirando a graça” da disputa. Ora, há coisas que devem ser respeitadas, porque se trata de princípios. Se entendemos que essa é a forma de competição mais justa, teremos de respeitar o time mais bem preparado e que faz valer sua competência rodadas antes do término. Como respeitamos a consistência do São Paulo, que por três vezes seguida chegou em primeiro. É para isso que serve um campeonato como o Brasileiro: para premiar quem planeja e investe melhor. Preservar essa fórmula é convidar os clubes a se organizarem. Além disso, para os mata-matas existem a Copa do Brasil e a Libertadores da América. Já não está bom?

Haveria outras maneiras de valorizar o futebol, pelo qual a TV paga baratinho e revende com lucro. Ela poderia, ao invés de hostilizar uma fórmula de elementar justiça, investir na melhoria do produto que comercializa. Sabe, por experiência própria, que uma novela, por exemplo, depende muito da qualidade do elenco que a interpreta. Sem atores e atrizes de nome, a audiência cai. No futebol é a mesma coisa. Craque vende ingresso e pay-per-view. Talvez fosse hora de remunerar melhor o futebol para que os clubes pudessem manter os seus boleiros no País. Como não acredito em duende, sei que esse reajuste só pode sair se os clubes se unirem e o exigirem. Enquanto isso não acontece, seria legal se a TV pelo menos não atrapalhasse o pouco que existe de certo no futebol brasileiro.

(Coluna Boleiros, 27/10/09)

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