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A força da camisa

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 14h35

20/3/2007

Domingo, no campo do Ituano, havia uma faixa com os dizeres: “Quem mora no
interior, torce por time do interior’’. No entanto, a torcida do Santos
parecia maior do que a do dono da casa. Como estou passando férias no
interior do Estado tenho conversado com os moradores. E encontro entre eles
torcedores do Corinthians, do São Paulo, do Palmeiras e do Santos. Cabreúva,
a cidade mais próxima de onde estou, é reduto corintiano, me garantem. Será
verdade? Afinal, estamos próximos de Itu e Jundiaí e, desse modo, seria
“normal’’ que as pessoas torcessem pelo Ituano ou pelo Paulista.
O que deve acontecer, com freqüência, é o “duplo vínculo’’que a faixa no
campo do Ituano condena. O sujeito torce pelo time da sua cidade e, também,
por um dos grandes. Com o time da casa ele pode alimentar seu espírito
regional, que faz parte da nossa condição a despeito de todo esse papo
furado contemporâneo (somos locais e globais, me parece). Torcendo por um
dos grandes, aspira ser campeão, glória que não sonha para o time da sua
cidade. Será que é assim mesmo? Não sei.
O que sei é que este Campeonato Paulista estava se encaminhando para um
desfecho surpreendente, deixando de fora dois dos postulantes “naturais’’ ao
título, Palmeiras e Corinthians. E já se especulava quais equipes do
interior formariam o quarteto das semifinais que indica o campeão, ao lado
dos favoritos São Paulo e Santos. Poderia ser o São Caetano, mas também
Noroeste, Paulista ou Bragantino, que continuam na briga.
Acontece que, contra as expectativas, Corinthians e Palmeiras ressuscitaram.
O Palmeiras já entrou para o G-4. O Corinthians chegou perto da porta com a
vitória de ontem sobre o Noroeste. Vai lutar por vaga nesses jogos
restantes. Não me surpreenderei se conseguir: a força do Timão não pode ser
subestimada.
O jogo de domingo no Pacaembu foi mais uma prova disso. O Corinthians jogou
bem? Não. Nem o mais fanático gavião voaria tão alto. Aliás, o Corinthians
não joga bem. Joga feio, com pouca técnica e padrão tático oscilante. E, no
entanto, venceu um time muito mais bem montado, como é o caso do Noroeste.
Força da camisa? Sem dúvida. E, se conseguir mesmo chegar entre os quatro,
quem terá coragem de afirmar que será azarão diante dos hoje muito melhores
Santos e São Paulo? Eu não diria, porque entendo que superioridade técnica é
apenas um entre outros fatores que decidem jogos, em especial os decisivos.
A mesmíssima coisa pode ser dita do Palmeiras, com uma diferença: vendo o
Verdão atuar, nota-se que Caio Júnior já está conseguindo impor um padrão ao
time, com Martinez, Valdivia e Edmundo em grande fase. Se conseguir mesmo
ficar entre os quatro, quem vai dizer que o Palestra não será um dos fortes
candidatos ao título?
O fato é que, na reta final, Palmeiras e Corinthians parecem se agigantar
enquanto concorrentes mais bem montados, mas de menos nome, perdem terreno.
Onde os dois grandes buscam o fôlego que já não se esperava deles? Na
chamada “força da camisa’’, aquele patrimônio imaterial expresso pela
torcida fervorosa, títulos acumulados, grandes craques do passado, a
tradição, enfim. Por entorpecidos que estejam pelo culto ao deus mercado, os
jogadores, alguns pelo menos, acabam sentindo e absorvendo essa força e
conseguem dar aquele algo a mais em campo e fazer a diferença.
Quem achar que a camisa não joga, ignora do que é feito o futebol. Mas não
convém que cartolas e atletas contem demais com isso, pois camisa também se
honra e se alimenta.

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