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A euforia e o luto

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h42

27/5/2008

São Paulo e Santos curtem a ressaca da desclassificação da Libertadores e o
Palmeiras ainda se refaz da conquista do título. Essas têm sido as
explicações para o pífio começo dos “grandes” paulistas na Série A do
Brasileiro. O Palmeiras está em 10º lugar, o Santos em 14º, o São Paulo em
17º. É só o começo. Mas é um mau começo.
Quem assistiu ao jogo entre Palmeiras e Portuguesa, viu um Palestra bastante
relaxado. O técnico enxergou a mesma coisa e ficou muito irritado. Está
faltando foco, concentração. Como diz Muricy, a bola pune. Pune sobretudo a
soberba, esse que é um dos sete pecados capitais e talvez seja o primeiro em
se tratando desse traiçoeiro jogo da bola. Algum anjo mau deve ter assoprado
nos ouvidos dos boleiros palmeirenses que eles são astros e melhores que os
adversários. Estão enganados. Há bons jogadores no Palestra e o time é,
potencialmente, um dos melhores do País. Mas, como se diz, salto agulha
atrapalha um pouco os movimentos.
Se o Palmeiras não saiu ainda do nirvana da conquista do Paulistão, Santos e
São Paulo curtem maus momentos por conta da ressaca oposta – a eliminação da
Libertadores, o torneio mais cobiçado pelos brasileiros.
Nesse ponto, abro parêntese. Estou de pleno acordo quanto à importância do
antigo torneio sul-americano (com a inclusão do México, por uma aberração
geográfica, não sei mais como qualificá-lo). Acho a Libertadores o torneio
mais lindo do mundo. Até pelo nome. Dito assim, sem a intrusão da marca do
patrocinador, parece até música: “Libertadores da América”, nome que evoca
heróis de outrora, históricas sagas antiimperialistas, um perfume insurgente
tão adequado para este 2008, quando comemoramos 40 anos das lutas
libertárias de maio de 1968. Enfim, por outros motivos mais práticos, entre
eles por ser a disputa da maior escola de futebol do mundo, a sul-americana,
a Libertadores deve ser considerada o máximo. Mesmo que a tal escola
sul-americana esteja depauperada, pois seus melhores astros já não jogam
aqui, a Libertadores conserva a antiga mística.
Enfim, a Libertadores pode ser o máximo e mais alguma coisa, mas não acho
que se deve transformar em obsessão dos clubes brasileiros. Andamos tão
fascinados por ela que todas as outras competições passaram a contar somente
quando referenciadas à Libertadores. A Copa do Brasil, em si, parece que não
vale nada. Mas, como se diz, “é o caminho mais curto para a Libertadores”. O
próprio Campeonato Brasileiro, cujo título deveria ser o mais cobiçado, é
visto como aquele que garante quatro vagas para a Libertadores. Tudo passou
a ser feito em função da Libertadores, inclusive a formatação dos elencos. O
São Paulo tem montado times fisicamente fortes porque existe o entendimento
de que essa é uma exigência para disputar a Libertadores.
E, nesse ponto, fecho o parêntese. Uma coisa é valorizar uma competição,
outra transformá-la em obsessão. Quem se obceca por algum objeto, fica
paralisado ao perdê-lo. Mas não é assim. A vida continua. E é bom que Santos
e São Paulo curem logo suas feridas, mesmo porque têm encontro marcado no
fim de semana. É a chance de se reabilitar jogando o adversário na crise.
Quer melhor oportunidade?
E há outra coisa: se desejavam tanto assim Libertadores, por que Santos e
São Paulo não se prepararam melhor para o torneio? Em vez de começarem a
fritar os técnicos, seria talvez melhor as diretorias dos dois clubes
assumirem a responsabilidade pelos erros no planejamento. Sempre é tempo de
corrigi-los. Nem que seja para a próxima Libertadores, se é que não
conseguem tirá-la da cabeça.

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