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A conta chegou

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h20

É uma experiência de qualquer um de nós. Podemos esbanjar, gastar mais do que ganhamos, sacar do cheque especial e jogar a despesa nos cartões de crédito. Um dia a conta chega. Chegou para o Palmeiras. Cansados dos tropeços, os adversários finalmente venceram e encostaram-se ao líder. A rodada foi desastrosa para o Palestra.
Mas, sabe como é, o futebol é algo tão improvável, tão desobediente a previsões, que pode-se dar um fenômeno estranho. Pressionado para valer, com gordura zero, pode ser que o Palmeiras volte a jogar futebol bola, o que não faz já há algum tempo. Quinta-feira, contra o Goiás, acho que é o dia D. Ou se recupera, ou afunda de vez e deixa os concorrentes passarem à frente. Todos – neste momento – estão melhores que o Palmeiras. O São Paulo, que reviveu na vitória de 4 a 3 sobre o Santos. O Flamengo, que vive um momento ótimo, e passou pelo Botafogo no clássico carioca. O Inter, a promessa mais desmentida deste ano, mas que ganhou o Gre-Nal e portanto se habilita a decolar de uma vez por todas. E até mesmo o Cruzeiro, que passou pelo desinteressado Corinthians, em pleno Pacaembu.
Esses resultados põem fogo num campeonato que terá chegada sensacional. Qualquer previsão será irresponsável a partir de agora, pois tudo continua em aberto e os times, se não são iguais, pelo menos se equivalem em muitos pontos. Não há nenhum timaço entre os concorrentes ao título. Não existe nenhum milagreiro entre os treinadores. Não existe nenhum boleiro de gênio capaz de decidir tudo sozinho. Tudo irá depender de muito esforço coletivo, o que supõe aplicação tática, motivação…e uma boa dose de sorte, que nunca se pode dispensar. Como dizia Nelson Rodrigues, sem um pouco de sorte não conseguimos nem atravessar a rua para chupar um Chica-Bom.
Reta final fantástica de campeonato, portanto. O que torna ainda mais inconveniente o desejo manifesto da TV de mudar a fórmula de disputa por pontos corridos. Não é segredo que a senhora dos nossos destinos deseja a volta aos mata-matas que, em tese, dão mais audiência. Alega que o atual sistema é “monótono” e tira o interesse do espectador. Ora, podemos nos queixar de muita coisa desse campeonato, menos de falta de emoção. Temos cinco, talvez seis candidatos ao título. Em que outro campeonato do mundo futebolisticamente desenvolvido isso acontece? Não precisa procurar, porque isso não acontece.
Aliás, entendo que o campeonato por pontos corridos não deveria ser contestado nem mesmo se algum clube disparar e “tirar a graça” da disputa. Ora, há coisas que devem ser enfrentadas. Se essa é a forma de competição mais justa, temos de respeitar o time mais bem preparado e que faz valer sua competência rodadas antes do término. Como respeitamos a organização do São Paulo, que por três vezes seguida chegou em primeiro. É para isso que serve um campeonato como o Brasileiro: para premiar o melhor, o que planeja e investe mais. Preservar essa fórmula é convidar os clubes a que se organizem melhor. Além disso, para os mata-matas existem a Copa do Brasil e a Libertadores da América. Já não está bom assim?
Haveria outras maneiras de valorizar o produto futebol, do qual a TV é revendedora e paga baratinho por isso. Ela poderia, ao invés de boicotar uma fórmula de elementar justiça, investir na melhoria desse produto. Sabe, por experiência própria, que uma novela, por exemplo, depende da qualidade do texto e também do elenco que a interpreta. Sem atores e atrizes de nome, a audiência cai. No futebol é a mesma coisa. Talvez fosse hora de remunerar melhor o futebol para que ele pudesse manter os seus ídolos no País. Como não acredito em duende, sei que esse reajuste só pode sair se os clubes se unirem e o exigirem. Enquanto isso não acontece, seria legal que a TV pelo menos não atrapalhasse o pouco que há de certo no futebol brasileiro.

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