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A fidelidade do goleiro

Luiz Zanin Oricchio

29 de dezembro de 2011 | 21h11

Não sei o que vocês pensam, mas o fato que me chamou mais atenção na última rodada do Brasileiro não foi uma partida, um gol, ou algum lance em particular, mas uma comemoração – os 400 jogos de Marcos com a camisa do Palmeiras. Foi nele que pensei naquele momento de incerteza das segundas-feiras, quando o colunista dá uma passada pelos assuntos possíveis e decide sobre o que vai escrever para terça. Nenhum daqueles jogos a que assisti me comoveu em particular – nem a previsível derrota do Santos para o Goiás no sábado, nem o empate chocho do São Paulo com o Sport, e nem mesmo a boa vitória do Palmeiras sobre o Vasco – o jogo no qual Marcos atuou.

O que me emocionou foi o goleiro e sua marca. E por que devemos nos surpreender quando um jogador comemora sua 400ª partida no mesmo clube? Ora, a resposta é óbvia: pela raridade. Essa estabilidade que quase não existe mais, como sabemos todos e não cansamos de repetir. Os times se formam e se desfazem, ninguém consegue decorar a escalação, os torcedores não se identificam com os jogadores, etc. Então somos obrigados a olhar com carinho para as exceções – Marcos no Palmeiras, Rogério Ceni no São Paulo, Fábio Costa no Santos, quantos mais? Não me ocorre.

Todos goleiros. Não vemos jogadores de outras posições tão estáveis quanto eles. Por que será? Porque não encontram mercado lá fora, como os outros? Nada mais enganoso. Há muitos goleiros brazucas atuando no exterior, a começar pelo titular da seleção, Júlio César, além de Doni, Renan, Diego Alves e tantos outros. Acabou-se o tempo em que o Brasil só exportava atacantes ou meio-campistas. Agora vende jogadores de qualquer posição e para qualquer lugar. Goleiros inclusive.

E, no entanto, Marcão foi ficando por aqui. Projeção internacional não lhe faltou, em especial depois de ter fechado o gol na Copa de 2002. Todos sabem que Marcos foi um dos principais responsáveis pela conquista da Copa do Mundo na Ásia. Será que o Brasil teria colocado a quinta estrela no peito se ele não tivesse defendido uma ou duas bolas dificílimas naquela final contra a Alemanha? Ninguém sabe ao certo. Mas podemos apostar que aquelas defesas foram tão importantes para a conquista do penta como os gols de Ronaldo.

E por aqui ele ficou, mesmo depois dessa Copa excepcional e dessa partida perfeita. Soube que foi tentado pelas libras de um clube inglês, o Arsenal, mas por fim permaneceu no seu Palmeiras. Caiu junto com o clube quando este foi para a Segunda Divisão. Subiu junto com ele. E lá ficou, pelo Palestra Itália, atravessando aqueles tempos terríveis do “bom e barato”, dos “times nota 5″, e tudo o mais. Enfrentou contusões difíceis de curar e ficou onde estava. Continua lá, e agora navega, junto com o seu Palmeiras, neste bom vento que pode conduzir ao título brasileiro. Ficou, na saúde e na doença, como se dizia dos casamentos de antigamente.

O que é, afinal, um goleiro? Um jogador como os outros? Não. É aquele sobre o qual recai a responsabilidade de manter inexpugnável a última cidadela do clube. Dessa forma, times míticos sempre começam por goleiros acima de qualquer dúvida – Gilmar, Castilho, Yashin. É o cargo de confiança máximo. E por isso sobre ele precisamos depositar toda a nossa fé. Deve ser alguém especial, não apenas um ótimo jogador. Precisa ser estável, constante, confiável. Como Marcão, que além de tudo é excelente pessoa.

(Coluna Boleiros, 23/9/08)

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