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A culpa é da bola, do juiz, da grama etc

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h22

Nesse clima de tensão pré-Copa, alguém de pagar o pato e a bola Jabulani foi escolhida como a Geni da vez. Em caso de dúvida, jogue pedra nela, para não dizer outra coisa. Júlio César, Luiz Fabiano e até Júlio Baptista andaram falando mal da bola. Desvia, faz curvas inesperadas, é leve, parece comprada em supermercado, e vai por aí. A Jabulani foi responsável até por uma indelicadeza de Felipe Melo que, como todos sabem, é moço fino e sutil. E não é que ele deu de bico na boa educação ao dizer que a bola tradicional, a boa, é que nem mulher de malandro: apanha sem reclamar? Já a Jabulani, segundo Felipe, seria como patricinha. “Não quer ser chutada.”
No interior se diz que a viola a é desculpa do mau violeiro. Será que não é esse o caso criado em torno da Jabulani, palavra que, em zulu, quer dizer “celebrar”? Pode ser. Quando a gente lembra da infância, ou quando vai ao Museu do Futebol e vê aquelas bolas antigas, de capotão, e as chuteiras, que mais parecem botinas militares, não consegue evitar a impressão de que hoje em dia a frescura entre jogadores é grande demais. Boleiros do passado lembram que usavam camisetas de algodão, que pesavam toneladas ao ficar enxarcadas de suor. As bolas, em tarde de chuva, se tornavam verdadeiras balas de canhão, suplício das barreiras e dos goleiros. Pesavam como chumbo, assim como as velhas chancas de couro de boi. “Hoje as chuteiras são levinhas, parecem sapatilhas de dança”, elogiou certa vez o Rei Pelé, que alguma coisa deve entender do assunto.
No fundo, tudo parece falta do que fazer. Nos muitos momentos de tédio da concentração procura-se assunto para matar o tempo e busca-se chifre em cabeça de cavalo. Como já disse o nosso amigo Antero Greco, quando a bola de fato começar a rolar, todo esse papo furado será esquecido e iremos nos concentrar no que realmente importa, que são os jogos. Neles, a bola, propriamente dita, irá se portar direitinho, desde que bem tratada. Mesmo que seja a pobre e malfalada Jabulani.
Mais desculpas
Para alguns santistas não foi a bola e sim o juiz o culpado pela derrota para o Corinthians. Há motivo para reclamação no gol mal anulado de Marquinhos e talvez Edu Dracena tenha sido deslocado no lance do segundo gol. Mas são motivos suficientes para explicar uma derrota por 4 a 2? Claro que não. É preciso lembrar que, no segundo tempo, o Corinthians jogou sua melhor partida até agora. Fechou espaços, marcou as estrelas do adversário e aplicou contragolpes certeiros. Foi eficiente. Reclamar de quê? A vitória do Corinthians foi límpida. Inquestionável.
O que não quer dizer que tenha dominado o jogo do começo ao fim. Nada disso. O Corinthians fez um gol logo de cara, mas depois o Santos conseguiu acuar o adversário em seu campo até o final do primeiro tempo. Forçou e, sem ser brilhante, construiu jogadas até empatar. Mas, ao fazê-lo, mostrou a sua já notória instabilidade e tomou um gol logo em seguida. Ao longo de praticamente todo o jogo, o Santos, por mérito do Corinthians, mas também por deficiência do seu sistema defensivo, viu-se obrigado a correr atrás do placar adverso. Não há time que aguente isso. Não todo o tempo. Ao tomar esse segundo gol, quando a reação parecia palpável, o Santos sentiu o golpe. Caiu, psicologicamente.
A partida foi importante para os dois times. Para o Corinthians porque serviu para exorcizar de vez a desclassificação da Libertadores e se reafirmar como time consistente, capaz de ganhar o Campeonato Brasileiro para não passar o centenário em branco. Mostrou para si mesmo que Ronaldo pode até ser um diferencial em alguns jogos mas o Corinthians não precisa dele para jogar com confiança e eficiência. Tem time para isso e a distância que já abriu no campeonato é a confirmação numérica desse fato.
Para o Santos, talvez seja a ocasião para se repensar, pois ainda é tempo. O inegável brilho ofensivo não pode esconder as muitas deficências do time, em especial em seu sistema defensivo. Sem algum equilíbrio não se vai longe.

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