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A Copa e nós

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h20

Achei que, de certa forma, a 4ª rodada do Campeonato Brasileiro ficou meio em segundo plano por causa do anúncio das 12 cidades que irão abrigar a Copa do Mundo em 2014. Dizem os especialistas que não houve surpresa. Havia uma ou outra dúvida, como entre Campo Grande e Cuiabá, mas, no todo, não houve grandes novidades. Elegeram-se as cidades esperadas. E agora começa o grande debate. Aliás, começa, não, porque ele já foi iniciado desde antes de o Brasil ser anunciado como sede da Copa. Desde então, não se deixou de se discutir, das redações aos botequins, a capacidade brasileira de organizar um torneio desse porte.
Francamente, conhecendo meu país, esse tipo de discussão não me surpreende. Aliás, era bem esperada. Temos uma tendência ancestral de duvidar de nós mesmos. Lembro que, na época da guerra fria, lá pelos idos dos anos 60, quando se falava no perigo de uma revolução socialista no Brasil, sempre algum gaiato aparecia para dizer: “Comunismo no Brasil? Não dá certo. Em seis meses estaria completamente desmoralizado”. Pobres da CIA, dos militares inquietos com a ameaça comunista e dos setores civis que apoiaram o golpe de 64. Não precisariam se dar ao trabalho de conspirar. A proverbial aversão brasileira a qualquer tipo de organização teria liquidado em dois tempos com qualquer veleidade revolucionária.
Enfim, é mais ou menos o que se diz da Copa. Se não conseguimos organizar a contento nem o nosso modesto calendário futebolístico doméstico, que condições teremos de cumprir à risca todas as exigências da Fifa? Nenhuma, segundo os críticos. Além do mais, se somarmos a essa propensão anárquica uma atração, ou pelo menos uma grande tolerância para com a corrupção, o que nos resta? Com tantos interesses em jogo, com tanta grana a ser movimentada, quem nos garante que não haverá desvio de verba, em especial de verba público, dinheiro, em tese, que pertence a todos nós? Além do mais, seria preciso lembrar que o Estatuto do Torcedor não se cumpre, que os estádios não apresentam qualquer condição de uso civilizado, que há problemas de hospedagem, transporte, saúde, etc, etc e tal.
“Tudo somado, deveria jogar-te de vez às águas”, como sugere um poema de Drummond, de título Consolo na Praia, se não me engano. Como não vamos seguir o conselho do poeta, vamos acabar fazendo uma ótima Copa do Mundo em 2014, desconfio.
A maioria de nós não estava aqui para saber por experiência pessoal como era o clima da outra Copa que organizamos, a de 1950. Mas também não estávamos presentes no incêndio de Roma e, no entanto, sabemos que aconteceu, como dizia João Saldanha quando lhe perguntavam se havia visto determinada coisa em pessoa. Existem livros, relatos, recortes de jornal, tudo para substituir a experiência direta. E assim podemos deduzir que o clima predominante na época foi de ufanismo. Construiu-se o maior estádio do mundo e garantimos que a Europa iria curvar-se ao Brasil, a começar pelo seu futebol sem igual. Deu no que deu. O Brasil perdeu a Copa, entre outros motivos, porque a considerava ganha por antecipação. Ficou o trauma da final vencida pelo Uruguai. Mas o Maracanã também ficou. E lá estará, em 2014, para sediar uma nova partida final de Copa do Mundo.
De qualquer forma, entre o ufanismo acrítico e o pessimismo sistemático, havemos de encontrar um meio termo.

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