As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A dança dos professores *

Luiz Zanin Oricchio

09 Setembro 2014 | 08h04

Oswaldo de Oliveira provavelmente deixou o Santos porque colocou Leandro Damião no banco de reservas. Ricardo Gareca foi demitido do Palmeiras porque não conseguiu fazer de um elenco frágil um time mediano. Em seu lugar, assumiu Dorival Junior que, anos atrás, recebeu bilhete azul no Santos por brigar com a estrela da companhia, Neymar.

Assim é a vida dos professores, como os boleiros os chamam. Gangorra, montanha-russa, um sobe e desce mais frenético que cotidiano de ascensorista. Ora, dirá você, o mundo é assim mesmo e vivemos todos pressionados por resultados. Por que seria diferente no futebol?

Verdade. Ou meia-verdade, que é uma das formas possíveis da mentira.

Não deveria ser assim, mas o mundo tornou-se imediatista. Tudo é para ontem. Os resultados devem surgir de um dia para outro, como por intervenção divina. Além fazerem o time jogar, os professores precisam manter a disciplina e a hierarquia, mesmo tendo de enfrentar estrelas de luminosidade variável, mas dotadas de egos galácticos. Os professores fazem o meio de campo entre a diretoria e os jogadores e, quando essa ligação produz faíscas, são eles que se chamuscam. Afinal, por princípio, dirigentes não demitem a si mesmos, pois ninguém ateia fogo às vestes.

Por outro lado, quando as coisas não vão bem, é sempre mais fácil mandar embora um único funcionário que várias peças do “plantel”.

Apesar das multas contratuais, pedir a cabeça de um treinador ainda sai mais barato. Considera-se este o preço a pagar para dar satisfações à torcida, que representa a opinião pública no microcosmo do futebol.

Acho essa troca desenfreada de treinadores totalmente irrelevante para os clubes e prejudicial para o futebol em seu conjunto. Isso não quer dizer que técnicos devessem ter cargos vitalícios ou estáveis. Mas deveriam, ao menos, dispor de tempo para apresentar seu trabalho, e condições para realizá-lo.

Uma demissão prematura, se bem analisada, representa nada mais nada menos que a confissão de incompetência de quem contratou o funcionário. Se depois de dois meses descobre-se que o cidadão não prestava para o cargo, quem o chamou deveria, no mínimo, ser demitido junto.

Para ficar num caso concreto, por que só agora foram descobrir que Oswaldo não servia para o Santos? Porque perdeu o Campeonato Paulista?

Por que então não o demitiram naquela hora, já que tudo tem de dar certo de um dia para o outro? Não, ele foi ficando. O time de fato é instável, mas como construir uma equipe consistente quando faltam jogadores? Apenas quando começou a substituir Leandro Damião é que a situação de Oswaldo ficou insustentável? Não sei. Mas é uma hipótese.

Acontece que Damião é aposta pesada, de R$ 42 milhões. Investimento que dará retorno no Dia de São Nunca, pelo que vem jogando o centroavante. Por que não se responsabiliza quem teve essa magnífica ideia? Talvez seja o pior negócio da história do Santos Futebol Clube desde a compra do Parque Balneário. Mas é o treinador quem vai para a rua.

Atrás de praticamente cada caso de demissão prematura de técnico encontraríamos uma história semelhante. Malfeitos dos dirigentes, incompetência do elenco, disputas internas entre os cartolas, tudo a exigir um bode expiatório para ser apresentado à torcida. E a cabeça do treinador rola, como nos tempos da Revolução Francesa. Até agora, salvo engano, houve 18 (!) trocas de comando no Campeonato Brasileiro, quase uma por rodada.

Faço essa crítica nem tanto por solidariedade aos “professores”. Eles, afinal, ganham muito bem, alguns estão milionários e não ficam desempregados muito tempo. A fila anda e o demitido de hoje será o comandante de outro clube amanhã. Isso se depois de algum período sabático não voltar para a própria entidade que o demitiu, ungido a salvador da pátria. Aconteceu na própria seleção com o retorno de Dunga. Não, os professores se viram, e muito bem. O que me preocupa mesmo é a mentalidade indigente que essa prática denuncia. A mesmice continua a comandar o futebol no Brasil, mesmo depois de ele ter batido no fundo do poço.

 * Minha coluna, publicada na versão impressa da seção de Esportes do Estadão