As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

A fragilidade dos fortes

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2011 | 21h57

19/8/2008

De vez em quando me ponho a pensar por que razão o esporte nos apaixona
tanto. Claro, não há uma resposta pronta, pois o assunto é mais do que
vasto. Infinito. E cada um terá suas hipóteses, mesmo porque não existe um
motivo único para gostarmos da prática esportiva. Podemos dizer que é a
beleza dos movimentos. Ou a adrenalina da competição. Ou o fato de que eles,
os atletas, de alguma forma nos representam quando vestem a camisa do nosso
clube ou as cores do nosso país. Há de tudo isso um pouco.
E há também a admiração, às vezes inconsciente, que sentimos por essas
pessoas tão bem dotadas, que conseguem proezas que mal sonhamos realizar com
essa nossa nossa massa física tão desajeitada e imperfeita em comparação com
a deles. De certa forma, os atletas representam um ideal estético, o que
remonta à antiga Grécia. E por isso se prestam tão bem à publicidade nessa
nossa sociedade mercantilizada e escrava da imagem. Não sonhamos nos igualar
a eles, mas podemos consumir os produtos que recomendam. Como se o fato de
beber determinado iogurte, ou vestir tal marca de equipamento esportivo nos
transformasse um pouco em semi-deuses.
Acho que muito do encanto da Olimpíada está nisso. Em vermos em ação atletas
como Michael Phelps, que parece um degrau acima do patamar possível da
condição humana – pelo menos dentro de uma piscina.
Mas acho que também nos apaixonamos secretamente pelo lado dramático do
esporte. E esse lado se revela bruscamente quando aqueles que não podem
falhar…falham, e o fazem lamentavelmente, como aconteceu com Diego
Hipólito e Daiane dos Santos. Outro dia me comovi com uma chinesinha da
ginástica, que errou um reles movimento e despencou de favorita ao ouro para
a 7ª ou 8ª colocação. Ou seja, ao limbo. O mundo da garota havia
literalmente caído. Há, nesse tipo de esporte, um limite milimétrico entre a
perfeição e o fiasco.
Mas o risco, na verdade, está presente em todas as modalidades esportivas,
incluindo a nossa favorita, o futebol. Talvez o momento mais agudo em que
essa hora da verdade se manifesta seja na cobrança de pênaltis. Muita gente
fala em “loteria dos pênaltis”, mas discordo. Loteria implica acaso, sorte,
pura chance, como ganhar um cara ou coroa com uma moeda perfeita – 50 % para
cada lado. Nada disso. Pênalti pode ser treinado, tanto pelos cobradores
como pelos goleiros. Mas o que talvez defina melhor uma decisão seja o
equilíbrio emocional – essa capacidade de manter o desempenho em nível
ótimo, mesmo sob forte pressão.
Foi isso, talvez, que derrubou Diego Hipólito, a chinesinha, Daiane e tantos
outros. Eles realizam esses movimentos milhares de vezes, à perfeição. Vale
apenas aquele feito na prova, diante do público e das câmeras. E,
principalmente, diante de si mesmo. Como manter-se impassível nessa hora
decisiva? É o que nos perguntamos quando vemos um atleta triunfar, superar
seus limites, ou bater um pênalti de cavadinha, displicentemente, jogando
numa pelada, como fez Zidane na final da Copa do Mundo. Esse mesmo Zidane
que, pouco tempo depois, encerraria sua carreira com a cabeçada no peito de
Materazzi. Controlou-se num caso, perdeu a cabeça em outro. Como entender?
O erro dos fortes nos aproxima deles. É quando se tornam humanos. Demasiado
humanos, como dizia um filósofo de vastos bigodes.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: