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A ‘futebolização’ da política

O clima de intolerância política se parece, cada vez mais, com as disputas entre torcidas organizadas, que não raro produzem vitimas, mesmo entre aqueles que nada têm a ver com a história

Luiz Zanin Oricchio

04 de abril de 2016 | 13h28

 

 

Você, torcedor, sabe como funciona. Toda vez que acontece um clássico na cidade, medidas policiais são tomadas com antecedência. Procura-se evitar a briga entre torcedores, transformados, não se sabe por quê nem desde quando, em inimigos mortais. Essas medidas policiais inibem, mas não evitam a violência.

Ontem, no derby paulistano, aconteceu mais uma vez. Palmeirenses e corintianos enfrentaram-se antes do jogo. Um transeunte, que não tinha nada a ver com aquilo, morreu no confronto em uma estação de trens. Tem sido assim. Pode-se controlar a violência no interior do estádio. O problema é fora dele. A cidade é de extensão impossível de ser policiada por inteiro. E os enfrentamentos acontecem. Provocam vítimas e não apenas entre os brigões. Morre gente inocente, como aconteceu neste domingo. O clássico começou com um minuto de silêncio pela vítima. (Minuto, registre-se, “dividido” com a homenagem ao ilustre palestrino Sandro Vaia, nosso antigo chefe no Estadão, que havia falecido sábado).

Sempre que há uma vítima, os comentaristas esportivos dedicam seu tempo e indignação para comentar o tema da violência no futebol. Nunca vi discussão mais improdutiva que esta, sempre cheia de clichês, redundâncias e preconceitos. No entanto, o tema já foi objeto de estudiosos, tema de teses acadêmicas sem que com isso o mistério tenha sido desfeito e, por isso mesmo, soluções encontradas. A pergunta, de difícil resposta, é “quando e por que motivo, adversários tornam-se inimigos mortais?”. Por que razão um torcedor fanático deseja a destruição (física) de alguém que veste a camisa do clube rival? Não sabemos ao certo.

Torcedores da minha geração têm mais dificuldades ainda de compreender. A gente vem de um tempo em que nem mesmo as torcidas eram separadas no estádio. Convivia-se. Atenção: não digo que se convivia sempre com harmonia. De vez em quando havia xingamentos, até uns safanões. Em definitivo, o ser humano não prima muito pela civilidad, e a ideia de um autocontrole, de autogestão sem a existência de autoridades, parece mesmo pertencer ao campo do sonho mais que da realidade. O anarquismo é a mais bela entre todas as utopias, mas, parece, tão linda quando irrealizável.

No entanto, mesmo havendo esses pequenos entreveros, e mesmo brigas para valer, não ocorria, ao que parece, a nenhum grupo de torcedores “marcar” um confronto prévio com os rivais, armar-se de paus, pedras, porretes e mesmo armas de fogo, e marchar para a guerra com a ira de um cruzado. Essa disposição bélica é, sim, uma novidade, algo dos tempos modernos, quando as torcidas se “organizaram” e passaram a contar com facções que equivalem a milícias. Ainda assim, duvido de soluções fáceis, como a extinção das torcidas organizadas. Mesmo porque, ao que se sabe, muitos desses conflitos são agendados por grupos alheios a essas torcidas. A barbárie ganhou dinâmica própria e funciona de modo independente.

Escrevo tudo isso para registrar mais uma morte lamentável, de alguém que não tinha nada a ver com o assunto, e também porque me parece estar acontecendo algo inquietante no campo social. Aquilo que denominei no título de “futebolização” da política.

Parece notável como grupos pró e contra o impeachment da presidente têm se enfrentado com características que lembram as brigas de torcidas no futebol.

A ponto de a mera cor de uma camisa bastar para criar problemas a quem a veste. Gente que usa camisa vermelha tem sido hostilizada, como se a cor se associasse de modo definitivo ao PT. Um garoto sofreu bullying na escola por vestir uma camiseta…da Suíça, como se os helvéticos, coitados, tivessem alguma coisa a ver com as nossas polarizações políticas. Os casos estão aí, à vista de todos: pessoas que terminam amizades antigas, pois encontram-se em campos opostos, brigas e rompimentos pelo Facebook, famílias divididas, proibição do assunto política à mesa.

O acirramento de posições continua e cresce, a ponto de o ministro das comunicações Edinho Silva ter dito que, se algo não for feito, logo surgirá o primeiro cadáver dessa luta sem trégua. O assédio a políticos em restaurantes (e até hospitais!) já se tornou corriqueiro. Um grupo de cafajestes reuniu-se outro dia em frente à casa do colunista esportivo Juca Kfouri para intimidá-lo, por ser petista, ele que não o é. Mas e esse fosse? Não teria o direito? O assédio no Leblon a Chico Buarque, e tantos outros pequenos incidentes, vão revelando uma intolerância nunca vista ou talvez nunca antes detectada em matéria de política nacional.  Não parece coisa de futebol?

Não à-toa, mas a meu ver de maneira imprecisa, chamou-se a esse estado de coisas de “Fla-Flu”. Termo, se não me engano, inventado por Mário Filho e que designa a histórica rivalidade entre torcedores do Flamengo e do Fluminense. Com a diferença de que o Fla-Flu de verdade rendeu momentos de mágica beleza no velho Maracanã, além de crônicas inesquecíveis do irmão genial de Mário, Nelson Rodrigues. Para Nelson, o Fla-Flu nasceu “40 minutos antes do Nada”. É “anterior ao Gênesis”. Nada menos. 

Este “Fla-Flu” nacional da política é apenas lamentável. E mal podemos sonhar nas consequências que terá para o futuro de uma sociedade que, depois de dilacerar, terá de se entender. Afinal, “coxinhas” e “mortadelas” vivem no mesmo espaço físico, às vezes muito próximos. Não podem se hostilizar eternidade adentro. Ou será que podem? Como no futebol contemporâneo, as rixas podem ser fatais e muito duradouras.

A rivalidade, sob certos limites, pode ser o tempero da vida. O que seria do futebol sem esse desejo algo sádico de derrotar o rival? Pode-se conceber a vida democrática sem uma oposição? Sãos as rivalidades que estimulam os times a jogar melhor. São os confrontos com a oposição que fazem os governos moderar suas atitudes e tornar-se melhores. Esse sistema de balanços e contra-pesos faz parte da vida civilizada.

Em determinados momentos da história saem do controle. No futebol, passa-se do desejo de zoar a torcida adversária à vontade eliminá-la fisicamente. Em política, escorrega-se da rivalidade partidária para a guerra sem tréguas. Não se trata apenas de questionar um governo e derrotá-lo pela via democrática, mas desalojá-lo a qualquer custo, mesmo que seja preciso destruir o país.

Celerados existem desde sempre. Entre torcedores e partidários desta ou daquela facção política. São minoria. A imensa maioria deseja manifestar-se em paz, sem agredir ninguém. Mas a minoria faz um estrago danado. Produz barulho e vítimas. Em geral, em tempos de normalidade, essas minorias são contidas. Mas vivemos no tempo dos lobos à solta. A violência no futebol tornou-se crônica. Será também assim na política?

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