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A falsa democracia racial *

Luiz Zanin Oricchio

11 de março de 2014 | 10h48

Acordamos assustados com a presença do racismo na América Latina e no Brasil. Primeiro, foi o caso de Tinga no Peru. Agora, os do juiz Márcio Chagas da Silva, no Rio Grande do Sul, e do Arouca, em Mogi Mirim. Fui domingo à Vila Belmiro certo de que veria um desagravo em regra a Arouca. Nada. Umas palmas protocolares da torcida, uma faixa no intervalo do jogo dizendo que o racismo é inaceitável, e pronto. Bola prá frente. Parece que existe uma consciência coletiva por aqui de que esses atos não são coisa muito séria porque fundamos uma democracia racial, imune a preconceitos e coisa e tal. Essa crença benévola tem de ser relativizada e muito. Parece mais um autoengano que outra coisa qualquer.

Houve um caso semelhante, faz alguns anos, em 2005, quando o argentino Desábato, do Quilmes, dirigiu insultos a Grafite, que na época jogava no São Paulo. Houve escândalo, o caso foi parar na delegacia de polícia, com o argentino saindo preso do Morumbi. Não faltou quem, na época, dissesse que o delegado queria aparecer e que não era para tanto. Houve até jogadores do passado afirmando que essas coisas, no campo, eram deploráveis, mas normais, e deveriam ser resolvidas no terreno de jogo, sem necessidade de providências policiais e judiciais. Se não me falha a memória até Pelé se manifestou nesse sentido, com a propriedade de quem havia sentido na pele o mesmo que Grafite.

Entendo que os jogadores do passado pensassem dessa forma. Afinal, um certo racismo, latente e muito bem disfarçado, faz parte da nossa formação morena. Não tínhamos apartheid legal, mas um sentimento de desnível de raças, oculto e despistado, e que podia comportar até certa tolerância, desde que não se passasse dos limites. Um branco bem pensante poderia considerar admirável um atleta negro, desde que este não tivesse a má ideia de namorar sua filha. Aí, não. Cada qual em seu lugar. E assim vivemos candidamente, se o termo cabe, na autoilusão benévola de que morávamos em um paraíso racial, bem diferente da África do Sul ou mesmo dos Estados Unidos. Perguntem a Paulo César Lima, o PC Caju, o quanto sofreu de discriminações por seu comportamento ousado e altivo, vestindo roupas chamativas e namorando as louras da Zona Sul. Era uma exceção, em sua época.

Com o tempo, e muita luta, as coisas foram mudando. O apartheid sul-africano caiu, Nelson Mandela saiu da prisão, chegou ao poder e tornou-se objeto de admiração mundial. Pela primeira vez em sua história, os Estados Unidos elegeram um presidente negro que, para alegria de uns e decepção de outros, age da mesma forma que seus antecessores brancos. O mundo muda. Evolui em algumas coisas, em outras nem tanto. Hoje em dia é difícil encontrar quem se declare explicitamente racista. Isso não quer dizer que o racismo em si tenha desaparecido. Apenas que se tornou mais enrustido.

Alguns insultos, tidos como “normais” ou “coisa de jogo” nos tempos de Pelé (anos 1950-1970) agora não mais o são. É possível que fossem assimilados naquele tempo, ou revidados às escondidas, com uma cotovelada, uma entrada mais forte, dribles ou gols geniais. Hoje, com a mudança produzida no mundo, tornaram-se intoleráveis. Doem mais, exatamente porque seu caráter aberrante tornou-se mais evidente. Fiquei muito comovido com uma entrevista com a mãe de Arouca na qual ela dizia ao filho que sempre seria assim. Era a voz conformada de uma geração anterior. Arouca por certo não pensa dessa maneira. Não pode pensar e não pode aceitar. Cabe também a nós, da crônica esportiva, que muitas vezes gastamos espaço e tempo preciosos em frivolidades, martelar em nossas mal traçadas linhas o quanto é absurdo diminuir um homem pela cor da sua pele. É crime. E os criminosos estão entre nós.

Férias

A coluna volta dia 8 de abril para o desfecho do Campeonato Paulista. E entra na reta final para Copa do Mundo. Sim, vai ter Copa. Até lá.

* Coluna publicada na seção de Esportes do Estadão

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