As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A culpa é da bola, do juiz, da grama…

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 23h05

Nesse clima de tensão pré-Copa, alguém tem de pagar o pato e a bola Jabulani foi escolhida como a Geni da vez. Em caso de dúvida, jogue pedra nela, para não dizer outra coisa. Júlio César, Luiz Fabiano e até Júlio Baptista andaram falando mal da bola. Desvia, faz curvas inesperadas, é leve, parece comprada em supermercado, e vai por aí. A Jabulani foi responsável até por uma indelicadeza de Felipe Melo que, como todos sabem, é moço fino e sutil. E não é que ele deu de bico na boa educação ao dizer que a bola tradicional, a boa, é que nem mulher de malandro: apanha sem reclamar? Já a Jabulani, segundo Felipe, seria como patricinha. “Não quer ser chutada.” É mole?

No interior se diz que a viola é a desculpa do mau violeiro. Será que não é esse o caso criado em torno da Jabulani, palavra que, em zulu, quer dizer “celebrar”? Pode ser. Quando a gente lembra da infância, ou quando vai ao Museu do Futebol e vê aquelas bolas antigas, de capotão, e as chuteiras, que mais parecem botinas militares, não consegue evitar a impressão de que hoje em dia a frescura entre jogadores é generalizada. Boleiros do passado lembram que usavam camisas de algodão, que pesavam toneladas ao ficar encharcadas de suor. As bolas, em tarde de chuva, viravam balas de canhão, suplício das barreiras e dos goleiros. Pesavam como chumbo, assim como as velhas chancas de couro de boi. “Hoje as chuteiras são levinhas, parecem sapatilhas de dança”, elogiou certa vez o Rei Pelé, que alguma coisa deve entender do assunto.

No fundo, tudo parece falta do que fazer. Nos muitos momentos de tédio da concentração procura-se assunto para matar o tempo e busca-se chifre em cabeça de cavalo. Como já disse o nosso amigo Antero Greco, quando a bola de fato começar a rolar, todo esse papo furado será esquecido e iremos nos concentrar no que de fato importa, que são os jogos. Neles, a bola, propriamente dita, irá se portar direitinho, desde que bem tratada. Mesmo que seja a pobre e malfalada Jabulani.

Mais desculpas

Para alguns santistas não foi a bola e sim o juiz o culpado pela derrota para o Corinthians. Há motivo para reclamação no gol mal anulado de Marquinhos e talvez Edu Dracena tenha sido deslocado no lance do segundo gol. Mas são razões suficientes para explicar o 4 a 2? Não. É preciso lembrar que, no segundo tempo, o Corinthians jogou muito bem. Fechou espaços, marcou as estrelas do adversário e aplicou contragolpes certeiros. Foi eficiente. Reclamar de quê? A vitória do Corinthians foi límpida.

O que não quer dizer que tenha dominado o jogo do começo ao fim. Nada disso. O Corinthians fez um gol logo de cara, mas depois o Santos conseguiu acuá-lo em seu campo até o final do primeiro tempo. Forçou e, sem ser brilhante, construiu jogadas até empatar. Mas, ao fazê-lo, mostrou a sua já notória instabilidade e tomou um gol logo em seguida. Ao longo de praticamente todo o jogo, o Santos, por mérito do Corinthians, mas também por deficiência do seu sistema defensivo, viu-se obrigado a correr atrás do placar adverso. Não há time que aguente isso. Não todo o tempo. Ao tomar esse segundo gol, quando a reação parecia palpável, o Santos sentiu o golpe. Desmoronou, psicologicamente.

A partida foi importante para os dois times. Para o Corinthians, porque serviu para exorcizar de vez a desclassificação da Libertadores e para se reafirmar como time consistente, capaz de ganhar o Campeonato Brasileiro para não passar o centenário em branco. Para o Santos, talvez seja a ocasião para se repensar, pois ainda é tempo. O inegável brilho do setor ofensivo não pode esconder as muitas deficiências, em especial em seu sistema defensivo. Sem algum equilíbrio não se vai muito longe. Um pouco de realismo garante a fantasia.

(Coluna Boleiros, 1/6/10)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: