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A culpa é do DNA

Luiz Zanin Oricchio

22 de dezembro de 2011 | 13h22

O teste do DNA tornou inócua a negação da paternidade. Se o cidadão pecou e é pai da criança, o DNA acusa, o que não deixa de ser lembrete útil em terça-feira de carnaval, sobretudo aos boleiros que trocaram os gramados pelos camarotes da Sapucaí e as tentações da carne, sabidamente fraca. Agora o DNA, além de pais recalcitrantes, derruba também técnicos de futebol, como aconteceu com Adilson Batista. Pode ser apenas desculpa, mas foi o que a diretoria santista alegou: Adilson caiu por não compreender o DNA ofensivo do clube.
Naturalmente os diretores referiam-se não apenas a esse Santos atual, de carne e osso, e de fato vocacionado para o ataque, mas a um Santos mais abstrato e atemporal, por assim dizer. Um Santos de tempos imemoriais, da era Pelé, ou da época de Feitiço, se quiserem recuar mais ainda no calendário.
Seguindo essa linha de raciocínio, os times teriam uma espécie de alma própria e intransferível; ou, para voltar à metáfora biológica, um material de construção primordial e único, que os acompanharia através dos anos, a vida toda, na verdade. Tudo o que contrarie e se oponha a essa estrutura básica, a esse núcleo duro do clube, seria fadado ao fracasso. Representaria uma violência contra a personalidade mais íntima dessas agremiações, seria algo antinatural, para tudo dizer.
Ora, ao contrário dos bebês, que nascem com seu código genético determinado, o dos clubes vai sendo forjado ao longo da sua história. Crianças vêm ao mundo com olhos azuis ou negros, cabelos lisos ou encaracolados. Na ata de fundação de um clube não aparece escrito se ele deverá jogar em 4-3-3 ou 3-5-2. Se será ofensivo ou retranqueiro. Se prezará a técnica ou a determinação. Isso virá com o tempo.
Provavelmente, os mandatários santistas, que demitiram Adilson por desrespeito ao DNA do Peixe, se referiam a uma época áurea do clube, a conhecida “era Pelé”. Longínqua, mas suficientemente próxima para ter seus atores e testemunhas ainda vivos. Durante muitos anos, o Santos jogou o melhor futebol do mundo. Goleava e encantava. Tanto assim que faturava boa parte de sua renda, com a qual sustentava o elenco, nas excursões ao exterior. Todos queriam ver Pelé & Cia. Pagavam muito pelo privilégio.
A era Pelé, como todas as eras, acabou. Dela ficaram títulos, o orgulho, a lembrança. A memória. Assim como ficaram no coração dos palmeirenses os tempos da Academia, no dos flamenguistas a era Zico, no dos botafoguenses o time de Garrincha, e assim por diante.
Isso que se chama agora de “DNA do clube” em geral nada mais é do que memória sedimentada de uma época de futebol de alta qualidade, traduzível em títulos, gols inesquecíveis, jornadas épicas. Tudo isso contabilizado no patrimônio imaterial a que chamamos tradição e que fornece aos clubes a sua identidade maior. Aquela referência que não nos cansamos de evocar porque nos presenteia com um modelo, real ou ilusório, do que vem a ser a suprema felicidade clubística. Quanto mais o Santos se aproximar do inatingível paradigma da era Pelé, mais feliz será sua torcida. A cada clube, seu mito fundador.
Isso não quer dizer que seja possível reproduzi-lo, Ao contrário. Trata-se apenas de uma referência, uma espécie de ideal de ego, como dizem os psicanalistas. Um jeito muito particular de expressar como gostaríamos de ser e não necessariamente como somos. Para se aproximar desse ideal, os clubes precisam buscar no presente o que tiveram no passado: jogadores de hoje que, como os de ontem, façam a diferença.
De nada adianta ter um belo ideal na cabeça se não conseguimos traduzi-lo em realidade dentro de campo. Palmeiras, Santos, São Paulo, Corinthians, Botafogo, todos sofreram com times horrorosos e nem por isso deixaram de reverenciar os seus modelos do passado. O problema é que, para estar à altura dos seus magníficos DNAs, os clubes precisam não apenas de jogadores e técnicos acima da média, mas também de dirigentes capazes de honrar tradições e não apenas evocá-las.

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